"O abandono de políticas bipartidárias ameaça a democracia”. Entrevista com Michael Walzer

Donald Trump | Foto: Daniel Torok/Flickr

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05 Agosto 2026

O filósofo e cientista político: "Preocupa-me o colapso do compromisso dos democratas e republicanos em cooperar para conter as tendências autoritárias."

“E pensar que por muito tempo acreditamos que não poderia haver uma América pior do que a de Richard Nixon no início dos anos 1970. Meio século depois, esses escândalos parecem pequenos em comparação com a corrupção e a violência de Donald Trump: o sistema democrático daquela época, comparado ao de hoje, é decididamente mais saudável e responsivo.” Aos seus magníficos 91 anos, o filósofo e cientista político Michael Walzer suspira, refletindo sobre a América de hoje. Figura-chave da esquerda americana por mais de meio século, o teórico da guerra justa reuniu seus pensamentos sobre liberalismo e democracia em seu extenso testamento: “O Que Significa Ser Liberal”.

A informação é de Anna Lombardi, publicada por La Repubblica, 03-08-2026.

Eis a entrevista.

O que ameaça a democracia americana?

Preocupa-me o abandono da política bipartidária, o colapso do compromisso entre democratas e republicanos em cooperar para conter tendências autoritárias: uma cooperação que lhes permitia controlar presidentes com aspirações autocráticas. E vejo isso também na Europa, onde o centro-direita e o centro-esquerda já não buscam soluções comuns — exceto talvez na Alemanha de Merz, onde ainda tentam conter a onda neofascista. Assim, a direita, mais descarada e extremista por definição, silencia descaradamente a dissidência interna. Enquanto a esquerda, por outro lado, tem muitas vertentes e está dividida, perdendo sua força. O resultado é que não existe mais um verdadeiro baluarte contra o autoritarismo.

Dizem que Trump fará o que for preciso para vencer as eleições de meio de mandato. Você está preocupado?

Não tenho dúvidas de que ele tentará de todas as maneiras impedir eleições livres e justas em novembro: ele já está tentando. Mas a Suprema Corte, que lhe permitiu redesenhar o Colégio Eleitoral, bloqueou sua tentativa de excluir o voto por correio e a contagem de votos recebidos após o prazo. O Congresso, incluindo os próprios republicanos, se recusa a aprovar o Save America Act, que exige comprovante de cidadania nas urnas. Haverá, portanto, tentativas de alterar os resultados em nível local. Mas os democratas já estão agindo. Para garantir eleições transparentes, haverá advogados e voluntários nos locais de votação. É claro que não será uma eleição fácil. Veremos tentativas de forçar a questão, acusações e protestos. E isso, infelizmente, não acontecerá apenas nos Estados Unidos...

A que se refere?

Mesmo em Israel, Netanyahu está disposto a tudo para evitar perder o poder. Ele tentará minimizar a participação de eleitores liberais e árabes, assim como Trump está tentando boicotar os afro-americanos. Outubro e novembro serão meses terríveis, com níveis insuportáveis ​​de propaganda. Devemos manter a cabeça fria e seguir em frente.

Trump está em queda livre nas pesquisas...

E isso o torna ainda mais cruel. A guerra no Irã está indo mal, os preços estão subindo, e tudo o que ele consegue fazer é explorar a ameaça da imigração, com a ajuda das imagens de Ceuta. Infelizmente, a esquerda moderada não tem uma posição sólida sobre essa questão para abordá-la de maneira firme, porém civilizada, em um problema que está fadado a piorar, também devido à crise climática, que gerará mais refugiados. É uma questão complexa que a direita está explorando, com o resultado de que, nos Estados Unidos, estamos vendo o declínio das políticas desnecessariamente cruéis de Trump, que estão deixando o país sem trabalhadores rurais ou cuidadores de idosos, empregos que os imigrantes costumavam fazer e aos quais os americanos não aspiram. Eles exploram o medo do outro com uma retórica eficaz. Os democratas precisam se concentrar em programas novos e concretos.

Eles fazem isso?

Os novos socialistas democratas de Nova York, Michigan e Wisconsin voltaram, de fato, a abordar os problemas reais das pessoas. Veremos nas eleições de meio de mandato se essa estratégia trará os resultados desejados. Aprecio seus programas de política interna, mas estou preocupado com suas posições extremistas em política externa, em relação a Israel e à Ucrânia. Mas, é claro, o caminho a seguir é revitalizar uma coalizão de esquerda que se concentre novamente nos problemas dos trabalhadores brancos descontentes.

Aqueles que viraram as costas aos democratas e votaram em Trump.

Deveríamos reler "A Personalidade Autoritária", de Theodor Adorno, que chocou a esquerda na década de 1950 por identificar a classe trabalhadora com valores típicos do fascismo: imersos na cultura patriarcal e atraídos por agendas opressivas e injustas. Um livro datado, mas com um fundo de verdade. Daí em diante, e por décadas, partidos social-democratas e sindicatos trabalharam para educar os trabalhadores sobre valores democráticos. Então, essa prática foi interrompida: Clinton e Obama acreditaram que poderiam vencer sem os trabalhadores brancos e os abandonaram, concentrando-se na classe média instruída e nas minorias. Foi o maior erro da esquerda, tanto americana quanto global.

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