EUA-Irã: o mais recente apocalipse? Artigo de Riccardo Cristiano

Foto: Anadolu Agency

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19 Junho 2026

"Se resistir, a época do preto e branco poderia rachar por motivos eleitorais. Goste-se ou não, o povo MAGA demonstrou ser incompatível com os financiadores mais influentes de Donald Trump, ligados a ambientes intransigentes, mais próximos à ideia de Netanyahu do que à sua. O presidente está preso entre os dois polos, deve se equilibrar. Mas em seu quintal, o Deus das guerras no posto de gasolina demonstrou custar caro demais."

O artigo é de Riccardo Cristiano, jornalista italiano, publicado por SettimanaNews18-06-2026. 

Eis o artigo. 

Há uma inscrição na nota de dólar americano: "In God We Trust" (Em Deus confiamos). Poderia ter figurado sem nenhuma dificuldade também na moeda iraniana da era khomeinista. É necessária, porém, uma observação: para muitos na América, o lema "Em Deus confiamos" é uma simples declaração de fé; para outros, é a síntese de uma fusão entre religião e Estado, entre valores religiosos e política internacional, entre teologia e economia. É nesse segundo sentido que poderia ter figurado na moeda iraniana.

A América que escolheu a quarta Guerra do Golfo — a guerra anterior foi a dos bombardeios do Irã em 2025 — falhou em seus objetivos. Não é toda a América que conhecemos; é aquela que, com Lyman Stewart, acredita nos "Fundamentos", seu famosíssimo texto fundador do fundamentalismo evangélico, com o qual uma parte importante do integralismo católico se aliou, contribuindo para a afirmação do governo Trump.

Esta, por sua vez, aliou-se ao sionismo religioso, aquele que vê Israel não como um Estado em dados confins, mas como o Estado definido pelos confins indicados por Deus e como tais não passíveis de partilha. Como diz o título de um esplêndido volume do historiador Tom Segev, One Palestine. Complete. A ideia invertida esteve na base da "resistência islâmica" inspirada por Teerã.

Lendo o fundo teológico e político desse mundo, fica claro que os Estados Unidos são uma nação abençoada por Deus e que seus inimigos são obviamente os comunistas, os modernistas, os hippies, os grupos feministas, os muçulmanos. Essa talvez seja a chave com que o trumpismo tentará vencer diversas eleições europeias. Se quisermos descer ao localismo, podemos enquadrar aqui o ex-general Vannacci, cuja "suja dúzia" (aquela que evocou para definir seus seguidores) parece uma releitura fundamentalista dos doze apóstolos.

Existe um texto decisivo para se orientar no fluxo trumpiano, a ser relido com os olhos de hoje. É o ensaio publicado em 2017 na La Civiltà Cattolica pelo padre Antonio Spadaro e por Marcelo Figueroa, intitulado: "Fundamentalismo evangelicale e integralismo cattolico: un sorprendente ecumenismo". É um texto de surpreendente atualidade; gostaríamos de partir de algumas citações sintéticas: "Para sustentar o nível do conflito, suas exegeses bíblicas se encaminharam cada vez mais para leituras descontextualizadas de textos veterotestamentários"; "não se considera o vínculo existente entre capital e lucros e a venda de armas"; "com frequência a própria guerra é assimilada às heroicas empresas de conquista do Deus dos exércitos"; "os desastres naturais… são sinais que confirmam sua concepção não alegórica das figuras finais do livro do Apocalipse e sua esperança em céus novos e terra nova".

O sabor de um Armagedom iminente, o ajuste de contas entre Bem e Mal, nos leva à visão apocalíptica khomeinista, onde os mártires não morrem, sobem no interstício do imaginário — em árabe malakut (reino) — e lá prestam testemunho diante de Deus, impulsionando assim o mundo rumo ao retorno do imam que naquele interstício vive no ocultamento há séculos, na espera de poder retornar para a vitória final.

Spadaro e Figueroa falam amplamente de Rousas John Rushdoony (falecido em 2001), que muito influenciou Steve Bannon, e pretendia submeter o Estado à Bíblia. Palavras familiares para quem ainda fosse khomeinista em Teerã. Não é possível prosseguir sem citar o pastor Norman Vincent Peale, que gostava de se expressar com frases como "se você repete 'Deus está comigo, quem está contra você?'".

Se tentarmos ler com olhos apocalípticos, o sentido desse pensamento para os deserdados é evidente: escolhendo-o pode-se morrer, mas a vitória está assegurada, está escrito que o Bem triunfará sobre o Mal. Apesar das referências apocalípticas, explícitas nos tempos de George W. Bush, muitos terão considerado que essa guerra levou o exército de Deus a determinar preços da gasolina demasiado altos. É por isso que Trump está empenhado em sua difícil corrida a apresentar sua (parcial) rendição como uma vitória?

Aqui será decisivo ver como se comportará o regime iraniano no teatro libanês. Agirá em chave nacionalista ou naquela chave apocalíptica pela qual o tempo é feito de choques que é preciso agravar para aproximar o choque final, o Armagedom? Uma reação militar direta de Teerã contra Israel, que com seus bombardeios pretenderia derrubar todo o acordo, iria na direção do antigo arcabouço apocalíptico.

Mas o autorizado site al-Monitor nos diz nestas horas qual seria a alternativa que vai emergindo após ter afastado (por ora) uma resposta militar: "Os funcionários iranianos e seus aliados libaneses olham para a fase política que se seguiria a um acordo. Diversas fontes diplomáticas bem informadas sobre as discussões regionais afirmam que no período pós-bélico é provável que se reabram os debates sobre governança, representação, acordos de segurança e distribuição mais ampla do poder no Líbano. Teerã considera o futuro do Hezbollah, a posição da comunidade xiita dentro do sistema político libanês e o equilíbrio entre instituições estatais e atores não estatais como parte da mesma equação estratégica".

Se o mecanismo resistir ao não de Israel, estaremos na passagem da lógica do conflito existencial à do dissenso de poder? É um discurso que colocaria de lado o terreno apocalíptico? Aos neocruzados faltaria o contrapeso jihadista.

Quem ilustra bem a ideia de quem crê que isso seja um Memorando de Mal-Entendidos é Karim Sadjapour, nome de ponta do Carnegie Endowment: para ele, os 300 bilhões de dólares em investimentos que os Estados Unidos promoveriam com o setor privado no Irã criariam para Washington um regime não mais revolucionário, enquanto para Teerã criariam as condições para se recuperar e depois retornar à revolução.

Outros, porém, veem um Irã mais militarista, mais nas mãos dos pasdaran do que dos mullah. Uma junta com a qual o nacionalismo se tornará mais importante do que o Apocalipse? É isso o que significaria a inclinação para o dissenso de poder em vez do confronto existencial?

Não falamos de sujeitos "simples": uma escolha desse tipo poderia entrar na dissimulação, necessária em certas fases do conflito entre Bem e Mal. O ponto a enfrentar é por que precisamente Trump oferece ao Irã a via da normalização, ele que guia o cartel do Bem em luta com o Mal, que ameaçou cancelar para sempre uma civilização. Sua narrativa não funciona mais? Quereria sair dela? E a pergunta que se segue é se pode permanecer apocalíptico, mesmo querendo talvez, um regime que aceita o retorno do capital "imperialista" no sistema, em seu espaço, em sua economia.

A perfeição do mecanismo dos opostos análogos nos torturou por anos. Foi essa a intuição contida em outro ensaio fundamental para entender o presente, a introdução do professor Massimo Borghesi ao seu volume Il dissidio cattolico. Nele afirma: "O 11 de setembro é o evento que marca uma divisória entre o antes e o depois, representa a crise da era da globalização que se afirma após a queda do comunismo, inaugura o mundo maniqueísta no qual o Ocidente combate contra o eixo do mal e abre a era da teopolítica fundada no contraste entre amigo e inimigo. O renascimento do religioso, a dessecularização que caracteriza o novo milênio vem inscrita em uma concepção militante e guerreira da fé que encontra seus adversários no relativismo ético pós-moderno e no integralismo fanático do islamismo radical".

O cristão, como observa Lucio Brunelli, torna-se cristianista, ou seja, faz um "uso do cristianismo como estandarte ideológico". O cristianismo é um dos possíveis desdobramentos do 11 de setembro, como previu Massimo Borghesi, antecipando muito desta administração Trump.

Bin Laden personificou essa contraposição apocalíptica em seu duelo com George W. Bush, contando com uma reação visceral árabe a décadas de humilhações e opressões. Seu discurso foi compreendido com perfeição por René Girard: substituir ao império global americano o islâmico, o império dos vencidos que se vingam. Girard notou que em um discurso sobre os crimes americanos (muitos dos quais verdadeiros) contra os muçulmanos, Bin Laden inseriu também a bomba de Hiroshima, onde não havia um único muçulmano. O império era verdadeiramente global, contra o mal global. A ideia inaudita do 11 de setembro foi a de "golpear o império americano" com seus próprios aviões, dando assim a demonstração de ser seu oposto análogo. Por isso Girard o definiu como uma confirmação de sua teoria do mimetismo, que encontra na oposição entre cristianismo apocalíptico americano e islamismo apocalíptico khomeinista outra de suas demonstrações.

Saberemos agora (exatamente?) o que há no Memorando de Entendimento aguardando assinatura, também porque ainda estão definindo-o. Sabemos bem que sua assinatura, que deveria ter lugar na Suíça na próxima sexta-feira, 19 de junho, não abrirá a era da paz — talvez de uma trégua —, mas poderia ser um armistício mais duradouro.

Se resistir, a época do preto e branco poderia rachar por motivos eleitorais. Goste-se ou não, o povo MAGA demonstrou ser incompatível com os financiadores mais influentes de Donald Trump, ligados a ambientes intransigentes, mais próximos à ideia de Netanyahu do que à sua. O presidente está preso entre os dois polos, deve se equilibrar. Mas em seu quintal, o Deus das guerras no posto de gasolina demonstrou custar caro demais. Aqui poderiam se abrir céus novos e terra nova para um outro discurso cristão, não cristianista, que poderia resultar convincente não apenas na América, mas também nas praças árabes e iranianas — um discurso que, ao meu ver, parte dos benefícios da paz, dos quais nunca se fala, e que deveria retomar o fio de todas as guerras a desfazer para construir uma verdadeira segurança que não se baseie na insegurança alheia.

Aqui é difícil não ver um grande papel para a Igreja de Leão XIV e um evidente impasse trumpiano. A estrada apocalíptica foi tentada. É preciso outra, e hoje a expressa Leão.

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