04 Julho 2026
"Na tentativa de defender o cristianismo, corre-se o risco de esconder Cristo por trás do próprio cristianismo", escreve Rocco Femia, em artigo publicado em seu Facebook, 30-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Uma pergunta me ocorre sempre que surge uma polêmica na Igreja, como aquela atual que contrapõe Roma e os lefebvrianos: onde foi parar Jesus de Nazaré?
Confesso que a perspectiva de um novo cisma me preocupa menos do que outra possibilidade: a de que, dois mil anos após sua morte, alguns cristãos ainda possam considerar a defesa de uma determinada ideia de Tradição, liturgia e identidade eclesial como uma razão suficiente para romper a comunhão eclesial.
Essa é a pergunta que deveríamos ter a coragem de nos fazer. Como pode uma religião cujo fundador nos lembrou constantemente que o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado, ainda acabar se dividindo pela defesa de um determinado modelo de Igreja?
Nos Evangelhos, as palavras mais duras de Jesus não são dirigidas aos pecadores. Elas são dirigidas aos profissionais da religião, quando a religião se torna mais importante do que o homem. Jesus não deixou um tratado de liturgia. Não escreveu um manual de práticas cerimoniais. Não estabeleceu nenhum código referente ao vestuário sagrado, nem qualquer disciplina detalhada dos ritos. O cerne de seu ensinamento estava em outro ponto. E talvez seja precisamente por isso que corremos o risco de esquecer. Ele falou da justiça, da misericórdia, do perdão, da relação com o dinheiro e o poder; da hipocrisia religiosa e da dignidade dos últimos. Ele nos lembrou incansavelmente de que o homem vale mais do que a norma, e que o próximo importa mais do que a observância.
É difícil imaginar que o coração do cristianismo possa realmente se identificar com a língua de uma liturgia, a forma de um rito ou a defesa de uma estrutura eclesiástica específica. No entanto, dois mil anos depois, há cristãos dispostos a romper a comunhão para defender o que consideram a única interpretação autêntica da Tradição. É um paradoxo que deveria nos inquietar.
Estou bem ciente de que, aos olhos deles, não está em jogo uma simples questão litúrgica. Eles acreditam estar salvaguardando a integridade da fé. É precisamente por isso que a pergunta se torna ainda mais radical.
Talvez o problema enfrentado por uma parte do catolicismo contemporâneo não seja nem mesmo o fato de ser fiel demais à Tradição. A fidelidade é uma virtude quando permanece viva. O problema surge quando a Tradição deixa de ser uma transmissão e se
torna um refúgio, quando já não conduz mais ao Evangelho, mas acaba por substituí-lo. Nesse ponto o cristianismo deixa de se apresentar como um encontro capaz de transformar uma existência, para ser uma identidade a ser defendida. E quando uma religião se torna principalmente um marcador identitário, gradualmente deixa de ser uma aventura espiritual. Serve apenas para distinguir aqueles que estão "dentro" daqueles que estão "fora", aqueles que possuem os códigos certos daqueles que não os possuem.
É aqui que se manifesta o paradoxo mais dramático.
Na tentativa de defender o cristianismo, corre-se o risco de esconder Cristo por trás do próprio cristianismo.
A verdadeira crise não é o fato de alguns cristãos defenderem a Tradição com demasiado zelo; a verdadeira crise começa quando o cristianismo toma o lugar de Cristo.
Não acredito que o cristianismo tenha nascido para formar guardiões de um museu. Nasceu de uma palavra que convidava a sair de si mesmo, a ir ao encontro do outro, a amar além dos limites de qualquer pertença e a deslocar as fronteiras em vez de reforçá-las.
É por isso que o que está acontecendo hoje vai muito além do caso específico dos lefebvrianos. Não se trata apenas de um conflito entre Roma e uma fraternidade sacerdotal. Levanta uma questão que desafia todo crente e, em última análise, toda religião: o que estamos realmente defendendo? Uma identidade ou uma esperança? Um sistema ou uma mensagem? Uma Tradição ou o Evangelho que essa Tradição deveria cuidar e transmitir?
Uma religião não trai o seu fundador apenas quando nega as suas palavras; pode traí-lo também quando fala dele constantemente deixando de olhar para o mundo através dos seus olhos.
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