O Papa no Consistório: “A guerra é coisa de animais, que prevaleça o diálogo”

Papa Leão com os cardeais. (Foto: Vatican Media)

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29 Junho 2026

Consistório de paz em tempos de guerra. O Papa consulta 178 cardeais e atualiza a geopolítica do Vaticano: “A guerra nunca é digna; somos seres humanos, não animais. Há tanto sofrimento; a Igreja deve criar oportunidades de encontro”.

A informação é de Giacomo Galeazzi, vaticanista, publicado por La Stampa, 27-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Um não à “fragmentação”. Agora, é preciso “compartilhar em prol do bem comum. A família humana está gravemente ferida, e a defesa da dignidade exige escuta”. E o Pontífice pede “apoio explícito” aos seus colaboradores mais próximos. Na agenda fake news, propagação de antissemitismo e polarização, opressão de minorias religiosas e étnicas, tensões políticas, marginalizações de migrantes e violência generalizada.

O canonista Padre Filippo Di Giacomo, analista de questões eclesiásticas, afirma: “O Colégio cardinalício volta a ser ‘senado do Papa’, ecoando o alerta de Agostinho sobre Roma nas mãos dos bárbaros”. Leão pede por líderes civis e religiosos que não sejam déspotas, mas que saibam ouvir para encontrar o caminho do bem. Um alerta a quem, dentro da Igreja, fala em comunhão, mas depois nega a sinodalidade com decisões autoritárias tomadas sem consultar os órgãos diocesanos. O consistório aborda as preocupações de comunidades próximas e distantes de Roma, que agora serão examinadas. Exemplo de colaboração entre o centro e a periferia, prestes a se tornar Magistério vinculante, até mesmo para os recalcitrantes. Quanto aos migrantes, os cardeais pedem "políticas reais de integração em um momento em que novas formas de exclusão estão despontando". A governabilidade e a convivência estão em risco: a violência se dissemina como meio de resolver disputas, levando a antagonismos pessoais, agressividade ou, em nível internacional, a guerras e conflitos”. Também são levantados alertas sobre antissemitismo e ameaças à liberdade religiosa.

Em particular, alguns cardeais da UE descreveram a escalada de ataques a paróquias e sinagogas, outros destacaram o aumento do uso de drogas e antidepressivos entre os jovens. Há um sentimento generalizado de falta de confiança, fatalismo e impotência em relação às instituições, à democracia e ao futuro, ligado também à queda nas taxas de natalidade e ao crescimento de grupos criminosos, da delinquência juvenil e do tráfico de drogas, bem como da perda de valores espirituais e transcendentes e de um sentido de propósito na vida. Além disso, a "disseminação de um sentimento de cansaço e a ausência de uma perspectiva baseada na verdade sinalizam uma incapacidade de reconhecer a alteridade e de construir relacionamentos".

O Arcebispo Michele Pennisi resume: "Em meio à 'terceira guerra mundial aos pedaços', o consistório retira qualquer legitimidade moral. Nenhum dos cinquenta focos de tensão ativos é 'justo'; a Igreja trabalha ativamente em toda parte para promover a reconciliação - como testemunha o Cardeal Pierbattista Pizzaballa na Terra Santa - os pastores que permanecem a serviço do povo ucraniano sob ataque russo e os cardeais mártires das guerras esquecidas na África e na Ásia. Com o aval pontifício para ações de ajuda aos civis e de promoção de negociações". De fato, o Papa insta a que "o diálogo prevaleça sobre a força: a guerra nunca é abençoada por Deus, que nos dotou de inteligência para resolver conflitos sem armamentos hipertecnológicos. A paz é um dever de justiça". É um apelo para deter "tensões graves".

O Padre Giulio Albanese, assessor da Secretaria de Estado, observa: "Na atual conjuntura internacional, o consistório transcende uma leitura puramente estratégica das relações entre povos, territórios e poderes. Não reduz o mundo a articulação de esferas de influência, corredores energéticos, fronteiras disputadas e dispositivos militares. Não basta mapear atores, interesses e dinâmicas de força; é preciso também compreender as matrizes culturais, espirituais e antropológicas". Toda crise geopolítica "é também uma crise de sentido: uma guerra que se prolonga, um povo forçado ao êxodo, uma cidade reduzida a um monte de escombros, um mar transformado em fronteira mortal, uma geração privada de futuro. Esses não são simples eventos políticos, mas a manifestação histórica de uma ruptura mais profunda entre poder e responsabilidade, desenvolvimento e justiça, segurança e paz". Diante "de um sofrimento descrito em tantos níveis", o consistório conclama a Igreja a "mostrar-se como mãe, lugar acolhedor capaz de reconhecer os seus próprios erros e transformar o sofrimento num momento de crescimento".

Enquanto "muitas instituições atravessam crises de credibilidade", a Igreja "sente-se chamada a falar com autoridade em defesa da dignidade da pessoa, da paz, da reconciliação e do bem comum". O Decano do Colégio Cardinalício, Giovanni Battista Re, faz eco ao apelo papal por um "despertar das consciências para construir uma civilização de amor, fraternidade e paz". Ele reitera a "condenação da guerra como uma perda para todos e uma tragédia desumana". O consistório, que voltou a ser central nos equilíbrios da Cúria, garante "total apoio e cooperação" a Leão que, em 4 de julho, em Lampedusa, coincidindo com o 250º aniversário dos EUA, reafirmará, às portas da Europa, que o que é sagrado é a vida humana, não as fronteiras, em contraste com a propaganda nacionalista sobre uma invasão islâmica e o Ocidente sob cerco do Sul.

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