17 Junho 2026
“Minha hipótese é que estamos diante do início de uma reconfiguração política que não se encaixa nas categorias disponíveis (binárias ou polarizadas). Não é de esquerda nem de direita. Não é rural nem urbano. Não é arcaico nem moderno. É um sistema político único que funciona há séculos e que hoje, diante da crise de todos os outros sistemas – partidos políticos, mídia, redes sociais – emerge com uma força que ninguém antecipou, justamente porque ninguém se deu ao trabalho de compreendê-lo”. A reflexão é de Pedro Pachaguaya, em artigo publicado por Viento Sur, 15-06-2026. A tradução é do Cepat.
Pedro Pachaguaya é aimará, antropólogo e doutorando em Ciências Sociais.
Eis o artigo.
1. Um governo que não compreendeu as estruturas
O que vem acontecendo na Bolívia desde 1º de maio de 2026 possui pelo menos duas camadas que devem ser distinguidas antes da análise. Por um lado, existem as estruturas indígenas – comunidades aimarás, quéchuas e amazônicas – que possuem seus próprios sistemas de governança, cosmovisões e lógicas políticas que não derivam do Estado ou de qualquer ideologia importada. Por outro lado, existem as estruturas corporativas e populares – a Central Operária Boliviana, os professores, os caminhoneiros, os mineiros e os trabalhadores do setor informal – organizadas segundo uma lógica sindical com suas próprias reivindicações setoriais. Muitos de seus membros têm ascendência indígena, mas sua estrutura organizacional reflete tradições diferentes. O que o governo de Rodrigo Paz não conseguiu compreender foi nenhuma dessas estruturas.
Diante das estruturas indígenas originais, o governo operou a partir de uma perspectiva etnocêntrica que Lévi-Strauss identificou décadas atrás como o erro fundamental do Ocidente em suas relações com o outro: enxergar uma lógica diferente através de suas próprias categorias e não ver nada, porque essas categorias carecem das ferramentas para reconhecer o que existe fora delas. O pensamento indígena não é inferior nem primitivo – é uma lógica complexa e coerente que organiza o território, a autoridade e a vida coletiva de acordo com suas próprias categorias. Ignorar essa lição não é apenas um erro acadêmico. Na Bolívia de 2026, é um erro político com consequências muito concretas.
Diante de estruturas corporativas e populares, o governo tentou negociar demanda por demanda – cedendo aqui, reprimindo ali, ignorando em outro lugar. Essa estratégia de fragmentação teria funcionado se as estruturas tivessem permanecido separadas. Mas aconteceu o contrário. O antropólogo Evans-Pritchard, em seu estudo sobre os Nuer, descreveu um princípio que opera em muitas sociedades segmentadas: a fusão. Estruturas que normalmente funcionam de forma autônoma – cada uma com sua própria agenda, seus próprios interesses, suas próprias autoridades – tendem a se fundir quando confrontadas com um inimigo comum. E quanto mais desajeitado e intransigente for esse inimigo, mais rápida e intensa será a fusão. O governo de Paz, ao se recusar a ouvir, ao insultar, ao reprimir sem diálogo, não desfez a mobilização – pelo contrário, a unificou. Transformou cinquenta demandas díspares em uma única: sua renúncia. Ele mesmo produziu a fusão que agora o encurralou.
2. O repertório que ninguém esperava
O que aconteceu na Bolívia a partir de 1º de maio de 2026 não foi um protesto. Foi a ativação simultânea de um repertório completo de ação coletiva com raízes históricas profundas e uma lógica territorial precisa. Cada estratégia corresponde a um ator, território e tradição de luta específicos.
Os povos indígenas das terras baixas da Amazônia mobilizaram a marcha – sua estratégia histórica por excelência. Centenas de indígenas começaram a marchar em 8 de abril, de Pando a La Paz, exigindo a revogação da Lei 1720, que ameaçava seus territórios ao permitir a reclassificação de terras comunitárias. A marcha não é apenas um deslocamento físico – é uma declaração política que coloca seus corpos na estrada e força o Estado a confrontar o que preferiria ignorar.
Os povos das terras altas – os aimarás e quéchuas do Altiplano – mobilizaram bloqueios de estradas, sua estratégia própria. Com mais de cinquenta bloqueios simultâneos, a Federação Camponesa Túpac Katari e os Ponchos Vermelhos estabeleceram uma rede de pressão que paralisou as rodovias estratégicas que ligam La Paz ao resto do país e às fronteiras com o Chile e o Peru. O bloqueio não é vandalismo – é uma tecnologia política ancestral que transforma o controle territorial em poder de negociação.
Além desses bloqueios, foi erguido o cerco de La Paz – a estratégia mais dura e historicamente carregada. Cercar La Paz é um ato político de enorme peso simbólico: evoca o cerco de Tupac Katari em 1781, quando as forças aimarás mantiveram a cidade sitiada por meses. A ativação desse imaginário não é acidental – é uma declaração de que a paciência tem limites históricos e que esses limites foram atingidos.
A essas estratégias territoriais somaram-se as de outros atores: a Central Operária Boliviana com marchas e greve geral, os mineiros com explosões de dinamite no centro de La Paz e as mulheres com protestos com panelas e greves de fome. Cada ator fala a partir da sua própria tradição e dos seus próprios corpos. Juntos, eles formam uma linguagem política que o governo não conseguiu decifrar.
3. A assembleia manda: obrigação coletiva e sistema de autogoverno
Um dos erros mais frequentes na interpretação dessas mobilizações é vê-las simplesmente como um conjunto de indivíduos indignados que espontaneamente vão às ruas. Não é assim que funciona. O que se ativa em cada comunidade indígena, camponesa e de base é um sistema de governança com seus próprios mecanismos de deliberação, tomada de decisão e aplicação. E esse sistema produz documentos.
Antes de qualquer ação pública, as comunidades se reúnem em assembleia ordinária. Nessa assembleia, discute-se, debate-se e vota-se. Os acordos são formalizados em resoluções, diretrizes e comunicados – documentos formais que expressam a vontade coletiva. Não são panfletos – são atos de governança. E seu conteúdo, quando lido atentamente, revela um diagnóstico político de surpreendente precisão, que encanta aqueles que esperavam encontrar slogans vazios.
Uma resolução aprovada pelos conselhos de bairro de Palca, datada de 20 de maio de 2026, ilustra isso claramente. Entre seus doze pontos, constam reivindicações como: atenção imediata às demandas sociais e comunitárias, tributação das grandes fortunas, suspensão do aumento do preço dos bens básicos, prestação de contas dos recursos economizados com a eliminação dos subsídios aos combustíveis, isenção de impostos para pequenos produtores, indenização para veículos danificados por gasolina adulterada, fim das isenções fiscais para empresas e aumento dos investimentos em estradas, saúde, educação e serviços básicos. O documento conclui com uma frase que resume toda a lógica política da mobilização: “A unidade do povo é a força que defenderá nossos direitos”.
Um observador europeu que leu o documento afirmou sem hesitar: se isso fosse apresentado em um parlamento europeu, haveria motivos racionais suficientes para questionar o presidente. Doze pontos concretos, todos verificáveis, todos legítimos. Na Bolívia, a mídia estatal não os leu.
Juntamente com este documento, circulou a convocação do Governo Indígena de Illas e Marcas de Suyu Jacha Karangas, datada de 22 de maio. Este texto revela algo completamente diferente: o sistema político andino em pleno funcionamento. Convoca Mallkus e Mama t'allas, Tata e Mama Awatiris (avós), Expasiris (aqueles que já ocuparam cargos), líderes, wawa callos (jovens e crianças) – todos os cargos nomeados, todas as funções reconhecidas – tanto da seção Aransaya quanto da Urinsaya (o território é dividido em território de cima e território de baixo). A presença é obrigatória: ‘nenhuma licença será concedida’. E o documento se encerra com ‘Jallalla’ – a aclamação ritual que sela a convocação com legitimidade tanto cosmológica quanto política. Ao final, os Apu Mallkus listam seus números de telefone celular. O sistema político aimará no século XXI: autoridade ancestral e WhatsApp, sem contradição.
Uma vez que a assembleia decide, a decisão é obrigatória para todos os membros. A Diretiva 03-2026 das Bartolinas deixa isso claro, sem ambiguidade: “Deve acatar e implementar esta decisão de forma imediata e sistemática, garantindo a participação ativa, disciplinada e consciente das suas bases”. Isso não é repressão – é a lógica de qualquer sistema de governo que precisa que suas decisões sejam eficazes. Entre aqueles que bloqueiam o caminho, há pessoas com visões muito diversas. Há liberais, há conservadores, há pessoas que prefeririam não estar ali. Mas todos são membros de uma estrutura que tomou a decisão, e a participação é obrigatória para todos, inclusive para o líder que está cumprindo um mandato que não escolheu pessoalmente.
4. Três falsas divisões
A mídia e o governo interpretaram essa crise através de três divisões que simplificam demais o que é complexo e obscurecem o que é relevante. Todas as três são falsas.
A primeira é a divisão esquerda/direita. Diz-se que o que está acontecendo na Bolívia é uma rebelião da esquerda contra um governo de direita. Mas, como acabamos de ver, entre aqueles que bloqueiam as estradas estão pessoas com visões políticas muito diversas. A mobilização não é ideológica – é estrutural. Você não participa porque é de esquerda; você participa porque sua organização decidiu assim, e a filiação o obriga. Reduzir isso a um conflito esquerda/direita é projetar sobre a Bolívia uma estrutura política que não corresponde à sua realidade.
A segunda é a divisão rural/urbana. A mídia apresenta o conflito como o campo sitiando a cidade. Mas a convocação da COB para a marcha massiva e barulhenta de panelas vazias em 27 de maio desmente essa imagem simplista: a mesma convocação inclui a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Bartolina Sisa e o Movimento Tupac Catari, as trabalhadoras e as médicas, as trabalhadoras domésticas e as petroleiras, as professores e as estudantes, as donas de casa e as profissionais liberais. Nenhum setor urbano ou rural fica sem ser nomeado. Isso é possível porque as mesmas famílias que bloqueiam estradas nas terras altas têm filhos em universidades em La Paz, barracas no mercado de El Alto, empresas de transporte e profissões técnicas na cidade. São atores urbano-rurais simultâneos. O manifestante não é o camponês atrasado sitiando a cidade moderna – é um cidadão complexo que ativa sua pertença comunitária quando a assembleia decide.
O terceiro ponto é a divisão arcaico/moderno. A ideia de que essas estruturas são relíquias do passado. Mas o que vemos na Bolívia é exatamente o contrário: estruturas que produzem documentos formais específicos, que deliberam democraticamente, que coordenam milhares de pessoas em nove departamentos simultaneamente, que invocam a Constituição Política do Estado Plurinacional para legitimar suas reivindicações. Isso não é arcaísmo – é sofisticação política. O problema não é que essas estruturas sejam primitivas. O problema é que o Estado e a mídia carecem das categorias para interpretá-las.
5. O colonialismo interno da mídia
Há um momento recorrente na cobertura midiática dessa crise que merece atenção especial. Um jornalista chega a uma barricada com seu microfone e encontra um líder aimará. Ele lhe faz perguntas em castelhano. O líder responde em castelhano, com esforço, buscando as palavras certas, traduzindo em tempo real não apenas um idioma, mas toda uma lógica política.
O que o jornalista não vê – e o que a câmera não mostra – é o que aconteceu antes daquele momento: a assembleia que deliberou durante horas, a resolução redigida em aimará, o processo interno de legitimação que deu ao líder o mandato para estar ali. O dirigente não fala por si mesmo – ele executa uma decisão coletiva. Mas essa distinção desaparece no momento em que a entrevista começa em castelhano.
Esse fenômeno tem um nome: colonialismo interno. Não é que a mídia seja maliciosa – é que ela opera a partir de uma perspectiva etnocêntrica que assume o castelhano como a língua da política legítima e o aimará como a língua da cultura folclórica. Quando um líder fala castelhano com dificuldade, a mídia interpreta a falta de tato onde há tradução forçada. Quando uma declaração chega em aimará, a mídia não consegue lê-la. Quando a assembleia deliberava em seu próprio idioma, a mídia não estava presente.
O resultado é que a opinião pública vê indivíduos mobilizados, não estruturas em funcionamento. Vê líderes que falam um castelhano precário, não sistemas de governo que deliberam com sofisticação em seu próprio idioma. É por isso que a frase com a qual as mulheres da COB encerraram seu protesto de 27 de maio não foi um slogan improvisado – foi uma declaração política direcionada precisamente a essa invisibilidade: “Nem invisíveis, nem caladas”.
Três palavras que nomeiam exatamente o que a mídia faz e o que ela rejeita. Elas sabiam que estavam sendo invisibilizadas. E o disseram.
6. O influenciador não basta: dois bloqueios e o retorno das ruas
Na Bolívia de 2026, operam dois tipos de bloqueios. O primeiro é o bloqueio das cidades – uma estratégia histórica aimará que corta o fornecimento de alimentos, combustíveis e medicamentos para pressionar o governo a ceder. O segundo é o bloqueio midiático – a mídia hegemônica que silencia o conflito, privando a sociedade de uma visão completa do que está acontecendo e impondo uma única subjetividade como se fosse a realidade. Ambos são formas de violência. A diferença é que o primeiro é sentido no corpo, enquanto o segundo é imposto sem que você perceba – porque quando você recebe apenas uma versão, você não sabe que é apenas uma.
Nesse duplo vazio – o da mídia que permanece em silêncio e o das redes que se esgotam – um novo fenômeno emerge. A polarização está tão cristalizada que as redes sociais não produzem mais uma nova subjetividade. Todos sabem o que cada lado vai dizer antes mesmo de dizerem. Aqueles que apoiam a mobilização compartilham os mesmos vídeos. Aqueles que a rejeitam compartilham os mesmos argumentos. As redes sociais se tornaram uma câmara de eco onde a subjetividade circula, mas não se transforma. Nesse contexto, continuar consumindo conteúdo nas redes sociais não revela nada que você já não saiba – e as pessoas percebem isso.
O que emerge desse vazio são dois tipos de influenciadores que estão redefinindo a cobertura do conflito. O primeiro tipo são os influenciadores de gabinete – pessoas que, de seus espaços privados, oferecem reflexões e interpretações subjetivas sobre o que está acontecendo. Eles têm um público e fornecem um marco interpretativo, mas falam à distância. Sua leitura confirma o que seus seguidores já pensam – e, nesse sentido, também não são imunes à saturação das redes sociais.
O segundo tipo são os influenciadores de rua – e aqui reside o aspecto mais significativo do fenômeno. Eles transmitem ao vivo de pontos de bloqueio de estradas, marchas e confrontos. Suas câmeras não têm agenda editorial – são direcionadas pelo público em tempo real. “Você pode me mostrar o que está acontecendo naquela esquina?”, perguntam nos comentários, e eles atendem ao pedido. Com milhares de pessoas conectadas simultaneamente, esses influenciadores estão mais próximos da realidade não por serem mais objetivos, mas porque suas câmeras estão fisicamente ali onde o conflito acontece.
No entanto, nenhum dos dois tipos consegue substituir o que somente a própria rua pode proporcionar. Porque, em um conflito dessa intensidade, a única fonte que ainda pode produzir algo genuinamente novo – uma cena inesperada, um testemunho sem filtros, uma dimensão do conflito que nenhuma câmera capturou – é a experiência direta. A mobilização força você a sair. Não necessariamente para protestar, mas para ver. A rua recupera sua função epistêmica: é o único lugar onde você ainda pode encontrar algo que não sabia. Isso inverte a lógica dominante em relação às redes e à mobilização: em um certo ponto de intensidade do conflito, as redes se esgotam, e é a mobilização física que traz as pessoas de volta às ruas – não apenas para protestar, mas para saber.
7. Uma nova esquerda sem esquerda?
Nas últimas duas décadas, a direita latino-americana aprendeu uma lição que a esquerda não conseguiu assimilar. Aprendeu a falar a linguagem do senso comum – promessas concretas, problemas cotidianos, respostas simples. Abandonou o tom doutrinário e adotou o da conversa de bairro. Fez-se entender. E isso, mais do que qualquer argumento ideológico, explica a guinada à direita que tem caracterizado a região nos últimos anos. O governo de Paz é um excelente exemplo dessa lógica: ele chegou ao poder prometendo uma solução para a pobreza por meio de um conceito tão discutível quanto sedutor – “capitalismo para todos” –, traduzido para o aimará como “Kamirismo”. Em uma sociedade que passou anos buscando respostas concretas para os problemas do dia a dia, essa promessa foi bem recebida. Não importava que o conceito fosse contraditório – o que importava era que soasse como uma solução. Essa é precisamente a gramática da nova direita: não convencer com argumentos, mas com promessas que parecem alcançáveis.
A esquerda, por outro lado, ficou presa em sua própria superioridade moral. Convencida de que detém a verdade histórica, parou de ouvir as bases que supostamente representa. A Bolívia é o caso mais dramático: o MAS governou por 20 anos em nome dos povos indígenas e acabou perdendo-os – não por traição ideológica, mas por uma verdadeira desconexão com as estruturas que lhe deram origem.
O que está acontecendo na Bolívia em 2026 é algo diferente de tudo isso. Não é a esquerda tradicional que está se mobilizando. Não há partido para angariar apoio, nenhum líder carismático para liderar o caminho, nenhuma ideologia unificadora. O que existe são estruturas indígenas, camponesas e populares que estão ativando seu próprio sistema de governança, em sua própria linguagem, com seus próprios mecanismos de legitimação. E isso produz uma mobilização com a qual o governo não pode negociar com as ferramentas usuais, porque não tem interlocutores individuais – tem assembleias. Não tem demandas que possam ser negociadas em privado – tem votações públicas e decisivas. Não tem líderes para cooptar – tem comunidades que dão e revogam mandatos.
As Bartolinas expressam isso com precisão histórica em seu manifesto: são “promotoras da libertação dos mais oprimidos, coerentes com a luta milenar”. Não estão inaugurando algo novo – estão dando continuidade a algo muito antigo. E essa continuidade é precisamente o que torna essa mobilização invisível para aqueles que só sabem ler o novo.
O apagão midiático e o esgotamento das redes que descrevemos na seção anterior não são fenômenos à parte dessa reconfiguração – fazem parte dela. Quando a mídia se cala e as redes se esgotam, o que resta é a estrutura. A assembleia que delibera, o voto resolutivo que decide, a rua que informa. E essa estrutura não precisa da mídia para funcionar – ela funciona há séculos sem ela.
Minha hipótese é que estamos diante do início de uma reconfiguração política que não se encaixa nas categorias disponíveis (binárias ou polarizadas). Não é de esquerda nem de direita. Não é rural nem urbano. Não é arcaico nem moderno. É um sistema político único que funciona há séculos e que hoje, diante da crise de todos os outros sistemas – partidos políticos, mídia, redes sociais – emerge com uma força que ninguém antecipou, justamente porque ninguém se deu ao trabalho de compreendê-lo.
O cerco que eles não conseguiram ver não é apenas o cerco de La Paz. É o cerco de uma realidade política que existia antes da chegada da mídia para cobri-la, antes da chegada do governo para ignorá-la e antes da chegada dos analistas para explicá-la. Estava aí. Sempre esteve aí. Bastava saber como olhar.
Alto Hospicio, Chile, maio de 2026.
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