22 Julho 2026
O trumpismo revive o macartismo com ecos do discurso eugênico nazista em um relatório de 100 páginas que tem como alvo jornalistas, políticos e ativistas.
O artigo é de Sebastian Faber, publicado por CTXT, 21-07-2026.
Sebastian Faber professor de Estudos Hispânicos no Oberlin College. É autor de inúmeros livros, sendo o mais recente "Exumando Franco: a segunda transição da Espanha".
Eis o artigo.
Em 20 de julho, o Departamento de Estado dos EUA divulgou um relatório de 100 páginas sobre Cuba, argumentando que, desde 1959, o regime de Castro tem sido uma força motriz por trás de uma “esquerda terrorista” global que se infiltrou em grandes segmentos da sociedade americana, aliando-se a organizações poderosas e recrutando políticos, jornalistas e ativistas proeminentes. Não é coincidência que o relatório tenha sido publicado dias depois de uma cúpula internacional, com 60 países, sobre “a ascensão global do extremismo de esquerda e do terrorismo político”, na qual Marco Rubio, Secretário de Estado e potencial candidato à presidência em 2028, indicou que a maior ameaça à segurança não vem mais do terrorismo islâmico, mas da esquerda.
Em comparação com a Estratégia de Segurança Nacional — o bizarro documento de novembro que, entre outras coisas, reafirmou a hegemonia hemisférica dos EUA — o relatório sobre Cuba não é apenas mais extenso, mas também mais coerente e rigoroso. Além disso, é melhor escrito. Mas o que mais impressiona são seus ecos macarthistas: não hesita em apontar uma longa lista de indivíduos e grupos, incluindo jornalistas como Amy Goodman (do Democracy Now!), organizações como os Socialistas Democráticos da América (DSA) e a Ordem dos Advogados; políticos como Zohran Mamdani e Karen Bass (prefeitos de Nova York e Los Angeles), congressistas como Alexandria Ocasio-Cortez, Bernie Sanders e Ilhan Omar; e ativistas como Ben Cohen (cofundador da Ben & Jerry's) e Alicia Garza (fundadora do Black Lives Matter).
O objetivo do relatório parece ser duplo: não apenas reafirmar Cuba como um poderoso inimigo do estilo de vida americano — justificando, assim, uma possível intervenção na ilha — mas, sobretudo, demonizar uma grande parcela da esquerda americana, rotulando-a como perigosa, terrorista, antipatriótica, imoral e, em última instância, subumana. Nesse sentido, este relatório sobre Cuba é apenas o capítulo mais recente de uma estratégia clara, já prenunciada no Projeto 2025 e acelerada após o assassinato de Charlie Kirk em setembro.
Assim, o Memorando Presidencial de Segurança Nacional (NSPM-7), publicado naquele mesmo mês de setembro, procurou rotular como “terroristas” uma ampla gama de ideias progressistas abrigadas “sob o guarda-chuva do autodenominado 'antifascismo'”. “Os pontos em comum que animam esse comportamento violento”, afirmava o documento, “incluem o antiamericanismo, o anticapitalismo e o anticristianismo; o apoio à derrubada do governo dos Estados Unidos; o extremismo em torno da imigração, raça e gênero; e a hostilidade contra aqueles que defendem as visões americanas tradicionais sobre família, religião e moralidade”.
O NSPM-7 já serviu de pretexto para que as forças policiais e os serviços de inteligência intensificassem a vigilância e a perseguição à esquerda nos Estados Unidos. Embora seu sucesso nos tribunais tenha sido variável, a invocação da “Antifa” como uma rede de “terroristas domésticos” dedicada a organizar uma conspiração violenta para derrubar o Estado levou à prisão de 15 moradores de Minneapolis por monitorarem o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) e à condenação de um grupo de ativistas no Texas a penas de prisão sem precedentes, entre 20 e 100 anos, como relatou Guillem Martínez no final de junho. É bem possível que o relatório sobre Cuba tenha uma repercussão jurídica semelhante.
Construiu-se um discurso em torno desses relatórios, cujo objetivo é corroer o Estado de Direito e os direitos constitucionais. “Eles podem se autodenominar anticapitalistas ou anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas”, disse Rubio ao The Guardian em 16 de julho. “É sempre a mesma coisa. É um ressentimento tóxico disfarçado de retórica sobre igualdade, justiça e libertação — uma necessidade avassaladora de derrubar, de destruir tudo o que é belo e justo, por parte de um povo repleto apenas de feiura e que pratica violência e terror porque não tem mais nada a oferecer ao mundo.”
No dia seguinte, Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto e conselheiro sênior de políticas e segurança nacional de Donald Trump, usou uma coletiva de imprensa para intensificar a retórica. “Não é coincidência”, disse ele, “que quando você olha para essas manifestações violentas da Antifa, quando você vê qualquer foto daqueles que se reúnem nelas, nenhuma pessoa, para dizer francamente, parece normal. Ninguém parece normal. Todos eles são, de uma forma ou de outra, deformados em sua aparência, em sua maneira de se vestir, em seus modos. Por quê? Se você comparar duas fotos, uma de uma rua comum nos Estados Unidos e a outra de uma manifestação da Antifa, por que não há pessoas normais entre aqueles que protestam violentamente? Porque cada um deles, ao longo da vida e de suas escolhas, deixou cicatrizes em seu corpo e em sua aparência, de muitas maneiras diferentes, a ponto de sua aparência externa se tornar uma manifestação de seu ódio interior.” Os ecos da eugenia nazista são óbvios. (E, para o público espanhol, do falangismo. Em seu romance Madrid da Corte à Cheka, Agustín de Foxá descreveu seus personagens republicanos como seres movidos pela "vingança dos fracos contra os fortes, dos doentes contra os sãos, dos brutais contra os inteligentes", porque "odiavam toda superioridade".)
Em uma carta enviada em 17 de julho para seus mais de cinco milhões de assinantes no Substack e nas redes sociais, a historiadora Heather Cox Richardson lembrou que JD Vance, o vice-presidente neocatólico, ajudou a promover o livro Unhumans: The Secret History of Communist Revolutions (and How to Crush Them) [Desumanos: a história secreta das revoluções comunistas (e como esmagá-las)], do influenciador ultraconservador Jack Posobiec, dois anos antes. “No passado”, afirmou Vance, “os comunistas marchavam pelas ruas com bandeiras vermelhas. Hoje, eles marcham por departamentos de recursos humanos, campi universitários e tribunais, onde praticam guerra jurídica contra pessoas boas e honestas.”
No livro, Posobiec rotula os esquerdistas de “anti-humanos” porque “eles se opõem a tudo que constitui a humanidade. Ao se oporem à própria humanidade, eles se excluem completamente da categoria [do humano], colocando-se em uma subdivisão inteiramente nova, movida pela miséria, do anti-humano”. Posobiec se junta às fileiras de pensadores americanos de extrema-direita que veem Francisco Franco como um modelo e herói anticomunista. “Algumas das pessoas mais poderosas do governo atual são recém-convertidos ao catolicismo que não esconderam sua admiração por regimes fundamentalistas, incluindo o de Franco”, escreveu a historiadora Kirsten Weld nestas páginas em novembro passado. “Eles fazem parte de uma corrente do pensamento reacionário americano que buscou inspiração na Espanha, não apenas na década de 1930, mas também nas décadas de 1960 e 70.”
Para Richardson, os ecos do livro de Posobiec nos discursos de Rubio e Miller são inegáveis. O historiador também recorda a epígrafe do prólogo do livro, escrita por Stephen Bannon: “O comunismo surge quando aberrações feias e deformadas proíbem a normalidade e depois roubam e/ou matam todas as pessoas bem-sucedidas, movidas por ressentimento mesquinho e crueldade. A ideologia não passa de uma fachada.”
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