O que está por trás dos ataques entre o Irã e Israel e como eles podem afetar as negociações de paz?

Foto: Anadolu Agensi

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10 Junho 2026

O retorno do Irã a confrontos militares em larga escala com Israel exacerbou o conflito que começou em fevereiro, não apenas transformando os ataques israelenses ao Hezbollah em um casus belli direto para o Irã pela primeira vez, mas também arrastando os houthis do Iêmen de volta para o conflito, com consequências ainda imprevisíveis.

A reportagem é de Patrick Wintour, publicada por The Guardian, e reproduzida por El Diario, 08-06-2026.

Alguns em Teerã, animados pelo que consideram sucessos militares passados e encorajados pelo controle do Estreito de Ormuz, gostariam de ver este momento se tornar um ponto de virada no conflito com Israel. Uma minoria acolheria com satisfação o abandono das negociações de cessar-fogo com os EUA, um resultado que vêm defendendo há semanas.

Mas mesmo agora há outras vozes em Teerã que acreditam que o Irã pode, pelo contrário, aproveitar as tensões entre Israel e os EUA para acelerar um acordo com um presidente americano desesperado para sair de uma guerra que está se tornando uma demonstração alarmante da impotência diplomática e militar americana.

A publicação de Donald Trump nas redes sociais, na qual ele instava o Irã e Israel a cessarem os disparos, não transmitia a impressão de um homem no controle da situação. A decisão do Irã de anunciar o fim de suas operações, desde que não houvesse mais ataques israelenses, demonstra que os defensores de uma guerra total são minoria.

Há muitos como Hesamodin Ashna, assessor do ex-presidente iraniano Hassan Rouhani, que argumentou em um discurso neste fim de semana que a coesão social e a confiança dentro do Irã permanecem frágeis. Essa facção afirma que a devolução dos ativos congelados do Irã e o levantamento gradual das sanções americanas são essenciais para resgatar a economia iraniana de um colapso iminente, argumentando que a situação econômica alimentou os protestos de janeiro.

O Irã, jogando em ambos os lados

Esmail Bagaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, foi forçado a adotar uma postura ambígua em sua coletiva de imprensa semanal em Teerã. Em um dado momento, ele questionou a ideia de que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, teria orquestrado os ataques ao Irã em desafio a Trump, mas logo em seguida sugeriu que Israel poderia estar tentando sabotar as negociações com os EUA por temer que os termos do acordo o enfraquecessem.

Bagaei foi cauteloso ao insistir que o diálogo com os EUA, conduzido indiretamente por meio do Paquistão, estava em andamento e não havia sido suspenso. Ele foi enfático ao afirmar que os EUA estavam envolvidos nos ataques: "Ninguém em nossa região acredita que o regime sionista realizaria uma ação sem a prévia coordenação e cooperação dos Estados Unidos."

"O Departamento de Estado dos EUA afirmou claramente durante os 40 dias de guerra que a razão pela qual este país impôs guerra ao Irã foi o seu apoio ao regime sionista, e agora, apesar das alegações de representantes dos EUA, sabemos que o CENTCOM coopera e coordena com o regime sionista nas áreas de defesa e ataque", disse ele. Em outros momentos, mostrou-se mais cauteloso, afirmando que é possível debater se Israel estava agindo independentemente dos Estados Unidos ou se estava "se aproveitando da onda americana".

Em todo caso, Bagaei alertou todos os grupos aliados do Irã na região contra o desarmamento prematuro, fazendo uma comparação com O Leão Apaixonado, de Jean de La Fontaine — uma fábula sobre um leão que, cego de amor, concordou em cortar as próprias garras, apenas para acabar sendo atacado por seus inimigos.

Poucos duvidam da propensão do Irã em mostrar suas garras e, agora, quase como uma questão de doutrina estratégica, em sempre tentar responder não apenas com ameaças, mas também impondo uma escalada. Hassan Ahmadian, um dos comentaristas iranianos mais frequentes na mídia árabe, afirmou: "A era da paciência estratégica acabou e não há como voltar atrás. O Irã e seus aliados estão determinados a impor e consolidar novas regras de engajamento contra seu adversário. Recuar diante daqueles que praticam genocídio só desencadeará a aniquilação em toda a região. A resistência, por outro lado, é a única resposta civilizada que faz algum sentido contra eles."

A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) declarou estar preparada para atacar instalações de energia nos Estados do Golfo: "Caso os ataques à infraestrutura energética continuem, todas as instalações de petróleo e gás associadas a Israel, aos Estados Unidos e seus aliados, incluindo instalações energéticas regionais, serão alvos das forças armadas iranianas."

As exigências do Irã nas negociações têm permanecido notavelmente consistentes: um cessar-fogo no Líbano que inclui a retirada das forças israelenses e o descongelamento de metade dos ativos iranianos congelados (cerca de US$ 12 bilhões); alguma forma de controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz; e conversas mais detalhadas sobre como Teerã garantirá aos EUA que não busca obter uma arma nuclear, incluindo a diluição de seu estoque de urânio altamente enriquecido. Trump esteve muito perto de aceitar essas condições, mas está tentando encontrar uma maneira de formulá-las de forma que sejam mais aceitáveis para a opinião pública nacional.

Isso ocorre porque, em última análise, a batalha pelos bloqueios no Estreito de Ormuz está se voltando a favor do Irã. O fato de as reservas globais de petróleo estarem diminuindo gradualmente, o que causaria o colapso da economia mundial do Japão ao Brasil, parece mais perigoso do que o Irã ficar sem dinheiro e sem exportações de petróleo. A capacidade do Ocidente democrático de absorver o impacto econômico não se compara à do regime iraniano.

Os houthis entram em ação

A intervenção dos Houthis inclina ainda mais a balança a favor do Irã. O impacto real dependerá de os houthis decidirem expandir o bloqueio anunciado, atualmente limitado à navegação israelense no Mar Vermelho, para um bloqueio mais amplo à navegação hostil.

O Estreito de Bab el-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden, tem servido como uma válvula de escape crucial para os exportadores de petróleo. O fluxo de petróleo da Arábia Saudita aumentou consideravelmente através do seu oleoduto leste-oeste após o fechamento do Estreito de Ormuz, desviando milhões de barris por dia para o Mar Vermelho. Os houthis não declararam que irão bloquear esse fluxo, mas isso pode mudar.

A rota do Mar Vermelho representa 15% do comércio marítimo global, e o Estreito de Ormuz, cerca de 20%. O fechamento simultâneo e completo de ambas as vias navegáveis exerceria uma enorme pressão sobre a rota do Cabo da Boa Esperança, que circunda a África do Sul.

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