Pós-terremoto na Venezuela: o risco de uma ocupação militar disfarçada de reconstrução. Artigo de David Fonseca

Foto: wckitchen | Flirck CC

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02 Julho 2026

"Os terremotos eventualmente passarão, mas suas repercussões políticas ameaçam perdurar. A assistência internacional, especialmente dos Estados Unidos, não deve, em hipótese alguma, ser transformada em uma ocupação militar, seja ela temporária ou permanente", escreve David Fonseca, em artigo publicado por El Salto, 01-07-2026.

Eis o artigo.

A Venezuela declarou estado de emergência após os fortes terremotos de 24 de junho, que causaram o desabamento de inúmeros prédios em diferentes partes do país, deixando um saldo trágico de pelo menos 1.943 mortos e quase 10.000 feridos (até a data de publicação deste artigo).

Dada a magnitude da tragédia, diversos países expressaram sua solidariedade ao povo venezuelano e começaram a coordenar o envio rápido de suprimentos e equipamentos de resgate para as áreas mais afetadas. Sem demora, o governo venezuelano organizou operações de busca e resgate, com a participação de contingentes internacionais.

Uma década de sanções dificulta a resposta a desastres.

Em maio, o vice-ministro da Política Antibloqueio da Venezuela, William Castillo, informou que o país foi submetido a 1.088 medidas coercitivas unilaterais nos últimos 11 anos, das quais 1.040 permanecem ativas. Desde 2015, Washington impôs mais de 1.000 sanções econômicas que dificultam severamente a aquisição de medicamentos, situação que se tornou crítica, visto que diversos hospitais estão sobrecarregados com o número de feridos.

Essas sanções dos EUA, juntamente com a consequente crise econômica, estão dificultando os esforços de resgate. As equipes de emergência precisam remover escombros e procurar sobreviventes com recursos muito limitados, reduzindo drasticamente o tempo disponível para encontrá-los com vida. A situação foi ainda mais agravada por extensos apagões em grande parte do país, que também interromperam as telecomunicações, deixando milhares de venezuelanos no exterior sem conseguir entrar em contato com suas famílias.

Essa situação vulnerável foi agravada pelas sanções e pelas políticas agressivas de Washington. Durante anos, o governo venezuelano operou sob um bloqueio sufocante que prejudicou sua capacidade de fornecer ou produzir os materiais necessários para lidar com desastres naturais dessa magnitude. Washington estava ciente da escassez de suprimentos médicos no país; portanto, um dos primeiros carregamentos dos EUA após o sequestro de Nicolás Maduro consistiu em 65 toneladas de suprimentos médicos, representando um reconhecimento não oficial do impacto de suas próprias sanções. Esse impacto direto também é evidente nas estações de monitoramento e pesquisa sísmica da Venezuela, cujas restrições financeiras impediram suas atualizações tecnológicas, forçando o governo a desativá-las parcialmente.

Washington tenta limpar sua reputação

Após os terremotos de 24 de junho, os Estados Unidos declararam estar em contato com as autoridades venezuelanas e mobilizando assistência para a nação sul-americana, historicamente afetada pelo embargo de Washington. Donald Trump foi um dos primeiros líderes a prometer apoio: “Os EUA estão prontos, dispostos e aptos a ajudar. Estaremos ao lado de nossos novos e grandes amigos.”

O governo dos EUA também emitiu a Licença Geral 60 do OFAC, uma autorização temporária válida até 23 de outubro de 2026, que permite o processamento de transações relacionadas à assistência humanitária para vítimas de desastres. Embora isso pareça um passo positivo, não resolve o obstáculo subjacente. O economista Francisco Rodríguez explica que essas licenças limitadas são insuficientes para garantir o fluxo rápido de fundos, já que muitas instituições financeiras internacionais continuam bloqueando ou atrasando transações por medo de violar o regime geral de sanções.

Por outro lado, os Estados Unidos enviaram um contingente considerável de socorristas para se juntar aos esforços de resgate, e vários meios de comunicação divulgaram imagens dessas equipes trabalhando lado a lado com o pessoal venezuelano.

Ao mesmo tempo, Trump gerou controvérsia ao declarar que os venezuelanos estão felizes e ainda dançando nas ruas após os terremotos. Isso sugere que, fiel à abordagem geopolítica tradicional de Washington, o desastre poderia ser explorado para expandir sua influência na Venezuela e melhorar sua imagem junto a certos setores do chavismo.

Nós, venezuelanos, devemos sempre lembrar que qualquer desastre ou tragédia é temporário. Uma pequena ajuda de um inimigo que busca apenas se apoderar de nossos recursos naturais não pode apagar o passado cruel de sanções e guerras políticas. Além disso, jamais esqueceremos que os próprios americanos invadiram a Venezuela em 3 de janeiro de 2026 para sequestrar o presidente legítimo, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. Como resultado, 32 soldados cubanos e 47 soldados venezuelanos morreram.

Há um precedente na história recente do país: em 1999, após os deslizamentos de terra no estado de Vargas (atual La Guaira), o então presidente Hugo Chávez rejeitou a ajuda dos EUA, e o país conseguiu se recuperar por conta própria. Atualmente, os terremotos poderiam abrir caminho para maiores investimentos diretos dos EUA em infraestrutura essencial, como água potável e reconstrução geral; no entanto, sob essa perspectiva, isso poderia levar a sérias perdas de soberania nacional.

Ameaça percebida decorrente da presença militar dos EUA na Venezuela

Washington já enviou mais de 900 soldados para o território venezuelano. O curioso é que os "resgatadores" americanos estão equipados com apetrechos normalmente usados ​​por forças especiais, como óculos de visão noturna. Embora se possa supor que esses óculos incluam tecnologia de imagem térmica para facilitar as operações de resgate, nenhum vídeo surgiu até o momento demonstrando seu uso pelos militares dos EUA. Isso é o que se conhece como uma "invasão silenciosa", uma área em que Washington atua com maestria.

Qual seria a possível estratégia deles? Na verdade, é bem simples. Remover os escombros e reconstruir completamente o país poderia levar meses ou até anos; durante todo esse tempo, Washington seria responsável por divulgar vídeos mostrando o trabalho humanitário de seus socorristas. Simultaneamente, pressionariam o governo venezuelano a convidar sismólogos e engenheiros sísmicos americanos para centros científicos locais, sob o pretexto de organizar uma colaboração conjunta.

O passo final seria estabelecer um centro conjunto de pesquisa sísmica na Venezuela, com pessoal do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA (Usace). Dado que o Usace é responsável pela gestão e projeto de infraestruturas essenciais — como hidrovias, portos, barragens e projetos de mitigação de desastres — a justificativa seria facilmente encontrada. Naturalmente, a segurança dessas instalações seria confiada a pessoal das forças especiais. Dessa forma, Washington estabeleceria discretamente uma base militar em território venezuelano.

Ao demonstrar as vantagens da presença dos EUA no país, a Casa Branca proporia a Caracas o destacamento de suas forças armadas no âmbito da iniciativa Escudo das Américas. Uma presença militar permanente não só permitiria um melhor monitoramento da situação interna, como também preveniria ameaças aos interesses nacionais de Washington. Em última análise, o objetivo geral da Casa Branca é desmantelar a ideologia do chavismo para consolidar um aliado sob seu controle.

Por sua vez, a oposição venezuelana já deu um exemplo eloquente de como funcionam as relações amistosas com Washington. Isso ficou evidente quando a líder da oposição, María Corina Machado, foi obrigada a pedir permissão à Casa Branca para retornar à Venezuela após os terremotos; um pedido que frustrou altos funcionários americanos, que acabaram não autorizando seu retorno.

Os terremotos eventualmente passarão, mas suas repercussões políticas ameaçam perdurar. A assistência internacional, especialmente dos Estados Unidos, não deve, em hipótese alguma, ser transformada em uma ocupação militar, seja ela temporária ou permanente.

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