Congelar óvulos é a nossa liberdade? Artigo de Michela Marzano

Congelamento de óvulos. (Foto: Canva)

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13 Agosto 2026

A decisão de Alexandria Ocasio-Cortez nos desafia a todos. E se torna uma questão política. Se estamos realmente preocupados com a queda da taxa de natalidade, devemos parar de olhar para os ovários das mulheres e começar a olhar para o mundo no qual as incentivamos a se tornarem mães.

O artigo é de Michela Marzano, pesquisadora, filósofa e escritora italiana, publicado por La Repubblica, 13-08-2026.

Eis o artigo.

"Quero ter total controle da minha vida." Essas foram as palavras que Alexandria Ocasio-Cortez usou para explicar sua decisão de congelar seus óvulos, em uma publicação nas redes sociais enquanto fazia aplicações de hormônios. Uma decisão que levou muito tempo para ser formulada, explicou a congressista democrata, e que tornou pública em parte para ajudar a normalizar um tema ainda pouco discutido: a relação da mulher com a fertilidade, com a passagem do tempo e com o desejo (ou não) de ser mãe.

É difícil não se sentir desafiado pela escolha dela. Porque diz respeito a ela, ao corpo dela, à vida dela. E não deveria ser necessário nos lembrarmos de que toda mulher tem o direito de decidir se quer ou não ter filhos, quando tê-los e com quem tê-los. Levamos décadas para nos libertarmos da ideia de que a maternidade é o destino natural de toda mulher, e seria paradoxal começar a distribuir certificados de boa ou má feminilidade com base na idade em que alguém decide se tornar mãe.

E, no entanto, não consigo deixar de refletir sobre as palavras que ela usou. Talvez porque o controle sobre a própria vida tenha se tornado uma das grandes promessas do nosso tempo. Como se a liberdade coincidisse com a ideia de não depender de nada: nem dos outros, nem do acaso, nem mesmo do tempo.

É claro que a medicina nos permite fazer coisas extraordinárias. E o congelamento de óvulos pode representar uma oportunidade preciosa para muitas mulheres: para aquelas que ainda não encontraram a pessoa com quem desejam ter um filho, para aquelas que estão passando por uma separação, para aquelas que não se sentem preparadas, para aquelas que ainda não têm certeza se querem ser mães. Mas uma possibilidade não é uma garantia. E uma possibilidade técnica não deve nos impedir de questionar as razões sociais que tornam essa prática cada vez mais comum.

É aqui que a discussão se torna política. Se uma mulher congela seus óvulos porque quer, ninguém deveria se achar no direito de julgá-la. Mas se cada vez mais mulheres sentem que precisam congelar seus óvulos porque, aos trinta anos, não têm um emprego estável, não conseguem comprar uma casa, não encontram creche, temem que uma gravidez interrompa sua carreira ou sabem que, após o nascimento de um filho, terão que arcar com a maior parte dos cuidados, então talvez o problema não seja mais apenas individual, mas coletivo. Especialmente quando o congelamento social é apresentado não apenas como uma oportunidade, mas como uma política de emancipação feminina ou uma possível resposta à queda da taxa de natalidade.

O feminismo luta há décadas para garantir que as mulheres não precisem adaptar suas vidas a um destino ditado por seus corpos. Mas a emancipação também não deveria significar o oposto: exigir que os corpos das mulheres se adaptem às mudanças do mercado de trabalho. Algo me incomoda quando uma sociedade, em vez de se questionar sobre como permitir que uma mulher tenha um filho sem abrir mão da carreira, propõe adiar a maternidade, transformando o congelamento social em benefício corporativo ou política pública.

Antigamente, diziam às mulheres: tenham filhos e abandonem o trabalho. Hoje, corremos o risco de dizer: trabalhem, tornem-se independentes e, depois, quando tudo estiver resolvido, podem pensar em ter filhos. São mensagens opostas. Mas têm algo em comum: é sempre a mulher que tem de se adaptar. E é este o ponto que me preocupa. Porque, em vez de mudarmos o mundo à volta das mulheres — trabalho, licença, cuidados infantis, distribuição de responsabilidades, precariedade —, corremos o risco de, mais uma vez, intervir nos seus corpos.

Portanto, a questão não é se o congelamento social é progressista ou conservador, mas sim qual ideia de liberdade estamos defendendo. Ser livre, na verdade, não significa apagar a vulnerabilidade ou eliminar o tempo. A liberdade também depende das oportunidades concretas que uma sociedade oferece às pessoas. É uma antiga questão filosófica: quão livre é uma escolha quando as alternativas têm custos profundamente desiguais?

Há algo de contemporâneo na decisão de Ocasio-Cortez, algo que transcende a maternidade. Esse desejo de manter uma possibilidade em aberto reflete a incerteza em que vivemos: relacionamentos mais instáveis, carreiras mais erráticas, acesso à moradia mais difícil, estudos mais longos. Muitas pessoas chegam aos trinta anos sem saber onde (ou com quem) vão morar.

A procrastinação nem sempre é resultado de uma obsessão pela carreira. Muitas vezes, é uma forma de tentar habitar um futuro que se tornou incerto. Se estamos realmente preocupados com a queda da taxa de natalidade, devemos parar de olhar para os ovários das mulheres e começar a olhar para o mundo em que as convidamos a se tornarem mães. Para a insegurança no trabalho. Para a moradia. Para o cuidado infantil. Para os salários. Para a licença parental. Para a possibilidade de ter um filho sem que tudo o mais desmorone.

Congelar óvulos pode ser uma escolha de liberdade. Tornar essa escolha menos necessária seria uma conquista ainda maior. Porque a tarefa da política não deveria ser nos ajudar a controlar cada vez mais a vida, mas sim construir uma sociedade onde a liberdade não dependa, mais uma vez, do corpo da mulher.

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