15 Abril 2026
Em menos de uma página impressa, Leão XIV aponta para “a comunicação do amor com que Deus ama o mundo”, reconhece a necessidade de “reconsiderar a eficácia da comunicação eclesial” e indica, de modo mais pragmático, que será enviada aos cardeais “uma comunicação mais detalhada” sobre o próximo Consistório. Três ocorrências de uma palavra e, ao mesmo tempo, três dimensões da missão cristã.
O comentário é de Moisés Sbardelotto, mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos e professor da PUC Minas.
Eis o texto.
Uma breve carta pode dizer muito, especialmente quando uma palavra aparece três vezes em poucas linhas, cada uma com um valor semântico diferente.
A carta que o Papa Leão XIV dirigiu aos cardeais nesta terça-feira, 12 de abril, ainda em clima pascal, é curta, quase lacônica. É um agradecimento pelo Consistório de janeiro passado e um lembrete aos cardeais sobre o encontro em junho próximo, que terá como foco a exortação Evangelii gaudium, do Papa Francisco. Para Leão, esse documento “continua representando um ponto de referência decisivo” também para a Igreja de hoje, “reconhecida como um verdadeiro ‘sopro novo’, capaz de iniciar processos de conversão pastoral e missionária”.
E é nesse contexto que o papa recorre ao termo comunicação por três vezes. Não como mero recurso redacional, mas como sinal de uma tomada de consciência que passou a marcar a reflexão (mas nem sempre a prática) eclesial nos últimos anos.
Uma palavra que retorna
Em menos de uma página impressa, Leão XIV aponta para “a comunicação do amor com que Deus ama o mundo”, reconhece a necessidade de “reconsiderar a eficácia da comunicação eclesial” e indica, de modo mais pragmático, que será enviada aos cardeais “uma comunicação mais detalhada” sobre o próximo Consistório.
Três ocorrências de uma palavra e, ao mesmo tempo, três dimensões da missão cristã que, juntas, compõem uma visão orgânica do que a comunicação significa para a Igreja hoje. Não se trata de uma simples coincidência estilística. Há aí uma intuição mais profunda de que a comunicação não é um setor da Igreja nem um instrumento ou uma técnica a serviço da missão eclesial. Ela é a missão, em suas múltiplas expressões, e, portanto, constitui a própria identidade cristã e eclesial.
Esses três registros diferentes estão, portanto, profundamente articulados e ajudam a compreender a centralidade do processo comunicacional em uma Igreja que deseja ser sinodal e missionária.
Comunicação teologal: o Amor que se comunica
O objetivo da carta de Leão XIV é retomar e enfatizar junto aos cardeais a atualidade da Evangelii gaudium para a Igreja de hoje. E esse documento de Francisco começa, precisamente, com a referência a “uma alegria que se renova e comunica”. A alegria do Evangelho é comunicativa: não pode ser contida por nada nem ninguém, nem pode se reduzir a uma experiência privada e intimista.
A formulação mais profunda e mais bela da carta é justamente aquela que apresenta a finalidade última da missão não como expansão institucional nem como conservação doutrinária, mas como comunicação amorosamente divina: “O fim da missão não é a própria sobrevivência, mas a comunicação do amor com que Deus ama o mundo”.
Há aqui toda uma teologia comunicacional. Mais do que pensar a comunicação da Igreja, trata-se de pensar a Igreja a partir da comunicação divina. Quando João diz que “Deus é amor” (1Jo 4,8), está dizendo, em última análise, que Deus é comunicação: existência que não se esgota em si mesma, abertura radical ao outro, dom total de si, amor que se dá a conhecer.
A comunicação, nesse sentido, é revelação, mais do que mediação. Está na origem da fé cristã, que, por sua vez, nasce de um encontro, como recorda o Papa Bento XVI citado por Francisco na Evangelii gaudium: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (EG 7). E esse encontro, uma vez vivenciado, torna-se intrinsecamente comunicativo: “Se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?” (EG 8). O dinamismo da fé cristã, centrada no mandamento do amor, passa justamente por essa comunicação por transbordamento.
Por isso, Francisco reitera: “A melhor motivação para se decidir a comunicar o Evangelho é contemplá-lo com amor, é deter-se nas suas páginas e lê-lo com o coração” (EG 264). A partir dessa inspiração os cristãos são pessoas que “deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais” (EG 10). Consequentemente, continua o papa com suas metáforas, “um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral” (EG 10) nem uma “cara de vinagre” (EG 85). Os cristãos são reflexos da imagem da comunhão divina (cf. EG 178).
Comunicação eclesial: uma Igreja que se repensa
Do vértice teológico, a carta desce ao plano socioinstitucional. Entre as indicações práticas que emergiram no encontro dos cardeais em janeiro passado, Leão XIV menciona “a exigência de reconsiderar a eficácia da comunicação eclesial, também no nível da Santa Sé, em uma chave mais claramente missionária”.
Falar em eficácia da comunicação eclesial pode parecer, à primeira vista, uma preocupação administrativa, gerencial, burocrática. Mas, na verdade, trata-se de reconhecer que o modo como a Igreja comunica, diz também quem ela é e molda – como água mole em pedra dura – aquilo que ela se torna. A comunicação é uma prática concreta que estrutura (ou pode desestruturar) a vida eclesial.
Mas, para a Igreja, comunicação não é sinônimo de "marketing", "branding", "gestão de imagem", "construção de reputação"; e eficácia não é necessariamente o mesmo que “resultado”, “quantidade”, “engajamento”, “impacto”, “influência”. Para a fé cristã, a comunicação eclesial é um desdobramento da comunicação teologal: trata-se de favorecer (e não obstaculizar) que a própria Palavra produza os efeitos desejados (por ela mesma!) e de fazer com que a mensagem (ela mesma!) transforme quem a recebe. Uma Igreja que (se) comunica muito ou demais, mas que comunica mal ou apenas formalmente bem, sem transformação existencial ou social, não responde à sua vocação.
Francisco já havia colocado o dedo nessa ferida, quando afirmou que, “sem a opção preferencial pelos pobres, o anúncio do Evangelho corre o risco de não ser compreendido ou de se afogar naquele mar de palavras que a atual sociedade da comunicação nos apresenta diariamente” (EG 199). O mar de palavras é real, e a Igreja não está imune ao risco de também se afogar nele. Comunicar em chave missionária exige um profundo discernimento sobre o quê, como, para quem, com quem e em nome de Quem se fala.
Francisco advertia ainda que a reforma das estruturas eclesiais que a conversão pastoral exige só pode ser entendida num sentido preciso: “Fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta” (EG 27), mais receptiva e relacional, mais capaz de escuta e de encontro. Ou seja, não há reforma eclesial sem reforma comunicacional. Não há sinodalidade sem processos comunicativos que sejam, de fato, abertos, participativos, dialógicos.
Mas a busca pela eficácia comunicacional precisa levar em conta, como afirmou Francisco, que “o compromisso evangelizador se move por entre as limitações da linguagem e das circunstâncias”. E, justamente a partir desse reconhecimento, “procura comunicar cada vez melhor a verdade do Evangelho num contexto determinado [sabendo que] a perfeição não é possível” (EG 45).
Comunicação prática: o detalhe que faz toda a diferença
A terceira ocorrência do termo na carta de Leão XIV é, à primeira vista, a mais prosaica: o papa informa que, em vista do Consistório de junho, será enviada aos cardeais “uma comunicação mais detalhada para acompanhar adequadamente sua preparação”. Um detalhe logístico, se poderia dizer, em que a comunicação aparece em sua dimensão mais pragmática, cotidiana.
Mas há aí um adjetivo importante: mais detalhada. Uma comunicação orientada a acompanhar adequadamente os processos revela uma consciência que não separa o conteúdo da forma nem a mensagem do meio. Particularmente a comunicação institucional e organizacional não pode ser feita de qualquer modo. Toda a comunicação da Igreja, da mais teológica à mais burocrática, deve ser adequada, isto é, equalizada e sintonizada com seus destinatários e seus contextos.
A Evangelii gaudium também reitera esse ponto: “Se pretendemos colocar tudo em chave missionária, isso aplica-se também à maneira de comunicar a mensagem” (EG 34). O detalhe está justamente na “maneira de comunicar”, e não apenas no conteúdo e na mensagem. Como Francisco bem demonstrou ao longo de seu pontificado, a forma comunica junto com – e às vezes até mais do que – o conteúdo.
Em um contexto marcado pela hiper(des)informação superficial e efêmera, a atenção aos detalhes de uma ação comunicacional é também um chamado à ética da comunicação. Comunicar bem não é comunicar muito nem necessariamente rápido, mas sim comunicar com sentido e atenção ao outro. E isso implica um exercício exigente: “Precisamos de nos exercitar na arte de escutar, que é mais do que ouvir. Escutar […] é a capacidade do coração que torna possível a proximidade” (EG 171). Uma Igreja que sabe comunicar é, antes de tudo, uma Igreja que aprendeu a escutar os sinais dos tempos e os clamores dos pobres.
Três palavras, dois papas, um programa
Há uma convergência profunda entre uma aparente redundância verbal em uma simples carta de Leão e as intuições eclesiais profundas de Francisco em um imponente documento magisterial como a Evangelii gaudium: sinodalidade e missão são duas dimensões de um único processo comunicacional. Uma Igreja sinodal é aquela que caminha junta, que escuta e dialoga, que faz do processo comunicativo seu modo de ser, seu método existencial e organizacional.
Francisco já havia apontado, com sua escrita poética, que, “neste tempo em que as redes e demais instrumentos da comunicação humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o desafio de descobrir e transmitir a ‘mística’ de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade” (EG 87). Um missionário só consegue viver essa experiência em uma tensão comunicativa em saída, quando “nunca se refugia nas próprias seguranças, nunca opta pela rigidez autodefensiva. Sabe que ele mesmo deve crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do Espírito, e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada” (EG 45). Uma Igreja comunicativa é uma Igreja que não tem medo do encontro com o diferente e com as diferenças.
Para construir uma Igreja missionária e sinodal, é preciso reconhecer a profunda relação entre evangelização e comunicação. Mas, para isso, é preciso reconhecer igualmente as dimensões teologal, eclesial e testemunhal da comunicação cristã. A repetição por três vezes da palavra “comunicação” em uma curta carta papal, portanto, não deve ser lida como uma curiosa coincidência, mas sim como o autorreconhecimento de uma Igreja que – ainda sob o efeito-Francisco – se percebe, cada vez mais, em tudo o que diz e faz, como um sacramento da amorosa comunicação de Deus.
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