06 Agosto 2026
O recente cisma da FSSPX evidencia uma luta mais sutil entre Roma e o tradicionalismo litúrgico americano, um movimento pequeno em número, mas estrategicamente influente, que utiliza novas mídias, apelos seletivos à tradição e disputas não resolvidas sobre o Concílio Vaticano II para pressionar o papado.
O artigo é de Massimo Faggioli, publicado por Global Catholic, 05-08-2026.
Massimo Faggioli é professor de teologia histórica na Universidade Villanova. Seu livro sobre o Papa Leão XIV será publicado em inglês pela Liturgical Press em agosto de 2026.
Eis o artigo.
A ordenação, em 1º de julho, de quatro novos bispos pela FSSPX sem a permissão papal, amplamente divulgada, criou um cisma, com o Vaticano declarando imediatamente todas as consequências canônicas. Trata-se de um fato consumado.
Mas há uma situação ainda em desenvolvimento, que diz respeito à sobreposição entre a FSSPX e as vozes tradicionalistas na Igreja Católica em comunhão com Roma.
Em 30 de julho, a revista católica londrina The Tablet publicou uma entrevista com o Cardeal Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos desde 2021, que afirmou que o Papa Leão XIV não irá revogar a Traditionis Custodes, motu proprio do Papa Francisco de julho de 2021 sobre o uso da forma litúrgica do rito romano que existia antes do Concílio Vaticano II.
O artigo 1º da Traditionis Custodes afirma: “Os livros litúrgicos promulgados por São Paulo VI e São João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, são a expressão única da lex orandi do Rito Romano”.
A questão litúrgica é o ponto central das tensões e a frente mais importante – tanto para esta “guerra litúrgica” quanto para outras guerras – está nos EUA.
Naqueles mesmos dias, no final de julho, bispos católicos proeminentes dos EUA recorreram à mídia e às redes sociais para defender o tradicionalismo litúrgico e pressionar o Vaticano a revogar certos aspectos da Traditionis Custodes e permitir maior acesso à “Missa Latina” pré-Vaticano II.
Dom Salvatore Cordileone, arcebispo de São Francisco (recentemente nomeado por Leão XIV para o tribunal supremo da Segnatura Apostolica), e dom Alexander Sample, bispo de Portland (Oregon) criticaram a FSSPX por sua ação cismática, mas defenderam o tradicionalismo litúrgico e as ações de Bento XIV para ampliar o acesso à missa tradicional em latim.
Eles compartilham da convicção de Bento XVI de que a “Missa Latina” continua sendo um importante ponto de referência para o futuro desenvolvimento litúrgico da Igreja.
À luz dos acontecimentos recentes, entrevistas como essas podem levar à impressão de que, se aqueles líderes um tanto impacientes da FSSPX tivessem obedecido ao Vaticano e ao Papa, Roma e os lefebvrianos concordariam em quase tudo: como se a sua conhecida oposição ao Vaticano II (e não apenas à reforma litúrgica) não tivesse importância.
Mas talvez seja exatamente isso – o valor do Vaticano II na Igreja atual – que justifica o uso da FSSPX como instrumento para lidar com a Santa Sé por dentro. Essas entrevistas são, de fato, um sintoma das tensões persistentes entre Roma e o tradicionalismo católico americano, e exemplificam pelo menos três características distintas do catolicismo global contemporâneo.
Primeiro: por trás dos slogans típicos de um catolicismo retrógrado e ordeiro, o tradicionalismo litúrgico é um movimento que desafia a instituição liderada pelo papado e pelo Vaticano. Cordileone e Sample não representam todo o episcopado dos EUA, mas representam também vozes que vão além da de bispo auxiliar D. Athanasius Schneider, de Astana, no Cazaquistão, um dos defensores do tradicionalismo católico, porém sem um apoio eclesiástico significativo.
Esses bispos dos EUA falam em nome de um movimento que é pequeno, mas já não é marginal, e, como os movimentos católicos mais estratégicos do pós-Vaticano II, pode ampliar sua influência muito além de sua importância sociológica.
Uma pesquisa do Pew Research Center de 2025 revelou que dois por cento dos católicos nos EUA frequentam a liturgia, também conhecida como Missa Tridentina, semanalmente. "Quantos são eles?" – essa não é a verdadeira questão aqui.
Numa Igreja que sofre as consequências da secularização, a promessa dos movimentos de trazer nova energia e jovens para a Igreja é uma oferta tentadora demais para recusar. Numa Igreja menor, mesmo grupos pequenos, mas altamente mobilizados, podem ter grande impacto na mudança dos rumos de uma comunidade católica local ou nacional.
A segunda questão diz respeito à dinâmica entre os diferentes atores da Igreja quando se trata de governar a mudança. Durante o Concílio Vaticano II e o início do período pós-conciliar, a dinâmica se dava entre o Papa, a Cúria Romana, os bispos (e as conferências episcopais), a imprensa e a opinião pública.
A reforma litúrgica tornou-se um processo de cima para baixo, guiado por Roma, mas havia sido iniciada pelos bispos no Concílio Vaticano II. Apesar de todo o tradicionalismo antimoderno alegado pelos defensores da “Missa Latina” pré-Vaticano II, eles têm se aproveitado do novo papel da (nova) mídia na Igreja como forma de pressionar o papa, a Cúria e as conferências episcopais.
Eles desafiaram o Papa Francisco diretamente, e veremos o que farão com o Papa Leão XIV. Além disso, interpretaram em seu próprio benefício, e sem o reconhecerem, o princípio do Concílio Vaticano II sobre inculturação e adaptação local.
O paralelismo entre o desaparecimento do ambiente midiático tradicional que dominava antes da internet e a ascensão do tradicionalismo católico é um sinal específico dos tempos nos Estados Unidos contemporâneos. Há mais do que uma mera sobreposição cronológica entre o messianismo político-religioso do trumpismo e o renascimento da "Missa em Latim" na Igreja Católica (o que não significa que todos os frequentadores da Missa em Latim sejam trumpistas).
O terceiro ponto diz respeito ao estado da tradição, ou à forma como os bispos que apoiam a “Missa Tridentina” falam sobre a tradição. Ela se tornou um totem, um fetiche, um expediente retórico para oferecer o conforto psicológico de algo supostamente congelado no tempo e imutável.
Isso tem a ver com a síndrome específica que afeta aqueles que veem no Vaticano II uma catástrofe (litúrgica e de outras naturezas), mas também reflete uma ideia truncada da história da Igreja. Reflete uma cultura e teologia católica divididas entre o período definidor entre Agostinho e Tomás de Aquino, de um lado, e o fruto rebelde da modernidade católica que foi o Vaticano II e o período pós-Vaticano II, de outro.
Existe um surpreendente analfabetismo histórico e hermenêutico (mesmo entre alguns bispos) sobre as contribuições do catolicismo do início da era moderna para o desenvolvimento da tradição: a “reforma católica” pós-Reforma, o Iluminismo Católico, os movimentos de reforma teológica (bíblica, patrística, litúrgica, ecumênica) no século XIX e início do século XX (não estou falando aqui do temido “modernismo”).
Na imaginação teológica dos autoproclamados defensores da tradição, São João Henrique Newman é uma figura atípica na terra incógnita do catolicismo do início da era moderna – incluindo o Concílio de Trento.
Antes eu acreditava que a redescoberta da tradição no catolicismo americano começava com a história e a teologia do Vaticano II, para superar as caracterizações simplistas do concílio e suas consequências.
Continuo a acreditar nisso, mas com uma ressalva. A recuperação da ideia de tradição deve começar com uma redescoberta do Concílio de Trento. Os católicos tridentinos – os jesuítas, a Inquisição, com todos os seus defeitos – não tiveram medo de criar algo novo para atender às necessidades teológicas e pastorais de seu tempo.
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