19 Junho 2026
O Brasil, segundo maior produtor mundial de etanol e biodiesel, garantiu o apoio do G20 e da COP30 para o aumento do uso global de biocombustíveis, apesar da resistência histórica da comunidade internacional tanto aos alimentos quanto aos biocombustíveis produzidos na América Latina devido à sua potencial ligação com o desmatamento.
A reportagem é de Bernardo Gutiérrez, publicada por El Diario, 18-06-2026.
“O Brasil pode se tornar uma espécie de Arábia Saudita dos biocombustíveis.” O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez essa declaração em 20 de abril, durante sua visita à Feira Industrial de Hannover, onde o Brasil era o país convidado. Utilizando uma garrafa de Be8 BeVant, um biodiesel produzido no Brasil, Lula realizou um teste em um caminhão alemão da Daimler para demonstrar que o biocombustível brasileiro emite menos gases de efeito estufa do que qualquer outro.
Após o teste bem-sucedido, Lula argumentou que a legislação brasileira proíbe a produção de biocombustíveis a partir de plantações na Amazônia, referindo-se a biocombustíveis feitos de cana-de-açúcar, soja ou milho, entre outras matérias-primas. “Não há evidências de que o Brasil deixará de produzir alimentos para produzir biocombustíveis. O Brasil possui 40 milhões de hectares de terras degradadas que podem ser recuperadas”, afirmou Lula. Durante a mesma visita, o presidente brasileiro declarou que “a recente crise energética mostra que a Europa precisa superar sua resistência ideológica aos biocombustíveis”.
O discurso de Lula não visava apenas a Alemanha, mas também a Comissão Europeia, que está considerando retirar o status de recurso renovável do biodiesel de soja, uma medida que impediria seu uso para atingir as metas de redução de emissões de carbono. Além disso, Lula pretendia contornar a resistência histórica da União Europeia (UE) tanto aos alimentos quanto aos biocombustíveis produzidos na América Latina, devido à sua potencial ligação com o desmatamento.
Alexandre Silveira, Ministro de Minas e Energia do Brasil, em declaração escrita ao elDiario.es, destacou o significativo progresso do país no controle ambiental. “Grande parte da expansão da produção está ocorrendo em áreas agrícolas já estabelecidas, frequentemente associada à recuperação de pastagens degradadas e ao aumento da eficiência produtiva. O país também ampliou o uso de matérias-primas alternativas e resíduos, reduzindo ainda mais a pressão sobre novas áreas”, afirmou o ministro. Silveira enfatizou o progresso dos mecanismos de controle ambiental do Brasil: “A expansão da produção de cana-de-açúcar para etanol está ocorrendo principalmente em áreas que já foram utilizadas para alguma atividade humana e estão distantes da Amazônia”, afirmou o ministro, aludindo a um Decreto Presidencial de 2009 que Bolsonaro revogou em 2019 (e que agora está novamente em vigor).
Felipe Barcelos, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), concorda com o ministro sobre o sucesso dos controles ambientais. No entanto, acredita que ainda há trabalho a ser feito para rastrear a origem de todo o material agrícola utilizado na produção de biocombustíveis. “Algumas plantações de soja estão associadas a áreas recentemente desmatadas. Precisamos garantir que todas as plantações tenham sido estabelecidas em áreas sem impacto socioambiental significativo”, disse Barcelos a este jornal.
O fantasma ambiental
Barcelos acredita ser razoável que a principal preocupação da comunidade internacional em relação aos biocombustíveis esteja ligada ao uso da terra, "já que os biocombustíveis exigem áreas significativas para a produção de insumos agrícolas". Em sua opinião, considerando que os biocombustíveis estão ligados à produção de alimentos, todo o ciclo produtivo deve ser analisado. "Além do desmatamento, existem outros impactos ambientais significativos dos biocombustíveis que precisam ser considerados, como o uso de água e fertilizantes. Os pesticidas também podem poluir rios", afirma Barcelos.
O relatório "Projeto de Lei dos Biocombustíveis", divulgado pela organização Repórter Brasil em outubro de 2025, denuncia que a cadeia produtiva do etanol, biodiesel e SAF (óleo combustível de soja) esconde "casos de desmatamento, conflitos e trabalho escravo por trás da promessa de energia limpa". Durante o governo Jair Bolsonaro, o desmatamento da Amazônia ligado às plantações de soja disparou. O governo Lula está fortalecendo instrumentos como a Moratória da Soja, o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e outros sistemas de monitoramento ambiental.
O Ministério de Minas e Energia, em comunicado ao elDiario.es, afirma que essas medidas contribuíram para "reduzir significativamente o desmatamento ligado a essa cadeia produtiva". O desmatamento caiu 20,6% no total em 2025. Felipe Barcelos atribui parte desse sucesso a iniciativas da sociedade civil como o Mapbiomas, que monitora a expansão da agricultura e da pecuária em todos os biomas.
Apesar das críticas, Barcelos afirma que o Brasil tem “capacidade para dobrar sua produção de biocombustíveis de forma sustentável”. As conclusões do relatório Biocombustíveis no Brasil: Alinhando a Transição Energética e o Uso da Terra para um País Carbono-Negativo, publicado em 2025 pelo IEMA, são inequívocas: “O Brasil pode expandir a produção de biocombustíveis e, ao mesmo tempo, eliminar o desmatamento em áreas de vegetação nativa para convertê-las em plantações de matéria-prima”.
Brasil, um laboratório global
Em 2025, o Brasil produziu 37,5 bilhões de litros de etanol, obtido a partir da fermentação de açúcares vegetais (principalmente cana-de-açúcar e milho) e utilizado em veículos leves. Apenas os Estados Unidos superaram o Brasil, com 62,4 bilhões de litros. No biodiesel — produzido a partir de óleos vegetais ou gordura animal — o país sul-americano lidera o ranking. Em 2025, o Brasil produziu aproximadamente 9,8 bilhões de litros, em comparação com 4,347 bilhões de litros dos Estados Unidos. Apesar de ser o segundo maior produtor mundial, o Brasil é considerado há décadas a Arábia Saudita dos biocombustíveis.
O gigante sul-americano não só possui potencial agrícola, como também uma sofisticada infraestrutura tecnológica e legislação voltada para os biocombustíveis. O programa nacional Pro-Álcool para a produção de etanol foi lançado em 1975, e a primeira patente mundial de biodiesel foi registrada pelo brasileiro Benedito Parente em 1983. Nenhum país se compara ao Brasil na diversidade de matérias-primas para a produção de biodiesel. O Brasil utiliza óleos vegetais de soja, palma, milho, algodão, girassol, mostarda, mamona e pinhão-manso, entre outras fontes. Utiliza também sebo bovino, suíno e ovino, além de óleo de cozinha usado e resíduos da indústria alimentícia.
O ministro Alexandre Silveira, por sua vez, destaca a liderança do Brasil em "tecnologias e práticas de ponta, como a produção de combustível de aviação sustentável (SAF), diesel verde (HVO) e biometano". Roberto Furian Ardengy, presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo e Gás (IBP), garante ao El Diario que, diferentemente de outros países, os biocombustíveis estão totalmente integrados à economia brasileira: "Temos uma refinaria exclusiva e agora todas as refinarias da Petrobras começarão a refinar entre 3 e 5% de óleos vegetais para biocombustíveis."
O Brasil exige por lei a mistura de gasolina com etanol e diesel com biodiesel. Desde 2025, toda a gasolina no país contém 25% de etanol e todo o diesel, 14% de biodiesel. A Lei dos Combustíveis do Futuro aumenta esses percentuais para 35% na gasolina e 25% no diesel até 2030. Além disso, 76,2% dos carros no Brasil são equipados com tecnologia flex, permitindo que funcionem com gasolina misturada com etanol ou apenas com etanol. Em 2023, Lula comemorou o vigésimo aniversário do lançamento no Brasil do primeiro carro totalmente flex do mundo, um importante marco tecnológico na história do país.
Há alguns meses, a revista The Economist descreveu a densa rede nacional de consumo de biocombustíveis como a arma secreta de Lula contra a crise energética global.
Exportar é uma prioridade nacional
Apesar da robusta produção de biocombustíveis, o Brasil ainda não é um grande exportador. Os Estados Unidos exportaram 8,25 bilhões de litros de etanol em 2025 (equivalente a US$ 4,8 bilhões), em comparação com os 1,61 bilhão de litros exportados pelo Brasil. O Brasil vende seu excedente de produção principalmente para os Estados Unidos, Coreia do Sul e Holanda. “O Brasil tem potencial para exportar mais para o mundo. Temos um excedente de 50 milhões de hectares disponíveis para plantio. Além disso, nosso clima é favorável. Enquanto os Estados Unidos têm apenas uma safra por ano, no Mato Grosso, por exemplo, conseguimos três safras na mesma terra”, afirma Roberto Furian, referindo-se à rotação de soja e milho no solo brasileiro.
O Ministério de Minas e Energia do Brasil informou a esta publicação que a indústria brasileira de biodiesel tem capacidade para aumentar sua produção em 40%. Isso permitiria a exportação de 4 bilhões de litros de biodiesel para o mercado global.
Para Lula, aumentar as exportações brasileiras de biocombustíveis é uma prioridade. O Brasil, aliás, tem sido o principal lobista internacional em prol dos biocombustíveis há anos.
Seu papel foi fundamental para o lançamento da Aliança Global de Biocombustíveis, que surgiu após a reunião do G20 de 2023 na Índia. Enquanto isso, Brasil e Índia assinaram um acordo de cooperação na área de combustíveis em fevereiro. Para o país asiático, que aumentou a porcentagem de etanol na gasolina para 20%, o Brasil é um modelo a ser seguido. Por sua vez, a Carta de Belém da COP30 incluiu a necessidade de quadruplicar o uso global de biocombustíveis até 2035 para mitigar as emissões de gases de efeito estufa. Será que um aumento tão significativo no uso de biocombustíveis é ambientalmente sustentável?
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