09 Julho 2026
Líderes como Trump, Milei e Bukele exibem esses atributos como uma bandeira para atrair cidadãos desiludidos, enquanto lucram com sua popularidade.
A reportagem é de Elisa Tasca, publicada por El País, 07-07-2026.
Na noite de 17 de janeiro de 2025, na véspera da posse de Donald Trump no Salão Oval, o Auditório Andrew W. Mellon fervilhava de expectativa. Entre smokings e vestidos de gala, acontecia o primeiro Crypto Ball, um evento exclusivo onde empreendedores do setor de criptomoedas e autoridades públicas se reuniam para dar as boas-vindas ao magnata republicano. O setor contava as horas para receber um governo que prometia uma era de ouro. A expectativa logo se transformou em euforia: naquela mesma noite, Trump se tornou o primeiro presidente adepto das criptomoedas dos Estados Unidos ao lançar sua própria memecoin.
O retorno do republicano à Casa Branca trouxe as criptomoedas para o centro das atenções: o fato de o líder de uma superpotência estar ganhando milhões nesse mercado legitimou esse investimento aos olhos do público em geral. A transição do mercado imobiliário para esse ativo recém-criado provou ser uma mina de ouro para o magnata, que no ano passado declarou uma renda de mais de US$ 1,4 bilhão.
Mas Trump não foi o único líder de extrema-direita a apostar nesse mercado. Nem mesmo o pioneiro. El Salvador, sob o governo de Nayib Bukele, foi a primeira nação do mundo, em 2021, a adotar o Bitcoin como moeda corrente, um projeto que teve de reverter no ano passado para receber um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI). O presidente argentino Javier Milei promoveu outra "memecoin", a Libra, um mês depois de Trump, que acabou se revelando uma fraude. O político britânico Nigel Farage, líder do Reform UK, também propôs a desregulamentação das criptomoedas e a criação de um fundo de reserva para Bitcoin, nos moldes do proposto por Trump nos EUA. Hoje, ele enfrenta sérios desafios após a revelação de presentes de um criptomilionário condenado por fraude.
“O mito da liberdade absoluta pregado por Milei e Bukele faz parte de uma nova onda de ciberlibertarianismo dominada pela extrema-direita”, afirma Paolo Gerbaudo, pesquisador sênior em Ciências Sociais da Universidade Complutense de Madrid. “As criptomoedas atraem a extrema-direita porque representam o poder da riqueza que se recusa a ser regulamentada pela autoridade política.”
Em teoria, porém, o mundo das criptomoedas não deveria se preocupar com política ou ideologias. O Bitcoin nasceu em 2008, inspirado pelas ideias dos cyberpunks, ativistas da década de 1990 que viam a tecnologia criptográfica como uma forma de proteger a privacidade de suas comunicações contra governos e grandes corporações. Enquanto o mundo sucumbia à pior crise financeira em décadas, causada pelos excessos do setor financeiro, essa nova moeda emergiu, projetada para operar fora de bancos e intermediários. Essa retórica anti-establishment, sua desconfiança no Estado e a promessa de prosperidade rápida se alinham com a ideologia de um segmento da nova direita populista e de líderes autoritários que se apropriaram da iconografia desse universo em seu discurso político e a transformaram em sua bandeira.
A crise financeira de 2008 destruiu muitas promessas e desencadeou uma agitação social que persiste até hoje, exacerbada pela crise imobiliária, pela insegurança no emprego e pela erosão do poder de compra de várias gerações que sentem que o sistema as decepcionou. Líderes como Trump e Milei entenderam essa frustração melhor do que ninguém. “Nesse contexto de raiva, as criptomoedas se tornam uma ferramenta particularmente útil porque se apresentam como uma alternativa ao sistema e vendem a ideia de que é possível alcançar o progresso econômico sem jogar pelas suas regras”, afirma Javier Carbonell, diretor do Future Policy Lab.
Oportunismo econômico
A ideologia, porém, não basta para explicar a união entre o mundo das criptomoedas e a extrema-direita ou o autoritarismo. Há uma questão muito mais pragmática: dinheiro. Partidos políticos e candidatos a cargos em países tão diversos quanto os EUA e El Salvador encontraram na indústria uma mina de ouro para financiar suas campanhas: em Washington, o lobby das criptomoedas apoiou integralmente as eleições de meio de mandato (que serão realizadas em novembro) e contribuiu com quase US$ 190 milhões.
Este não é um fenômeno novo, e esses ativos têm sido usados há anos como ferramenta para financiar movimentos extremistas. Os EUA lideram essa tendência, mas nos últimos anos a Europa ganhou terreno e passou a receber metade desses fluxos, destinados principalmente a grupos supremacistas brancos, nacionalistas e antissemitas, de acordo com um relatório da Chainalysis.
As criptomoedas deixaram de ser um fenômeno marginal e se tornaram uma ferramenta a serviço de objetivos extremistas. Os EUA adotaram as stablecoins — criptomoedas emitidas por entidades privadas e atreladas a uma moeda como o euro ou o dólar — como uma nova forma de reforçar a hegemonia global do dólar. É o que Tobias Boos, pesquisador da Universidade de Viena, define como criptomercantilismo.
O envolvimento desses líderes com o universo das criptomoedas nem sempre deriva de uma convicção profunda sobre a tecnologia ou seus potenciais benefícios econômicos ou sociais, mas sim de sua utilidade narrativa. “As criptomoedas ou a inteligência artificial estão associadas a uma ideia de modernidade: a crença de que, se as desenvolvermos, estaremos na vanguarda do progresso. Em El Salvador, essa narrativa funciona como uma ferramenta de propaganda, mas a questão é: para quem?”, questiona Boos.
Bukele apresentou seu projeto como uma solução para melhorar a inclusão financeira em um país onde, em 2021, apenas 40% da população com mais de 15 anos possuía conta bancária. O objetivo era construir um sistema financeiro alternativo baseado em criptomoedas, mas sua adoção foi limitada. Com o tempo, o discurso oficial se voltou para a ideia de modernizar o país e transformá-lo no Vale do Silício da América Latina, atraindo gigantes da indústria de criptomoedas como a Tether, emissora do USDT, a maior stablecoin do mercado, que transferiu sua sede para o país centro-americano em 2025.
Poder e redes sociais
O espírito rebelde e anti-establishment das criptomoedas dissipou-se em apenas 15 anos, dando lugar a um setor que já exerce considerável influência nos mecanismos de poder. A indústria de criptomoedas, liderada pela Coinbase, conseguiu bloquear, em janeiro, uma proposta de lei nos EUA que regulamentava o mercado de criptomoedas, a Lei da Clareza (Clarity Act). A oposição da empresa ao projeto de lei forçou os legisladores à mesa de negociações para conciliar os interesses do setor com os dos bancos tradicionais.
A aliança entre criptomoedas e grandes líderes também está transformando a própria natureza da política, que se torna cada vez mais provocativa. As memecoins lançadas por Donald Trump e promovidas por Javier Milei — que causaram prejuízos de milhões de dólares para milhares de investidores — são um exemplo. O mesmo acontece com a Dogecoin, a memecoin por excelência apoiada por Elon Musk, cuja influência inspirou até mesmo o nome de uma agência governamental americana dedicada a promover a eficiência: DOGE. "É a irreverência inerente à cultura da internet diante de uma política percebida como entediante, excessivamente regulamentada e burocrática", destaca Gerbaudo.
Mas essa conivência não se limita aos tweets. Ela atingiu um dos pilares do Estado: a moeda. A ascensão das stablecoins — versões digitais do dólar emitidas por empresas privadas — transfere o poder monetário para os agentes privados. E a proliferação de memecoins sem utilidade real cria o que o pesquisador da Universidade Complutense de Madri define como uma economia da fraude. “Qual o sentido de uma moeda assim, senão beneficiar o emissor? O surpreendente é que, há 10 anos, teríamos chamado isso de crime econômico, enquanto hoje toleramos como se fosse um mercado livre”, insiste ele.
A normalização dessas dinâmicas seria difícil de compreender sem o papel das redes sociais. O universo cripto prospera no desejo de pertencer a algo maior: comunidades digitais que compartilham códigos, narrativas e expectativas. Plataformas como X ou Telegram florescem em um contexto marcado pela crise dos intermediários, explica o cientista político Eduardo Bayón. “Isso está relacionado à falta de expectativas, à insatisfação política, à crise da mídia e à crescente tendência de obter informações pelas redes sociais”, aponta. “Nesses ambientes, dominam um discurso extremo de individualismo e liberalismo radical, teorias da conspiração e uma visão específica de sucesso econômico.”
Num mundo onde a mobilidade social entrou em colapso, a promessa de enriquecimento rápido, ao estilo de O Lobo de Wall Street, encontrou terreno fértil. Este é o berço de alguns dos chamados "finfluencers", criadores de conteúdo financeiro que apresentam o investimento especulativo como um caminho para o sucesso econômico acessível a todos. Na Espanha, o caso de Álvaro Romillo, conhecido como Cryptospain, tornou-se famoso. Ele prometia retornos mínimos de 20% ao ano e acabou acusado de fraude, crime organizado e lavagem de dinheiro. Romillo também financiou a campanha para as eleições europeias de Luis Pérez, "Alvise", líder do partido Se Acabó La Fiesta. Mas a esses influenciadores juntam-se agora figuras como Trump e Milei, que movimentam milhões de dólares com um único tweet.
A busca pelo sucesso econômico a qualquer custo é um fio condutor em muitos desses discursos. E a principal promessa das criptomoedas se conecta diretamente a essa aspiração: enriquecer rapidamente. Esse novo ecossistema incorpora o conceito de homo speculans, desenvolvido por Aris Komporozos-Athanasiou, professor de sociologia do University College London, em seu livro Comunidades Especulativas. Para o especialista, a crise financeira marcou a transição do homo economicus — um indivíduo racional que calcula custos e benefícios — para um sujeito mais imaginativo que, diante de um futuro incerto, não tem outra opção senão especular, algo que já não é exceção. “Quanto maior a incerteza que percebemos, mais tendemos a especular”, resume ele. Trump, Milei, Farage ou mesmo Bukele não criaram esse sujeito, mas aprenderam a falar a sua linguagem.
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