08 Julho 2026
O Conselho Consultivo Anglicano (CCA) teve o seu 19º encontro em Belfast, na última semana, tendo decidido propor mais três anos para o discernimento e diálogo sobre as propostas de mudança estrutural da Comunhão Anglicana, conhecidas por Propostas Nairobi-Cairo. A arcebispa de Cantuária viu reconhecido o seu papel e decidiu apostar em caminhos que reúnam os primazes num trabalho de colaboração.
A reportagem é de Manuel Pinto, publicada por 7Margens, 06-07-2026.
Sendo um dos quatro “Instrumentos de Comunhão”, juntamente com a Conferência de Lambeth, a Reunião dos Primazes e o Arcebispo de Cantuária, o CCA, que reúne a cada três anos, encontrou-se, desta vez, sob o lema “Chamados a uma só esperança”, tendo sido o primeiro encontro em que participou a nova arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally e, também, o primeiro desde que um setor importante de igrejas nacionais sobretudo africanas e asiáticas, organizado no GAFCON – Anglicanos Globais decidiu seguir um caminho de distanciamento, por discordâncias teológicas e pastorais que se arrastam há vários anos.
As matérias que têm suscitado divisões – entre um “Norte global” mais aberto e um “Sul global mais conservador – relacionam-se com a moralidade sexual e o papel das mulheres. A questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo e, por maioria de razão, entre clérigos nessas situações, bem como a possibilidade de as mulheres poderem aceder a todos os graus da hierarquia eclesiástica, têm sido matéria de forte controvérsia. Porém, o GAFCON considera que estes temas não passam de “sintomas” de “desvios doutrinários e morais do ensino das Escrituras”, que as lideranças de Cantuária não souberam ou quiseram acautelar.
A resolução agora aprovada no encontro do Conselho Consultivo Anglicano pretende, de alguma forma, ir ao encontro dessas preocupações que lidam com “a unidade cristã, a identidade anglicana e as estruturas da Comunhão”, um trabalho que se iniciou no encontro anterior deste órgão, em 2023. Nessa altura, a Comissão Permanente Inter-Anglicana sobre Unidade, Fé e Ordem (IASCUFO, na sigla em inglês) foi incumbida de um trabalho preparatório, publicado no ano seguinte, intitulado “Propostas de Nairobi-Cairo”.
Essas propostas avançam com duas medidas fundamentais: “a primeira propõe uma descrição atualizada da Comunhão Anglicana para refletir a sua estrutura e realidade atuais”, enquanto a segunda visa “ampliar a liderança da Comunhão Anglicana, para melhor refletir a diversidade da Comunhão no mundo atual e garantir que a liderança da Comunhão “seja representativa da Comunhão”. Neste segundo aspecto, as reformas têm como objetivo ”fortalecer a colegialidade dos Instrumentos e complementar o ministério singular do Arcebispo de Cantuária”.
Desde que o documento foi publicado e colocado ao dispor das Igrejas e das suas estruturas, foram recebidos contributos e realizadas consultas diversas. Para além da apresentação do estado da questão no encontro do CCA de Belfast, a IASCUFO tem previsto publicar em breve um suplemento às “Propostas de Nairobi-Cairo”.
A resolução aprovada no final dos trabalhos do encontro afirma “a realidade atual da Comunhão Anglicana – uma comunhão de igrejas autónomas identificadas pela plena comunhão com a Sé de Cantuária”, que – faz notar o texto aprovado, “sente agora a dor de algumas se descreverem como estando em plena comunhão com Cantuária, enquanto outras não, e busca, em conjunto, receber novamente o dom de Deus da plena comunhão como uma só família”.
Ao mesmo tempo que sublinharam o “amplo consenso no CCA de que a comunhão com a Sé de Cantuária ‘continua a ser vital para qualquer reformulação da identidade anglicana”, os participantes também acolheram a intenção da arcebispa titular daquela Sé de convocar uma Reunião de Primazes para considerar formas colaborativas de trabalho”. Acolheram ainda a ideia de um período de diálogo mais aprofundado em toda a Comunhão Anglicana para “ajudar a rearticular e desenvolver a identidade anglicana, incluindo a relação entre os Instrumentos da Comunhão”.
O Conselho Consultivo decidiu ainda realizar uma análise profunda sobre “Primazia e Sinodalidade” na Comunhão Anglicana, convocando o que se pode aprender com comissões teológicas anteriores da Comunhão Anglicana, mas também com os acordos ecuménicos existentes e com o trabalho realizado nesta área por outras igrejas, como a Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica Romana. Um relatório sobre esta matéria ficou de ser apresentado na próxima reunião do Conselho, em 2029.
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