“O fio condutor de toda a minha convivência na América Latina é fazer junto com o povo, para o povo”, afirma a educadora e missionária francesa normanda
“Diria para cuidarem uns dos outros”. O conselho vem da educadora e missionária francesa normanda Anne Marie Crosville, que dedicou quase 50 anos de sua vida cuidando dos mais fragilizados no México, em El Salvador e no Brasil. Nesses países, a missionária leiga não só conheceu as dificuldades dos índios otomís, o drama dos salvadorenhos durante a ditadura militar e a guerra civil, e a pobreza das periferias brasileiras, mas partilhou a vida, motivada pelo desejo de ser missionária. Na periferia de Guadalajara, Anne Marie engajou-se nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), onde conheceu dom Óscar Romero.
“Eu era uma missionária francesa no meio da vila e ele veio conversar comigo. Perguntou sobre minha vida e meu compromisso. Falei com muita simplicidade, mas não esperava que ele me convidasse a radicalizar mais meu compromisso. Ele me disse que em El Salvador estavam precisando de pessoas como eu para ajudar, acompanhar e animar o povo que estava sofrendo demais. (…) Minha reação foi dizer que eu não tinha vocação de mártir”, conta na entrevista a seguir concedida por WhatsApp ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Meses depois desse encontro, dom Óscar Romero foi assassinado por um atirador do exército salvadorenho enquanto celebrava a missa em San Salvador. A morte do arcebispo levou Anne Marie para as zonas de combate, onde encontravam-se os guerrilheiros da FMLN, em El Salvador. “Celebrávamos a Eucaristia e partilhávamos a palavra de Deus no meio dos combates. Eu alfabetizava os combatentes, jovens e crianças. Senti minha fé renovada porque estávamos a caminho de uma terra sem males. Era um tempo de guerra e de combate, mas não era um combate somente pelas das armas; era um combate através da educação, da participação popular, da partilha da palavra de Deus”, relembra.
No Brasil, Anne Marie fundou, juntamente de seu companheiro, Luiz Itamar, o Centro Infanto-juvenil Luiz Itamar, que acolheu crianças na periferia da Cachoeirinha/RS durante mais de três décadas. Atualmente o centro está fechado por causa de um conflito com a prefeitura municipal e aguarda resolução de uma ação judicial. Firme e confiante diante dessa e de outras dificuldades da vida, Anne Marie afirma: “A vida segue, mesmo se aparentemente tudo parece acabado. É como este tempo que estamos vivendo na Quaresma: na vida, atravessamos momentos de deserto. O que vai acontecer? Precisamos acreditar na ressurreição, acreditar que um dia essa vida vai continuar. Acredito muito nisso, mas é preciso atravessar os desertos, se converter, para ter paz no coração e dar paz para os outros”.
No tempo quaresmal, a missionária nos convida a uma mudança de mentalidade. “Temos, nesse tempo de Quaresma, que repensar nosso jeito de viver: uma vida mais simples, que cuida do outro, que cuida da pessoa que está próxima de nós. É no cuidado de uns com os outros e no cuidado da mãe natureza que vamos poder chegar a uma vida em abundância, em plenitude. ‘Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância’. Depende de nós, do nosso compromisso”, afirma.
Anne Marie Crosville (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
Anne Marie Crosville é educadora, graduada em Paris, e pedagoga, com formação no México. Fundou, com Luiz Itamar, do Centro Infanto-juvenil Luiz Itamar, que acolhe crianças e adolescentes em vulnerabilidade social.
IHU – O que a motivou sair da França para viver na América Latina?
Anne Marie Crosville – Sou francesa normanda. Nasci numa pequena cidade chamada Bricquebec, na região da Normandia, no interior da França. Sou de família católica – de agricultores. Uma família bastante solidária, a tal ponto de, durante a Segunda Guerra Mundial, minha mãe ter feito parte da resistência contra o nazismo que dominava a França. Meu pai era combatente e foi preso nos campos de concentração. A experiência deles e o compromisso pela vida, pela democracia e libertação da França do poder nazista, me marcou muito quando era criança. Meu pai falava da importância de respeitar a vida e lutar por ela, por um país democrático. Eles se engajaram pela libertação da França e a construção de um país livre.
Quando meu pai falava dessas vivências e dos momentos difíceis e sofridos, nunca falava em vingança; sempre dizia que aprendeu a conviver e a partilhar. Ele costumava dizer que, mesmo que tivéssemos somente uma migalha de pão, tínhamos que valorizá-la e dar para o outro não morrer de fome. Minha mãe, diferentemente de muitos dos seus companheiros, conseguiu sobreviver ao regime nazista. Ela nos ensinou a sermos solidários em relação aos que mais precisam e desde criança tive esse despertar. Eu gostava muito de ouvir os depoimentos deles e tinha o desejo de um dia ser missionária. Meus pais eram católicos e falavam muito sobre viver a fé com amor. Esse desejo foi crescendo em mim. Inicialmente, pensava em ir para a África, porque muitos missionários estavam indo para lá.
Quando jovem, eu participava seguidamente da Comunidade Taizé, do Irmão Roger, tanto nos fins de semana quanto nos tempos da Páscoa e nas férias. Lá, conheci dois jesuítas mexicanos que estavam dando apoio para a comunidade. Eles contaram sobre a experiência que tiveram junto aos povos indígenas na luta pelo respeito das culturas, sobre a demarcação de terras. Tinham uma fé muito inserida na vida do povo. Isso me chamou a atenção e quis viver essa experiência missionária no México. Nessa época, eu tinha 18 anos e estava trabalhando; tinha me formado como educadora de crianças pequenas.
Aos 20 anos, fui para o México, descobri um país e um continente dos quais nunca tinha ouvido falar. Passei um mês de férias lá e, antes de retornar para a França, disse para meus amigos mexicanos que iria retornar para ficar como missionária. Eles acreditaram sem acreditar porque muitos jovens diziam isso e depois pensavam em outras coisas. Retornei para a França, trabalhei mais uns dois anos numa creche em Paris, até juntar dinheiro e poder retornar. Pedi demissão e fui para o México. Tinha 24 anos.
Para meus pais, essa decisão foi muito difícil. Eles diziam que eu poderia ser missionária na França, onde havia muitas pessoas que também precisam de amor e apoio. Mas eu queria viver o desafio de estar em outra cultura e renovar minha fé. Queria uma fé mais inserida. Então, fui para o México com minha pequena poupança. Os amigos que tinha conhecido na primeira viagem estavam me aguardando no aeroporto e me acolheram muito bem. Essa foi minha primeira experiência com os índios otomís. Vivi dois anos com eles, partilhando, ouvindo. Não sabia o idioma local nem falava muito bem espanhol. Foi um verdadeiro mergulho em outra cultura.
Cheguei lá não para apresentar um projeto, mas para estar junto, aprender com esse povo. No início foi uma experiência difícil porque nunca tinha comido a comida deles: feijão, arroz, milho, panqueca de milho. Aos poucos fui me integrando. Como era educadora, comecei a brincar com as crianças. Num momento, fiquei um pouco desanimada porque estava junto com eles, mas pensava no que, em contrapartida, eu estava dando para eles ou em como eu poderia ajudá-los. Consegui expressar isso para eles e um casal de indígenas me levou a uma pequena comunidade, de três irmãs, da Fraternidade Charles de Foucauld. As irmãs conversaram comigo e disseram que eu não precisava me preocupar em comprovar que estava trabalhando com as comunidades. O importante era estar presente, junto e solidária a eles. Isso me confortou muito e continuei na comunidade por mais um tempo.
Depois, amigos jesuítas tinham um projeto com crianças na periferia de Guadalajara, no estado de Jalisco. Era uma periferia muito pobre. Eles me convidaram a ajudar a organizar um centro para atender crianças que precisavam de reforço escolar no turno inverso da escola. Eu já estava pronta para viver uma nova experiência. Me despedi das famílias indígenas e, sempre que podia, as visitava. A despedida me marcou muito porque os indígenas me agradeceram por ter chegado de mãos vazias, para conhecê-los e ser solidária. Muitos europeus chegavam nas comunidades com projetos, dizendo o que gostariam de fazer. Isso me marca até hoje. O fio condutor de toda a minha convivência na América Latina é fazer junto com o povo, para o povo.
Depois dessa experiência, passei quatro anos em Guadalajara, ajudando as crianças e convivendo com as famílias. Foi nesse período que iniciei a caminhada nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), no bairro Santa Cecília, onde tinha uma comunidade de jesuítas. Trabalhei na formação de educadoras da comunidade para motivar as jovens a ajudar no projeto e, ao mesmo tempo, receberem uma formação. Nessa vila tinha uma CEB e foi aí que comecei a ligar a fé com a vida e a aprender a ouvir a grande sabedoria do povo.
Nós fazíamos a partilha do evangelho nos encontros da CEB. Uma senhora analfabeta participava e me chamava a atenção que a Bíblia dela estava com as páginas amareladas de tanto folhear. Ela vivia com a palavra de Deus sem poder ler; lia com o coração. Ela me dizia que não sabia ler, mas conhecia bem a palavra de Deus. Isso me marcou. A sabedoria e a fé profunda do povo, a partir da sua vivência e fragilidade, nos dão vida e amor.
IHU – Foi neste período que você conheceu dom Óscar Romero?
Anne Marie Crosville – Sim. Nesses quatro anos que estive na vila Santa Cecília, encontrei dom Oscar Romero. Como o povo de El Salvador sofria repressão do governo, muitas famílias fugiam do país e eram acolhidas pelas famílias que moravam nessa vila, no México. Eram pobres acolhendo os mais pobres; sempre tinha lugar para mais uma pessoa, mesmo em condições precárias. Óscar Romero era coordenador das CEBs na América Central e, quando esteve no México para participar de alguma reunião, aproveitava a ocasião para visitar algumas famílias salvadorenhas que moravam nessa vila. Foi aí que o conheci.
Eu era uma missionária francesa no meio da vila e ele veio conversar comigo. Perguntou sobre minha vida e meu compromisso. Falei com muita simplicidade, mas não esperava que ele me convidasse a radicalizar mais meu compromisso. Ele me disse que em El Salvador estavam precisando de pessoas como eu para ajudar, acompanhar e animar o povo que estava sofrendo demais. Disse que quando eu retornasse para a França eu poderia ser uma mensageira da situação do povo dele. Um povo que queria viver em paz, que queria lutar pela vida e pela paz, com justiça social. Mas quando a população se organizava via mobilizações e manifestações para pedir aumento salarial ou moradia, a manifestação sempre terminava com balas. Ao invés de dialogar, o governo respondia com balas, violentamente. Ele me disse, novamente, que precisavam de pessoas como eu em El Salvador, que o convite estava feito. Minha reação foi dizer que eu não tinha vocação de mártir. Fazia o que podia para ajudar, mas não queria ser mártir.
IHU – Quando e como tomou a decisão de ir para El Salvador?
Anne Marie Crosville – Nos encontramos umas três vezes em 1979. Ele me disse que estava rezando por mim, pedindo o melhor para mim e para o povo dele, para que o povo conseguisse viver em paz. Ele me disse novamente que o convite estava feito. Respondi que precisava de um sinal, porque não me sentia capaz de ir a El Salvador. Nunca pensei que o sinal fosse o assassinato dele, uns meses depois. Quando soube do assassinato, tomei a decisão de ir para El Salvador. Isso foi nítido para mim que deveria ir. Mas precisei de três anos para me preparar e buscar os meios de como chegar em El Salvador e me inserir com o povo que estava na zona de combate.
IHU – Você ficou com os jesuítas inicialmente?
Anne Marie Crosville – Não. Encontrei padres que estavam na zona da guerrilha; não havia jesuítas lá. Eles estavam na Universidade Centro-Americana (UCA). Conheci brevemente o padre Ignacio Ellacuría; foi um encontro relâmpago quando eu estava em San Salvador, aguardando para passar para as zonas da guerrilha, de combate. Ele estava caminhando numa rua (naquela época tinha que cuidar muito para não conversar porque estávamos na boca do inimigo) e, quando ele passou (eu já tinha visto a foto dele), perguntei se era o padre Ellacuría. Ele confirmou e eu apenas disse quem era e que estava me preparando para ir para as zonas da guerrilha. Ele me disse para ter força e não falamos mais porque era bastante perigoso.
Nas zonas de combate tinham dois padres, um belga, que acaba de falecer, chamado Roger Ponce, que viveu na zona de combate doze anos com o povo, e o padre Miguel Ventura, que agora é casado e continua celebrando no assentamento Segundo Montes. Com o fim da guerra civil, foram organizados, com o governo da FMLN [Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional], assentamentos para acolher o povo do campo.
O padre Miguel era o pároco desse assentamento. Depois, ele se casou, mas o povo pediu para ele continuar sendo o pároco da comunidade e ele continua lá. Esses dois padres acompanhavam os combatentes. Eles não combatiam, mas davam apoio às pessoas. Celebrávamos a Eucaristia e partilhávamos a palavra de Deus no meio dos combates. Eu alfabetizava os combatentes, jovens e crianças. Senti minha fé renovada porque estávamos a caminho de uma terra sem males. Era um tempo de guerra e de combate, mas não era um combate somente das armas; era um combate através da educação, da participação popular, da partilha da palavra de Deus.
Comunidade de Segundo Montes, celebrando dia de Ramos com Miguel Ventura (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
IHU – Por que escolheu ir para as zonas de guerrilha?
Anne Marie Crosville – Quando decidi ir para El Salvador, não tinha muita alternativa. Eu queria acompanhar o povo organizado em diferentes frentes de guerra e estar junto com eles para, de novo, mergulhar num contexto de guerra muito difícil e de sofrimento. Foi uma decisão que muitos não entenderam. Muitas pessoas da França perguntavam se eu estava louca ou se queria morrer. Eu não queria morrer, mas queria viver no meio de um povo que lutava pela sua libertação. Meus pais sofreram muito com essa decisão. Eles me diziam que sabiam como era a vida na guerra e não queriam isso para mim, porque era muito perigoso. Poderiam me prender, torturar – eram fascistas. Mas eu dizia para meus pais que queria ter o mesmo compromisso que eles tiveram. No fundo, eles tinham muito orgulho porque eu sempre admirei e reconheci o compromisso deles durante a Segunda Guerra Mundial, um compromisso de salvar seu povo da dominação do nazismo. Eu dizia para eles que queria fazer o que eles também tinham feito para construir uma França livre. Ou seja, queria ajudar aquele povo, mesmo que fosse pouco o que eu poderia fazer.
IHU – Nas zonas de combate, você alfabetizou os que não sabiam ler e escrever. Como foi essa experiência?
Anne Marie Crosville – Dei apoio a esse povo por meio da educação, do aprendizado da escrita e da leitura. Naquele tempo de luta pela vida na guerra civil de El Salvador, alfabetizei crianças, jovens e adultos, muitas vezes no chão, com um pedaço de papel de cigarro. Muitas vezes, não tínhamos canetas para todo mundo; usávamos galhos de árvores para escrever o nome deles e as letras no chão. Tudo era muito precário. Mas tínhamos a força da luta pela vida, pela terra prometida. Essa caminhada, que tive a graça de viver na América Latina, é uma caminhada rumo a terra sem males, a terra prometida, onde tem pão para todos, moradia para todos, como sempre fala o Papa Francisco: terra, teto, trabalho.
Crianças do acampamento, na zona de combate, em El Salvador, com o educador popular Ricardo (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
Crianças do acampamento apreendendo a ler e escrever (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
Corito, alfabetizado e escrevendo seu nome (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
IHU – Como foi seu contato com os guerrilheiros da FMLN? O que recorda das relações e conversas com eles?
Anne Marie Crosville – Durante a guerra, havia cinco organizações nas zonas: cristãs, marxistas, leninistas, trotskistas e o Partido Comunista. Todas tinham o mesmo objetivo: lutar pela democracia e liberdade do povo salvadorenho para reconstruir um país democrático, participativo, com educação popular, saúde e trabalho digno. Esse era o objetivo da FMLN. Não posso falar de cada uma dessas organizações, mas os cristãos tinham uma inspiração em Marx. Meu contato com eles era muito bom. Tínhamos um relacionamento fraterno. Claro que havia as exigências da guerra e tínhamos que obedecer às ordens dos comandantes – e era difícil discutir ordens. Nunca tinha vivido numa guerra, então, aprendi a falar e a perguntar o mínimo possível por medo de ser presa depois e saber muitas informações.
Quando se é preso e levado para a tortura, a pessoa pode acabar dando informações. Por isso, falávamos o mínimo possível. Mas tínhamos momentos de partilha da vida, de alegria, de celebrações através da celebração eucarística. No meio dos bombardeios, celebrávamos a Paixão e Ressurreição de Cristo por meio da Eucaristia, pão vivo no meio de nós. Esses eram momentos que nos fortaleciam muito. Nos alegrávamos quando podíamos ter um momento mais calmo para cuidar uns dos outros. Ainda tenho relação com algumas pessoas que integravam a FMLN, como a minha comandante.
Eu estava na organização dos trotskistas porque tive um contato mais fácil com eles. Não tive nenhum problema com eles e me respeitavam. Nos momentos de celebração da palavra e celebração eucarística de Deus, éramos livres para participar. Durante aquele tempo, me senti fazendo parte desse povo, lutando pela vida. Com os guerrilheiros, éramos como uma família. Foi uma das experiências mais fortes que vivi na minha vida. Quando se fala em guerrilheiro, se pensa em comunismo, terrorismo, mas, naquele tempo, guerrilha era o povo organizado em luta pela sua libertação.
Mulheres na luta pela libertação de El Salvador (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
Anne Marie com a comandante Nídia, entregando diplomas aos alunos e alunas alfabetizados (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
Diploma que Anne Marie recebeu do comandante Roberto Rocca, do partido trotskista, que fazia parte da FMLN. Na guerra, o nome de Anne Marie era Amanda (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
IHU – Que memórias você tem desse período de guerra civil e ditadura?
Anne Marie Crosville – Foi terrível. Uma repressão e uma crueldade de parte do governo salvadorenho, apoiado pelos Estados Unidos. O governo americano enviava um milhão de dólares por dia ao governo salvadorenho para acabar com a guerra contra a guerrilha e o povo organizado, que defendia a vida e a democracia. Pessoalmente, não assisti os momentos em que os militares salvadorenhos conseguiram pegar civis nas zonas de combate e os torturavam e os mandavam para centros de tortura. Houve muitos mártires anônimos. Qualquer opositor ao governo era vítima de repressão.
Uma amiga minha, que era enfermeira francesa, foi para em El Salvador ajudar na área da saúde. Ela passou anos na guerrilha como enfermeira e médica, atendendo feridos. Um dia, os militares, de surpresa, entraram no acampamento em que ela estava. Os companheiros da FMLN disseram para ela que precisavam fugir por causa da invasão militar e ela perguntou o que iriam fazer com os feridos que precisavam de transporte. Ela escolheu ficar ao lado dos feridos no hospital de campanha. Foi violentada, torturada, cortaram a mão dela e depois a mataram, juntamente com outra enfermeira salvadorenha e os feridos. Ela foi um exemplo de doação total, de ir até o fim para defender a vida. Ela tinha 28 anos. Chamava-se Madeleine Lagadec.
Assim era a ditadura: não dava possibilidade de as pessoas se defenderem. Ela foi assassinada em 15-04-1989, quando eu já estava no Brasil. Ainda mantenho contato com os pais dela, que hoje estão com 90 anos. Para eles, ela é uma mártir que deu sua vida para salvar vidas, para dar vida a um povo. Isso me marcou muito porque ela era da minha região e entrou nas zonas de combate depois que eu já tinha retornado para a França. Aquele foi um período cruel. Passamos fome, sede. Caminhávamos 24 horas, 48 horas sem parar, porque o inimigo estava atrás de nós, e tínhamos que cuidar uns dos outros. Quando um companheiro ou companheira estavam cansados, carregávamos uns aos outros, numa grande solidariedade.
IHU – Por que precisou fugir de El Salvador? O que recorda daquele momento?
Anne Marie Crosville – Eu fui expulsa de El Salvador e considerada inimiga da pátria. O governo descobriu que havia internacionalistas nas zonas de guerrilha e então tive que fugir e voltei para a França. Essa foi a experiência mais dolorosa. Alguém se infiltrou no acampamento e me denunciou aos militares, colocando em risco a minha vida e a vida dos companheiros do acampamento. Saí, deixei tudo e não consegui abraçar nem me despedir de ninguém. Assim é na guerra, tudo muito injusto. Saí de lá e fui para San Salvador. Uma família da organização me acolheu. Fiquei na casa deles um mês para fazer documentos novos e saí com outra identidade. Aquele mês foi terrível. Fiquei trancada num quarto, sem poder sair, até a documentação estar pronta.
Saí do país como salvadorenha. Imagina, não tenho nada de salvadorenha. Na nova documentação, eu era da família do presidente [José Napoleón] Duarte, que governava El Salvador naquele tempo e tinha família na Europa – tudo era muito estudado e tinha uma organização muito bem bolada. Me maquiaram, me vestiram e me levaram até a Guatemala, de carro, mas, quando chegamos na fronteira, lá estava a minha foto: “Procura-se. Inimiga da pátria!”, prometendo recompensa para quem me encontrasse. Imagina o que se pode sentir nessa hora. Pensei que iria morrer, mas não no acampamento com o povo, mas sozinha, porque iam capturar. Consegui passar pela fronteira na madrugada e não precisei descer do carro. Esse foi o primeiro ponto positivo.
Depois, me levaram da Guatemala para o México. Viajei sozinha de avião. Lá, tive problemas com a imigração. Perguntaram se eu era salvadorenha e contei a história que tinha sido orientada: era salvadorenha, mas viajava muito para a Europa porque tinha família lá. Eles perceberam que eu tinha sotaque ao falar espanhol. No fim, me deixaram passar. Amigos mexicanos já estavam me esperando e me acolheram. Passei 15 dias no México e fui até a embaixada francesa. Expliquei que tinham roubado meu passaporte e o visto e me deram documentos para retornar para a França. Quando cheguei na França, não tinha nem mala; somente uma caixa de papelão e uma pequena bolsinha. Meus pais, minha família e amigos estavam me aguardando, mas a polícia francesa não me liberou imediatamente; me acusaram de tráfico de drogas. Depois, terminou me liberando. Foi um reencontro emocionante com a minha família e recomecei a minha vida na França, com a lembrança das palavras de dom Óscar Romero, de que eu seria mensageira do seu povo no meu país. Comecei a participar de comitês solidários e dar depoimentos sobre a situação de El Salvador.
Reencontro de Anne Marie com o pai, Bernard (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
IHU – Quando e por que decidiu mudar para o Brasil?
Anne Marie Crosville – Dom Romero tinha me dito para ser mensageira, então, fiz isto: ajudei, com outros grupos, a organizar comitês de solidariedade. Contava minha história e dava depoimentos da situação do povo salvadorenho. Depois, fui convidada a participar de uma reunião em Paris, com o coordenador latino-americano da Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes - FCD, o brasileiro Luiz Itamar. Eu conhecia o movimento da Fraternidade Cristã e participei dessa reunião.
Voltei para a França em 1985 e conheci Luiz Itamar no fim de 1985. Foi o amor à primeira vista por ele que me trouxe ao Brasil. Ele era tetraplégico, tinha uma doença degenerativa, e, juntos, iniciamos um trabalho com crianças e adolescentes em vulnerabilidade social na cidade de Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre. Isso já faz 37 anos. Foi um novo desafio.
Anne Marie e Luiz Itamar (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
Itamar era da região de Cachoeirinha. Morava com a mãe na vila Anair. Decidimos ir ao encontro das crianças e adolescentes em vulnerabilidade social. Ele era cadeirante; tinha esclerose lateral amiotrófica. Com a ajuda da Associação Vila Fátima, da França, criamos uma associação de solidariedade com as famílias da vila Anair para acolher as crianças, sobretudo no turno inverso da escola. A proposta era ajudar crianças que precisavam de apoio e estavam na rua. Em 1988, celebramos nosso compromisso, nosso amor, no meio da vila, com amigos da França que participaram desse compromisso. Ele faleceu em 1989, logo depois que iniciamos o projeto. Decidimos que se ele morresse, eu iria continuar junto com as crianças e foi o que aconteceu. O espírito do Itamar continua presente nesse projeto. Hoje, depois de 37 anos, centenas de crianças se criaram conosco e formamos uma grande família.
Animadora Vera, da Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes, no Centro Luiz Itamar (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
Itamar era um cristão muito comprometido e vivenciou sua fé através do movimento da Fraternidade, junto a doentes e deficientes. Ele tinha uma fé inabalável e costumava dizer que a vida é mais forte do que a nossa fragilidade. A vida é mais forte que as forças do mal.
IHU – Como fez para levar o projeto adiante depois da morte do Itamar?
Anne Marie Crosville – Continuamos o projeto com apoio da Associação Vila Fátima. Houve muitos intercâmbios: jovens da paróquia onde nasci vieram para cá, assim como pessoas de outros movimentos. Tivemos o apoio do governo estadual, quando Olívio [Dutra] era governador, e do governo municipal, quando houve uma gestão do PT na cidade. Junto com as famílias e alguns empresários, fomos construindo o projeto e resistindo. Hoje, os jovens que eram crianças e participaram do projeto já são pais de família. Alguns, graças ao projeto do governo Lula [ProUni], conseguiram estudar na faculdade. Outros construíram uma vida mais digna. O Centro Itamar continua vivo no coração das crianças, hoje adultas, e dos filhos desses jovens.
Festa de dia das crianças no Centro Luiz Itamar (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
IHU – Qual a situação do centro atualmente?
Anne Marie Crosville – Infelizmente, o atual prefeito de Cachoeirinha não desenvolve políticas públicas nas vilas populares. Tivemos que fechar o centro durante a pandemia. Depois, houve um temporal e o local estava em reforma. Uma das creches municipais também foi atingida pelo temporal e o prefeito pediu o nosso espaço emprestado para acolher as crianças da creche em função da pressão dos pais. Nós estávamos reorganizando as nossas atividades e queríamos continuar nosso trabalho, então, não emprestamos o espaço. O prefeito não gostou e um dia, sem nossa autorização, quebraram os cadeados e entraram no centro. No momento, estamos na rua. É uma injustiça profunda. Nós processamos a prefeitura e apresentamos a documentação para a juíza que, num primeiro momento, nos apoiou, mas, agora, o caso está na justiça. O prefeito tinha prometido que, enquanto usava o centro, iria nos emprestar um local para continuarmos nossas atividades, mas, até hoje, nada disso foi feito. O Centro Luiz Itamar continua resistindo. No ano passado, celebramos o Natal com as crianças numa pracinha. Temos a esperança de que o centro nos seja desenvolvido. No momento, conseguimos uma sala para continuar o apoio psicológico às crianças e a realização das atividades uma vez por semana.
Jacques Alfonsin, nosso advogado, tem esperança de que nos devolvam o centro. Estamos sofrendo uma profunda injustiça de parte do poder judiciário de Cachoeirinha. Estamos aguardando resposta do judiciário desde janeiro de 2024 em relação ao Centro Luiz Itamar. Nunca pensei que aconteceria isso. Vivi muitos momentos de tempestade, mas nunca esperávamos por essa situação. Nós inauguramos o novo prédio do centro em 2000. Hoje, estamos nessa situação inacreditável. Mas continuamos na resistência e na esperança. O Centro Luiz Itamar vive.
Celebração do Natal na praça com crianças atendidas pelo Centro Luiz Itamar (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
IHU – Estão aguardando a resolução do caso na justiça?
Anne Marie Crosville – Sim, mas não sabemos quanto tempo vai levar.
IHU – Quais foram os momentos mais difíceis e alegres ao longo da sua trajetória de missão na América Latina?
Anne Marie Crosville – O momento mais difícil foi dar um passo e deixar minha família chorando, sofrendo, sem entender bem por que eu ia para tão longe. Não é que não concordassem de eu ser missionária, mas não entendiam a escolha pela América Latina, num contexto de ditaduras e por ser tão longe. Deixar minha família nesse clima de incompreensão foi difícil, mas superei. O segundo momento foi quando me avisaram que entrou um traidor dentro do acampamento onde estávamos nas zonas de combate em El Salvador e tive que fugir sem poder me despedir de ninguém. Me levaram para San Salvador e tive que viajar com outra nacionalidade. Essa foi uma dor muito grande porque não consegui abraçar as pessoas nem me despedir e tampouco sabia se iria sobreviver a essa ameaça. Depois, o falecimento do Itamar. Durante um momento me senti humanamente desnorteada. O quarto momento é o que está acontecendo hoje: roubaram o nosso centro.
Os momentos alegres são muitos, como a alegria da minha escolha. Sou uma pessoa tímida, que tinha dificuldades nos estudos. Tinha que estudar muito para conseguir passar nas provas, mas tinha sempre uma determinação dentro de mim: vou ser o que eu quero ser, ser missionária apesar de tudo. Superei os desafios. Nunca pensei em ir para a América Latina, mas foi uma alegria ter feito essa escolha e ter conseguido. O segundo momento foi o encontro com os indígenas, que me acolheram, apesar de ser de fora, e me deixaram viver no meio deles. Essa foi uma grande alegria. Depois, claro, o encontro com dom Óscar Romero, sua simplicidade e seu amor pelo povo. Ele dizia que a vida estava sempre em primeiro lugar e a vida do seu povo lhe importava. Depois, o encontro com Itamar, que me levou ao Brasil e permitiu viver um amor forte. Tenho uma experiência de 48 anos vivendo na América Latina. Tudo isso me ajudou muito a crescer como mulher, militante e cristã.
IHU – O que aprendeu vivendo em meio a diversas situações de fragilidade?
Anne Marie Crosville – Aprendi que não podemos desistir nunca. Não vou dizer que não tive momentos difíceis – e tenho, agora, com o roubo do nosso espaço, que construímos com o engajamento da comunidade e da Associação Vila Fátima –, mas aprendi que a chama da esperança está sempre acesa. Quando nos roubaram o espaço do centro, deu vontade de dizer: “acabou”. Mas acabou e não acabou porque tudo que foi construído junto com as crianças – e na vida delas – não vai acabar nunca. A vida segue, mesmo se aparentemente tudo parece acabado. É como este tempo que estamos vivendo na Quaresma: na vida, atravessamos momentos de deserto. O que vai acontecer? Precisamos acreditar na ressurreição, acreditar que um dia essa vida vai continuar. Acredito muito nisso, mas é preciso atravessar os desertos, se converter, para ter paz no coração e dar paz para os outros.
IHU – Como cultivou a fé ao longo da sua vida? Como foi ser missionária e evangelizar em terras distantes?
Anne Marie Crosville – Fui evangelizada. Não evangelizei ninguém. Descobri a fé inserida na vida na América Latina. Não digo que na França não exista uma fé inserida. Mas eu, pessoalmente, redescobri minha fé nas CEBs, nas relações com as pessoas. No Centro Itamar, acolhíamos e espero continuarmos acolhendo – se não eu, outros – crianças, sejam elas evangélicas, sejam da umbanda, candomblé. A evangelização é o amor. É a base de tudo. Humanizar a vida é amar, amar de verdade, amar sem medo. Um amor que se vive no dia a dia, no meio das fragilidades. Sempre tem um sopro soprando amor, confiança, fraternidade.
A experiência na América Latina fortaleceu esse amor. A vida é um grande movimento e vou continuar a caminhada. Não sei como será, mas vou continuar. Talvez com os migrantes, quando retornar para a França. Sei que meu caminho é através das situações de fragilidade, de sofrimento. Ajudar e aprender dessas pessoas, irmãos e irmãs, porque hoje vivemos tempos sombrios, de muita intolerância, muito ódio, mas não podemos desistir do amor.
Anne Marie com os teólogos Jon Sobrino e José Comblin, em seminário na Universidade Centro-Americana, durante as comemorações do martírio de São Óscar Romero (Foto: Arquivo pessoal de Anne Marie Crosville)
IHU – Como cultiva sua espiritualidade no dia a dia?
Anne Marie Crosville – Me ajuda muito o evangelho diário. Leio ou escuto através das redes sociais. É um alimento para mim. Gosto de ouvir o evangelho e depois entregar minha jornada para o Deus da vida. Todos os dias faço isso. Às vezes, acompanho a reflexão do frei Armando, de Gravataí, que faz um comentário sobre um salmo ou sobre o evangelho. Sempre começo o meu dia orando e tenho uma confiança – como minha mãe tinha também – em nossa Senhora de Lourdes, em madre Chantal e são Óscar Romero. Quando aconteceu essa situação no Centro, rezei para madre Chantal, pedi ajuda, porque ela viveu muitas experiências parecidas em outro contexto. Nós conversávamos muito e continuo conversando com ela. Tenho muitas cartas que ela me escreveu e é como uma mãe para mim, uma segunda mãe, porque a minha mãe era muito especial e parecida com a madre Chantal.
IHU – O que diria para os jovens?
Anne Marie Crosville – Primeiro, para não terem medo de serem jovens, mesmo com as dificuldades, com os problemas. A juventude tem que se encontrar, se olhar, conversar, provocar encontros presenciais entre eles. Estar juntos nos ajuda a não desanimar. Os jovens se isolam muito no celular e por isso é importante organizar encontros para ajudá-los. Como mensagem, digo: jovens, nós precisamos de vocês para reconstruir os espaços de partilha, de alegria, de convivência, para que o país seja mais alegre, justo e tolerante.
IHU – Que mensagem deixa para os leitores e as leitoras viverem bem este tempo de Quaresma?
Anne Marie Crosville – Diria para cuidarem uns dos outros, começando pelo cuidado da mãe terra, da mãe natureza, porque tudo está interligado. Se a mãe terra não está bem hoje, está muito agredida, nós também não estamos bem. Há, dentro de nós, um desejo de consumir cada vez mais e, por isso, nossa sociedade está intolerante, consumista. Temos que reaprender a cuidar uns dos outros, cuidando da mãe terra que nos nutre, que é a criação de um Deus que é amor. Temos, nesse tempo de Quaresma, que repensar nosso jeito de viver: uma vida mais simples, que cuida do outro, que cuida da pessoa que está próxima de nós. É no cuidado de uns com os outros e no cuidado da mãe natureza que vamos poder chegar a uma vida em abundância, em plenitude. “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”. Depende de nós, do nosso compromisso.