"Trump está apostando, mas o regime iraniano sabe sofrer melhor". Entrevista com Vali Nasr

Donald Trump. (Foto: Joyce N. Boghosian/The White House/Flickr)

Mais Lidos

  • Michel Foucault: a engenharia do ódio social. Artigo de Alexandre Francisco

    LER MAIS
  • RS deve enfrentar primeira onda de tempestades sob El Niño

    LER MAIS
  • Um dos primeiros sinais do lawfare no Brasil foi o processo de impeachment que se abateu sobre Dilma Rousseff. Entrevista com Gisele Cittadino

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

15 Julho 2026

Vali Nasr afirma que "Trump está jogando. Ele entendeu que o acordo foi uma vitória para o Irã e está tentando mudá-lo, retornando à guerra". No entanto, o professor da Universidade Johns Hopkins alerta: "O conflito não é mais sobre energia nuclear, mas sobre o Ormuz. Isso é uma vantagem para Teerã, que demonstrou uma maior tolerância à dor do que os EUA".

A entrevista é de Paolo Mastrolilli, jornalista, publicado por La Repubblica, 15-07-2026. 

Eis a entrevista.

Estaremos retornando a uma guerra aberta?

Estamos aqui há vários dias. Um pouco diferente da primeira fase, mas é guerra.

Por que explodiu de novo?

Houve um mal-entendido por parte de todos, quando pensaram que o memorando de entendimento significava o fim do conflito. Os EUA não ficaram satisfeitos e agora querem tomar o Estreito do Irã, porque é a arma mais poderosa de Teerã, para ser usada nas verdadeiras negociações nucleares.

O dinheiro oferecido não foi suficiente?

Na realidade, os iranianos não acreditam que haverá qualquer alívio das sanções ou a liberação de ativos congelados. Eles não estão escolhendo entre o Estreito ou dinheiro, porque não havia dinheiro, mas apenas a disposição dos EUA em tomar tudo sem dar nada em troca.

Isso parece justificar seus ataques.

Por que eles abririam mão de sua vantagem sem receber nada em troca? Eles querem negociar sobre energia nuclear a partir de uma posição de força, e Ormuz é seu peão.

Então, a estratégia de Trump de tomar o Estreito está correta?

Toda essa guerra nunca teve uma estratégia. A primeira fase fracassou porque ele não conseguiu mudar o regime. O memorando de entendimento entregou Ormuz aos iranianos, e agora ele quer mudá-lo.

Ele conseguirá ter sucesso com as novas operações militares?

Espera que sim, mas Teerã lutará para impedir. A questão crucial é quem terá estômago para arcar com os custos por mais tempo.

Reabrir o Estreito de Ormuz à força não exigiria o envio de marinheiros para o estreito?

Esse é o ponto. Se os EUA mobilizarem todo o seu poder em qualquer guerra, eles vencem, mas essas decisões militares nunca são tomadas isoladamente. Elas surgem dentro do contexto da sociedade, da economia e da política. Resta saber se o povo americano está disposto a pagar o preço e se Trump está disposto a enfrentar a crescente pressão. Ele mesmo disse na cúpula do G7 que a economia está começando a se tornar uma ameaça. Isso pode levá-lo a intensificar o conflito ou a retornar às negociações.

Quem tem o maior limiar de tolerância?

Os iranianos esperavam que a guerra retornasse. Na primeira fase, surpreenderam a todos ao demonstrarem que eram capazes de sofrer mais do que os americanos. Talvez o façam novamente.

A inflação nos EUA caiu, dando um impulso a Trump antes das eleições de meio de mandato.

É verdade, mas dependia do acordo. Um retorno à guerra poderia causar um choque econômico que afetaria não apenas as eleições de meio de mandato, mas também as eleições presidenciais de 2028. Trump está apostando, tomando decisões instintivas. Ele calculou mal na fase inicial e talvez esteja calculando mal novamente, pensando que, atacando com força, conseguirá subjugar os iranianos. Mas eles também podem estar errados, reagindo de forma exagerada.

Ele ainda pode promover uma mudança de regime?

Não. O funeral de Khamenei demonstrou que a maioria dos iranianos agora é contra os EUA.

Seria necessária uma invasão como a do Iraque?

Sim, mas os EUA não têm soldados suficientes. Deveriam reintroduzir o serviço militar obrigatório. A geografia favorece o Irã, onde a população voltou a se mostrar hostil aos Estados Unidos.

Trump ameaça atacar outros locais nucleares, como Pickaxe Mountain.

Agora seria irrelevante. A guerra é sobre o Ormuz, não sobre a bomba nuclear.

Mas antes da guerra o Estreito estava aberto.

Exatamente. Trump está apenas tentando voltar ao dia 27 de fevereiro.

O regime não mudou?

Sim, mas em detrimento dos EUA. No meu livro, A Grande Estratégia do Irã, escrevi que Teerã nunca considerou chegar a um acordo com Washington, que visa apenas destruí-la. Agora essa crença foi confirmada, mas o país é liderado por uma nova geração mais disposta a lutar do que a anterior e convencida de que somente o confronto pode deter os EUA.

Leia mais