24 Junho 2026
A combinação de táticas militares assimétricas e alvos civis fora do campo de batalha conferiu ao regime iraniano uma vantagem competitiva e psicológica, apesar de sua evidente inferioridade em relação à principal potência mundial.
A reportagem é de Oscar Gutierrez, publicada por El País, 23-06-2026.
Um exemplo simples de guerra assimétrica: um drone iraniano voa em direção a instalações de gás no Catar. O custo do míssil, dependendo do modelo e do ano, varia de € 17.000 a € 43.000. Um interceptor de uma bateria antiaérea Patriot, de fabricação americana, é enviado para interceptá-lo e destruí-lo. Cada unidade desse tipo de míssil custa cerca de € 3,2 milhões. Além disso, para garantir um ataque bem-sucedido, geralmente são lançados dois mísseis. A relação custo-benefício da interceptação pode chegar a 1 para 10 a favor da aeronave de ataque não tripulada. É mais caro abater um drone (usando meios cinéticos, não eletrônicos) do que operá-lo. E esse exemplo explica em parte o que aconteceu na guerra entre os Estados Unidos — juntamente com Israel — e o Irã.
Um conflito de forças desiguais no qual o lado mais fraco, o regime iraniano, conseguiu se manter na luta por meio de uma combinação de capacidades militares aprimoradas ao longo de décadas, tanto de alto quanto de baixo custo, e uma estratégia de escalada horizontal (extensão do conflito para além do campo de batalha; neste caso, para o setor energético internacional com o controle do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz) que abalou os cofres do Departamento de Defesa dos EUA e a economia mundial.
O exemplo do drone no Catar pode ser considerado um ataque frustrado, mas muitas munições atingiram seus alvos durante os 39 dias do conflito e nas violações mais recentes do cessar-fogo alcançado em 8 de abril: prova disso é que o bombardeio iraniano paralisou 17% dos embarques de gás natural liquefeito do Catar, representando quase € 15 bilhões em receita. “O Irã enfrentou uma tarefa hercúlea contra um exército muito maior e mais avançado”, observa Steven Feldstein, da Carnegie Endowment for International Peace, em uma troca de e-mails. “Rapidamente percebeu que lutar nos termos dos Estados Unidos ou de Israel levaria a uma derrota catastrófica.”
Teerã então ativou uma estratégia descentralizada de tomada de decisões militares, concebida 20 anos antes pelo general Mohammad Jafari, para compensar as mortes de seus comandantes e lançar uma ofensiva multifacetada: mísseis balísticos de precisão, drones de ataque de baixo custo e terror nas águas do Golfo Pérsico pelas mãos da Marinha da Guarda Revolucionária Iraniana. Este verdadeiro manual de guerra contra a maior potência militar do mundo poderia servir de ponto de referência para outros conflitos.
As forças armadas iranianas têm exercido grande pressão sobre as capacidades ofensivas e defensivas implantadas pelos Estados Unidos na região. Foi a primeira vez que os sistemas de defesa aérea americanos instalados em países aliados do Golfo sofreram ataques em enxame — ou seja, ofensivas combinadas de veículos aéreos não tripulados e mísseis balísticos ou de cruzeiro — com o objetivo de sobrecarregar as defesas aéreas do Kuwait, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
Segundo cálculos de Mark F. Cancian e Chris H. Park para o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), os Estados Unidos utilizaram entre 3.710 (no limite inferior da faixa) e 4.510 unidades de sete dos mísseis mais valiosos de seus arsenais — além de munições como drones LUCAS e bombas guiadas. Para quatro desses modelos de mísseis, o Pentágono teria esgotado metade de seu estoque (incluindo os interceptores Patriot e THAAD, altamente valorizados por parceiros como a Ucrânia).
Cancian e Park estimam que a restauração dos estoques de mísseis aos níveis pré-guerra com o Irã pode levar de um a quatro anos. A pressão dentro do Pentágono tem aumentado desde as primeiras semanas de operações, as mais exigentes para os sistemas de defesa dos EUA implantados no Golfo. É por isso que o governo Trump, que visa um aumento de 40% nos gastos militares, para € 1,3 trilhão, tem pressionado os fabricantes de armas dos EUA a trabalharem mais rápido e a custos mais baixos.
A guerra assimétrica não é novidade. Como Feldstein destaca, a história militar oferece exemplos como a contraofensiva ucraniana após a grande invasão russa de 2022; certas fases do conflito israelo-palestino; as guerras no Afeganistão contra a União Soviética ou os Estados Unidos; e a estratégia da Frente de Libertação Nacional da Argélia em sua luta contra a França na década de 1950. A diferença reside no momento. O atual confronto no Oriente Médio ocorre em meio a uma explosão de armamentos letais de baixo custo, com drones na vanguarda, e uma economia global interconectada e, portanto, mais vulnerável. Tudo isso torna a escalada horizontal empreendida pelo regime de Mukhta Khamenei e da Guarda Revolucionária ainda mais prejudicial ao adversário.
O destacamento americano foi massivo, o maior desde a invasão do Iraque há mais de duas décadas. Washington enviou quase 40% de seus navios operacionais para o Oriente Médio. Uma força grande o suficiente, com soldados de elite e navios de assalto anfíbio, para pisar em solo iraniano. Mas esse não era o plano. “Trump nunca convenceu seus apoiadores, muito menos o país, da necessidade da guerra, então o risco de uma invasão terrestre que paralisaria o processo e causaria inúmeras baixas americanas era politicamente inaceitável”, continua Feldstein. E sem pisar em território inimigo, é difícil assegurar posições militares e declarar uma vitória completa.
Seguiu-se uma guerra de desgaste, travada com intenso fogo de artilharia. Os Estados Unidos estimam ter atingido 13.000 alvos com seus mísseis, drones e bombas guiadas. O Irã lançou aproximadamente 1.300 projéteis e 4.400 drones de ataque contra Israel, seus vizinhos na região e navios no Golfo. Desnecessário dizer que o país menor sofreu as maiores perdas no campo de batalha. Teerã estima que a ofensiva causou prejuízos de pelo menos € 230 bilhões (57% do seu PIB). O Comando Central dos EUA na região reiterou que destruiu grande parte do aparato de mísseis do Irã, um pilar da defesa do país. Os danos foram significativos, mas não há indícios de que sejam irreparáveis.
No início de maio, o New York Times noticiou, citando fontes da inteligência americana, que o regime havia restabelecido o acesso operacional a 30 das 33 bases de mísseis que mantém ao longo do Estreito de Ormuz, bem como a 90% de suas instalações subterrâneas de armazenamento e lançamento. Como observou Matthew Savill, do Royal United Services Institute, em uma breve análise na quinta-feira, o memorando de paz firmado entre Washington e Teerã não menciona o programa de mísseis balísticos do Irã, alvo de guerra tanto para os Estados Unidos quanto para Israel. É, e continuará sendo, um ponto inegociável para o regime iraniano.
Parte do poder do Irã deriva da falta de informações sobre seus arsenais, locais de lançamento e centros de produção. Isso contrasta fortemente com a facilidade de localização dos alvos do inimigo, sejam eles bases americanas ou instalações de energia em países vizinhos. Especialistas militares também questionam os sucessos dos Estados Unidos. Embora o Comando Central dos EUA na região (Centcom) tenha divulgado vídeos de bombardeios contra locais de lançamento, fábricas de armas e postos militares, não se sabe se cada ataque divulgado online realmente paralisou as capacidades defensivas do inimigo. Sem tropas em campo, a análise é passível de especulação.
Escalada horizontal
Estima-se que as forças de defesa iranianas tenham sofrido um duro golpe em seus arsenais, além da perda de pelo menos uma dúzia de oficiais militares de alta patente. O regime, no entanto, pode ainda manter um estoque de mísseis entre 2.500 e 4.400 unidades — o suficiente para manter a capacidade de disparo. Outra questão completamente diferente é o aspecto cada vez mais importante dos conflitos globais: os drones. A produção iraniana de drones é em larga escala — sendo inclusive capaz de abastecer seu aliado russo. Antes desta guerra, o número dessas aeronaves de ataque disponíveis em seus depósitos era de cerca de 80 mil.
Apesar de tudo, e com os números em mãos, os Estados Unidos, a maior potência militar do mundo, tinham, em teoria, capacidade para manter suas operações na região, incluindo o bloqueio do Estreito de Ormuz, para o qual mobilizaram 15.000 soldados. Mas o Irã desencadeou um pânico psicológico por meio de uma escalada em duas frentes: primeiro, a ameaça de um ataque às águas do Golfo. Como Mike Plunkett, analista da empresa de inteligência Janes, apontou recentemente, encontrar uma mina tinha o mesmo efeito que encontrar várias. O tráfego marítimo ficou paralisado pela possibilidade de colidir com uma dessas bombas — os depósitos iranianos armazenam entre 5.000 e 6.000 desses dispositivos — ou de ser atingido por um drone iraniano.
Em segundo lugar, Teerã contornou as regras da guerra, em grande parte escritas após a Segunda Guerra Mundial, para atacar alvos civis, como instalações de energia, aeroportos e até mesmo usinas de dessalinização. Atingiu seu objetivo e instilou medo entre os aliados árabes dos Estados Unidos na região, que se sentiram vulneráveis.
O resultado dessa estratégia de escalada horizontal em duas frentes é perfeitamente resumido por Feldstein: “O Irã explorou vigorosamente e com sucesso o custo psicológico da guerra. A estratégia foi eficaz; estabeleceu uma narrativa entre o público americano e global de que os Estados Unidos não estavam atingindo seus objetivos e abriu caminho para que o Irã esperasse pelos Estados Unidos e aceitasse um acordo melhor, em vez de ceder nas primeiras semanas e abrir mão de concessões significativas.” E assim foi.
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