Em direção a um perfil de um confrade leigo missionário do Evangelho no mundo de hoje

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14 Agosto 2026

O desenvolvimento das confrarias e da piedade popular pode ser favorecido pela luz do magistério conciliar e da sinodalidade.

O artigo é de Rocco Gumina, publicado por Vino Nuovo, 14-08-2026. 

Rocco Gumina ensina religião na arquidiocese de Palermo. Desde 2014 é presidente da associação cultural "A. De Gasperi". Publica artigos em revistas especializadas que desenvolvem temas relacionados à relação entre teologia, espiritualidade e política.

Eis o artigo.

Há alguns dias, no santuário da Madonna del Ponte, na Arquidiocese de Monreale, na Sicília, me vi refletindo sobre temas como evangelização, leigos e piedade popular, junto com vários membros de confrarias reunidos para um momento de espiritualidade e formação.

Minha apresentação teve como objetivo identificar um irmão leigo missionário do Evangelho no mundo atual. Para desenvolver o tema, reli diversos documentos do Concílio Vaticano II e os ensinamentos recentes dos bispos sicilianos, relacionando-os ao processo de sinodalidade iniciado em setembro de 2021 e fortemente apoiado pelo Papa Francisco.

Das páginas do Novo Testamento, extraídas do Concílio, fica claro que a Igreja nasce de um mandato missionário que coincide com o anúncio do Evangelho a todos os povos, sem exceção. Isso faz da comunidade eclesial uma realidade dinâmica, extrovertida e aberta, nunca estática ou conservadora. Com a recepção do sacramento do batismo, o fiel experimenta a morte e a ressurreição de Jesus, entrando assim no mistério da salvação como protagonista no anúncio do Reino.

A natureza missionária da Igreja e o dever dos cristãos de testemunhar o Evangelho conduzem a uma espécie de conversão-reforma perpétua, pessoal e comunitária. De fato, a introdução ao mistério de Cristo oferece ao fiel um caminho que prepara para uma mudança de mentalidade em relação aos costumes, ao modo de vida na família, no trabalho e na sociedade. Essa abordagem, além de se distanciar de orientações existenciais contraproducentes, nos encoraja a interpretar a experiência da fé na relação integral entre corpo e espírito, entre história e espiritualidade, entre a busca do bem comum e a oração.

Como nos recorda o Concílio Vaticano II, os leigos participam da missão régia, profética e sacerdotal de Cristo por meio de sua natureza secular específica: “Pela própria vocação, os leigos buscam o Reino de Deus, participando dos assuntos temporais e ordenando-os segundo o plano de Deus” (Lumen Gentium, 31).

Consequentemente, os leigos, incluindo os membros das confrarias, vivem em suas famílias, na sociedade e em seus locais de trabalho, e aí são chamados a testemunhar e proclamar o Evangelho. Assim, cabe aos leigos iluminar e ordenar o mundo inteiro a Cristo. Portanto, não pode haver oposição entre o trabalho e o Evangelho, entre a sociedade e o Evangelho, entre a política e o Evangelho, entre a família e o Evangelho.

Em vez disso, através do trabalho, do compromisso com a cidade, da vida familiar, o leigo vive e comunica a boa nova, respeitando a natureza secular do mundo, isto é, a bondade natural de toda a criação: "em todo lugar e em todas as coisas (os leigos) devem buscar a justiça do Reino de Deus" (Apostolicam actuositatem, 7).

Além disso, convém notar que a vida das confrarias está intimamente ligada à piedade popular. Esta é incentivada e regulamentada pela Igreja, pois geralmente se trata de um exercício preparatório para a liturgia, ou seja, para o encontro com Cristo. Assim, a religiosidade popular é uma expressão de espiritualidade que deve ser cultivada, redescoberta, apoiada, mas não desprezada, visto que é um meio de adesão e desenvolvimento da fé, desde que se evite o sectarismo, a estreiteza de espírito e o fundamentalismo.

A piedade popular, difundida no sul da Itália, é rica em valores e permite uma abordagem simples de verdades importantes da fé, como a misericórdia de Deus, a providência, o amor mútuo, o exercício da paciência e a busca da justiça no cotidiano. De fato, para Paulo VI, se bem orientada: “essa religiosidade popular pode ser, cada vez mais, para as nossas massas, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus” (Evangelii Nuntiandi, 48).

Concluímos que não podemos nos resignar a observar a degeneração da religiosidade popular em folclore, na encenação de festas de aldeia e, por vezes, até em gangues criminosas. Em contrapartida, uma piedade popular curada e purificada, por um lado, preserva e delineia uma espécie de humanismo cristão-mediterrâneo; por outro, reconhece, denuncia e exige a superação de certas formas de degeneração masculina ligadas ao patriarcado, à violência, ao alcoolismo, à superstição, ao vício em jogos de azar e à pornografia.

Portanto, segundo os bispos sicilianos, devemos redescobrir "a grande importância da piedade popular como experiência e como reservatório de valores a serem preservados e fomentados [...] nos quais emerge o entrelaçamento da expressão divina e da consciência humana, entre a tenacidade da fé e o vigor do ethos" (Convertitevi, 3.3).

O caminho das confrarias, enfim, entrelaça-se com o da Igreja, que recentemente, e universalmente, confrontou a extraordinária importância da sinodalidade como critério para verificar sua vitalidade. O Sínodo sobre a Sinodalidade, iniciado por Bergoglio, foi uma oportunidade para embarcar numa jornada de escuta das Escrituras, do Espírito e da criatividade dos fiéis.

Se, como já foi afirmado diversas vezes nos últimos anos, a sinodalidade é a verdadeira forma da Igreja, deduzimos que a Igreja — em vez de se preocupar com a inquietação e a imaginação — deve deixar-se desafiar pela escuta. Uma escuta que deve ser exercida a partir das periferias internas do Povo de Deus (indivíduos marginalizados, carismas não reconhecidos e humilhados, perfis indesejados) e capaz de ir além do paternalismo convencional para fomentar a comunhão — a complexidade da parcialidade.

Em suma, uma escuta capaz de apoiar a franqueza e a coragem necessárias para levantar problemas, enfrentar desafios, concedendo a todos um verdadeiro papel de liderança através de uma comunhão vivida com seriedade, e não por meio de conversas banais.

Em conclusão, da reflexão sobre os irmãos leigos missionários do Evangelho no mundo de hoje, emerge um perfil alicerçado em três pilares. O primeiro é a consciência de fé que impulsiona a participação na missão da Igreja no mundo – um mundo do qual não se foge, mas que se acolhe para transformá-lo.

Em seguida, vem a atenção ao contexto, entendida como a capacidade de compreender e interagir com o próprio território para combater a cultura da morte e promover a cultura da vida. O último pilar é a experiência eclesial, vivida na franqueza da escuta atenta, da mediação e da acolhida da pluralidade. Destes fundamentos emerge – para usar as palavras do escrito A Diogneto – uma espécie de cidadania paradoxal dos cristãos, e portanto dos irmãos, que no mundo não se distinguem pela língua, região, costumes, tradições, medalhas ou hábitos, mas sim pela qualidade de suas vidas, da qual brota o amor a Deus e aos homens e mulheres.

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