Autismo episcopal. Artigo de José Parrales

Foto: Blog da Revista Fórum Cultural

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15 Setembro 2026

O modelo de formação em seminário isola os candidatos da dinâmica comum do mundo. Isso é agravado por uma estrutura estritamente hierárquica e por uma tensão fundamental entre a missão que a Igreja se atribui e o ritmo da modernidade, distanciando-os…

O artigo é de José Parrales, teólogo leigo, publicado por Religión Digital, 14-09-2026.

Eis o artigo.

No debate público contemporâneo, surge frequentemente uma perplexidade relacionada à aparente desconexão com que alguns membros da hierarquia católica percebem e interpretam as mudanças sociais. O que o observador comum percebe como um isolamento autoimposto, alienado das tensões cotidianas dos cidadãos comuns, na verdade deriva de dinâmicas institucionais, sociológicas e teológicas profundamente enraizadas, desenvolvidas ao longo dos séculos. Isso não é surpreendente, visto que o autismo apresenta graus e formas variadas, e muitos líderes mundiais da atualidade exibem traços autistas.

Para compreender a lacuna entre a hierarquia e a sociedade civil, diversos sociólogos e teólogos apontam para o conceito de "clericalismo", uma cultura institucional centrada no estatuto autorreferencial do clero. Desde tenra idade, o modelo de formação teológica isola os candidatos das dinâmicas comuns dos mundos do trabalho, da família e das finanças. Esse isolamento progressivo molda estruturas conceituais abstratas que priorizam a norma em detrimento das experiências vividas pelas pessoas.

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Essa formação isolada é agravada por uma estrutura de governança estritamente vertical. Ao contrário das instituições modernas baseadas na representação e na prestação de contas, o episcopado opera dentro de um sistema de cooptação, no qual os leigos desempenham um papel meramente consultivo. Sem a necessidade de responder diretamente às demandas da comunidade, há menos incentivo para adaptar discursos ou questionar as formas tradicionais de autoridade.

Por outro lado, existe uma tensão fundamental entre a missão que a Igreja se atribui e o ritmo da modernidade. Da perspectiva episcopal, o bispo é um guardião de "verdades eternas" imutáveis, o que entra em conflito direto com uma sociedade civil que avança rapidamente em questões de diversidade, direitos individuais e dinâmica familiar. Ao privilegiar a doutrina dogmática em detrimento da experiência empírica, o discurso eclesiástico acaba utilizando códigos e linguagem que a sociedade percebe como anacrônicos.

Mesmo dentro da própria instituição, essa "autorreferencialidade" tem sido identificada como um problema central. O Papa Francisco alertou repetidamente para o perigo de uma Igreja "doente por estar fechada em si mesma", promovendo o conceito de sinodalidade — um modelo de maior escuta e participação — para tentar desmantelar o clericalismo.

O distanciamento demonstrado por certos setores do episcopado não se deve a nenhuma circunstância particular, mas sim à inércia de um sistema concebido para preservar a tradição, onde o isolamento do ambiente circundante se tornou, paradoxalmente, um mecanismo de autoproteção institucional. Isso gera novas gerações de bispos que parecem quase autistas.

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