Um café e uma boa dose de fé: com os jesuítas dos conjuntos habitacionais de Saint-Denis

Foto: Judith Crico/"Le Monde"

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15 Julho 2026

Na subprefeitura de Seine-Saint-Denis (bairro da zona periférica nordeste de Paris), a fé é vivida nas ruas. Com um café e um croissant, os jesuítas da comunidade Santo Alberto Hurtado colocam-se à disposição de migrantes, estudantes e moradores locais, em uma cidade onde o compartilhamento dos bens materiais e espirituais é uma forma de habitar o mundo.

A reportagem é de Stéphane Aubouard, publicada por Le Monde, 12-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Quand nous chanterons le temps des cerises, et gai rossignol et merle moqueur seront tous em fête..." Nessa manhã quente de junho, não é nem um militante comunista nem um sindicalista quem cantarola a famosa canção, mas o Padre Claude Charvet, superior da comunidade jesuíta Alberto Hurtado em Saint-Denis. Como todas as manhãs de sábado, ele atravessa a Rua Auguste-Delaune para compartilhar um café com seus amigos feirantes que, em troca, lhe oferecem, nesse dia, um saquinho de cerejas.

Transeuntes curiosos circulam pela mesa dobrável repleta de comes e bebes. Charlie é o primeiro. Natural da Normandia, ele criou raízes em um canto escondido do jardim da Igreja de Saint-Denis-de-lEstrée. "Vim parar aqui em busca de trabalho e por causa da minha situação familiar. Me divorciei, minha esposa levou os filhos... Vou me virando como posso..." Ao lado dele, Félix, de 70 anos, conta como o Padre Charvet o converteu em poucos meses, diante do olhar intrigado de Charlie, olhos azuis serenos que não se deixam convencer facilmente pelas "histórias sobre o Bom Deus". "Eu era budista", explica Félix. "Ainda pratico muita ioga, mas, conversando com o Padre Charvet, voltei ao cristianismo. A figura de Cristo é única, você sabe!" Uma mulher de véu islâmico pega um café antes de ir para o trabalho, um aposentado passa para comer um croissant e alguns jovens se aproximam timidamente... "Tem café quente!" exclama o Padre Charvet. Aqui, "ninguém pergunta de onde alguém vem, se acredita em Deus ou se tem documentos", dizem os jovens ao “Le Monde”. O ritual é sempre o mesmo: estender uma xícara, compartilhar um croissant, oferecer um pouco de tempo.

Desafios sociais

Pode parecer uma cena banal, mas conta a história de mais de vinte e cinco anos de presença jesuíta em Saint-Denis, uma presença humilde, discreta e constante. Desde 1999, a comunidade Santo Alberto Hurtado vive no coração da "Cité Dourdin", o bairro de conjuntos habitacionais populares, em um apartamento igual ao dos outros moradores, mostrando uma imagem muito diferente daquela da Companhia de Jesus entrincheirada nas universidades e nos centros intelectuais.

Após uma tentativa inicial em Bondy, na mesma província, a comunidade criou raízes aqui em Saint-Denis, fundando o “Centre d’initiatives et de services aux étudiants de Saint-Denis” (Cised) para os universitários. "Sentíamos que os jovens deste bairro popular mereciam nosso apoio tanto quanto aqueles dos bairros chiques", explica o Padre Christian Mellon, que chegou há vinte e dois anos e é a memória viva da comunidade. Desde o momento da abertura, estudantes estrangeiros começaram a chegar. "Eles pediam, em primeiro lugar, ajuda para os estudos, mas também para serem acolhidos e escutados. Pois, nesta universidade, as dificuldades sociais são muitas."

No prédio em frente ao campus da Universidade Paris-VIII Saint-Denis, dezenas de voluntários hoje auxiliam estudantes de todo o mundo, de mais de cinquenta nacionalidades diferentes. Lá, revisam-se teses e trabalhos acadêmicos, preparam-se entrevistas de emprego e, acima de tudo, aprende-se francês, oferece-se ajuda no preenchimento de formulários administrativos e escutam-se as dificuldades vividos por pessoas em situação de exílio. Claude, uma psicóloga que trabalha com os jesuítas, visita o Cised uma vez por semana porque, como ela observa, "o isolamento cultural, o desenraizamento e, em alguns casos, a fuga necessária do país de origem podem gerar situações traumáticas profundas". "No início dos anos 2000, tudo isso foi possível graças às contribuições dos paroquianos, à excelente relação que mantínhamos com a prefeita comunista e também às doações de pessoas, inclusive não católicas", continua o Padre Mellon. Por exemplo, o prédio que abriga o Cised "foi deixado como herança por uma pessoa que não tinha qualquer interesse na Igreja". Assim, a instituição torna-se mais do que apenas um centro de apoio para os estudantes universitários.

Um pouco mais adiante, outra associação fundada por jesuítas, a Alphadep, ensina francês a adultos, pessoas que até podem ter diplomas universitários de seus países de origem, mas que não conseguem decifrar uma comunicação de tipo administrativo. Os voluntários não se limitam a ensinar o idioma; devolvem a essas pessoas autonomia e dignidade. "As pessoas vêm em busca de um serviço, mas saem levando laços que nos unem", observa Christian Mellon.

Gosto pelo encontro

Os jesuítas também participam ativamente na vida paroquial local. Celebram regularmente cerimônias na Basílica-Catedral de Saint-Denis e, há alguns anos, retomaram o serviço da paróquia de Saint-Denys-de-l’Estrée. Com essas atividades litúrgicas, também inserem sua presença na vida espiritual da cidade, complementando sua ação social e educacional.

Essa é, sem dúvida, a característica que melhor identifica a presença jesuíta em Saint-Denis: "ser instituição", sem perder o gosto pelo encontro. A comunidade não se limita a iniciar projetos; realmente habita a cidade, envolvendo muitos moradores locais.

A Companhia de Jesus conta com muito com voluntários, aos quais oferece uma formação e que são mais numerosos do que os religiosos. Vale ressaltar que esses voluntários não são necessariamente cristãos praticantes. Segundo Jérôme Gué, superior dos jesuítas de Santo Alberto Hurtado, Saint-Denis tornou-se muito mais do que apenas uma sede. "É um lugar onde a Companhia de Jesus vivencia um modo de vida que talvez se assemelhe mais às suas origens do que à sua imagem tradicional. Basta olhar para a composição da comunidade para perceber isso."

Nos apartamentos do conjunto habitacional Cité Dourdin, os nove membros da comunidade falam diversos idiomas: inglês, espanhol, lituano, hindi, francês e dialetos africanos. A globalização da Companhia de Jesus realiza-se justamente aqui, nas casas populares do bairro. "Os jesuítas são como Saint-Denis: um lugar multicultural que tem Cristo como ponto central", observa o Padre Charvet. E, embora o número de jesuítas na França tenha caído de cerca de 4.000 na década de 1960 para pouco mais de 300 hoje, é certamente em lugares como Saint-Denis que a comunidade está moldando parte de seu futuro. De fato, a internacionalização acompanha a transformação da Companhia na província da Europa Ocidental, tornando-a fértil. As grandes províncias europeias envelhecem e as vocações diminuem, mas, em outras partes, como Índia, Vietnã, África e América Latina, as vocações ainda são numerosas e fervorosas. Saint-Denis é hoje um ponto de encontro para esses mundos. Também os jesuítas em formação na Faculdade Loyola, em Paris vêm morar em um bairro onde convivem mais de 130 nacionalidades. Caminho de fé John Bosco Noronha é um deles. Em seu apartamento, no oitavo andar de um enorme prédio do “Cité Dourdin”, ele compartilha conosco sua experiência enquanto almoçamos. "Sou inglês de origem indiana e, quando cheguei aqui, ainda não sabia se atenderia ao chamado de Deus", recorda ele. Seis anos depois, concluiu seus estudos e retornará a Manchester (Reino Unido) neste verão para continuar sua jornada de fé.

Uma jornada profundamente pessoal. "Tenho formação como ator de teatro e, aqui com os jesuítas, continuo a utilizar a linguagem teatral que me caracteriza."

Para a Páscoa, ele idealizou uma Via-Sacra onde as ruas de Saint-Denis serviram de cenário. A procissão partiu da igreja de Saint-Denis-de-l’Estrée, atravessou os bairros populares e chegou à basílica. Os transeuntes pararam, curiosos. Alguns filmaram com seus celulares, outros acompanharam o trajeto de algumas estações antes de seguir seu caminho. Os fiéis redescobriram uma narrativa antiga de dois mil anos que estava se desenrolando entre o mercado, as lojas africanas e aquelas geridas por muçulmanos, os salões de cabeleireiro e os vendedores de milho assado, entre os prédios de concreto. Este ano, Cristo foi personificado por um jovem jesuíta indiano que estava de passagem. A cena poderia até provocar um sorriso, mas é profundamente reveladora do estado do catolicismo na França, que não possui o rosto uniforme com que tantas vezes é representado. Aqui, fala todas as línguas, inclusive o latim. Muda de sotaque e de cor. Em meio a esse material em movimento, os jesuítas vão em frente, mantendo os pés firmes no chão da realidade.

De um lado, a base: os grupos de voluntários de Santo Alberto, nascidos após os acampamentos de migrantes da Avenue Wilson, o Cised, o Alphadep, a associação Arpej e mais a vida compartilhada com os moradores do bairro popular “Cité Dourdin”. Do outro, a reflexão e o discernimento tão caros a Inácio de Loyola (1491–1556), fundador da Companhia de Jesus.

Revista “Projet”

O simbolismo é forte, especialmente considerando que a Companhia foi fundada em 1534 em Montmartre, exatamente no local onde a tradição situa o martírio de São Dinis, no século III. Diz a lenda que, após ser decapitado, o primeiro bispo de Paris recolheu a sua cabeça e caminhou até o local onde hoje se ergue a Basílica de Saint-Denis. Cinco séculos mais tarde, os jesuítas seguem o mesmo caminho, fazendo assim da metrópole de Seine-Saint-Denis um dos seus principais locais de vida, de engajamento social e de reflexão.

O Ceras seu centro de pesquisa e ação social é administrado por membros da outra comunidade jesuíta, sediada em La Plaine Saint-Denis. É um local dedicado à pesquisa acadêmica entre Igreja e sociedade, mas também à formação sobre a doutrina social da Igreja. Sua atividade mais conhecida é a publicação da revista “Projet”, dirigida pelo jesuíta belga Marcel Rémon. É uma das mais importantes publicações francesas que trata de questões sociais, ecológicas e políticas. A matéria de capa da edição mais recente: IA uma questão de democracia.

Numa época em que muitos se questionam sobre o futuro da Igreja, esses religiosos de Saint-Denis oferecem uma resposta original, sem discursos triunfalistas. Simplesmente continuam presentes. Nessa "cidade-mundo" que concentra tantas fraturas do nosso país, encontraram o seu lugar. Não acima da cidade, mas dentro dela, muito próximos da intuição inicial de Inácio de Loyola: buscar Deus onde pulsa o coração das pessoas. E isso muitas vezes começa com um café oferecido na rua a quem passa, a quem vive ali.

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