27 Mai 2026
O quadro eleitoral permanece indefinido, mas as pesquisas mais recentes apontam para um cenário semelhante ao de 2022. Ou seja, a polarização no interior do eleitorado cristão continua sendo uma realidade.
O artigo é de José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia, publicado por EcoDebate, 25-05-2026.
Eis o artigo.
Os cristãos representam cerca de 80% do eleitorado brasileiro, com os católicos abarcando aproximadamente 50% e os evangélicos ficando com cerca de 30%. O grupo sem religião representa algo em torno de 12% e as outras religiões com cerca de 8%.
No segundo turno das eleições presidenciais de 2018, contando os votos válidos, a intenção de voto dos católicos se dividiu quase que metade a metade (50%) para os dois candidatos. A intenção de voto dos evangélicos se distribuiu por volta de 70% para Jair Bolsonaro e 30% para Fernando Haddad. Jair Bolsonaro teve ainda a preferência dos votos dos Espíritas. No grupo sem religião e entre os eleitores das igrejas de matriz africana a intenção de voto foi de aproximadamente 70% para Fernando Haddad e 30% para Jair Bolsonaro.
Imediatamente após o pleito, publiquei o artigo “O voto evangélico garantiu a eleição de Jair Bolsonaro”, mostrando que o empate entre o eleitorado católico viabilizou a vitória de Bolsonaro, uma vez que o eleitorado evangélico, mesmo menor ao eleitorado católico, era muito maior do que o eleitorado sem religião somado ao eleitorado das igrejas de matriz africana. Portanto, com o empate entre os católicos, o voto evangélico foi decisivo, em 2018, como mostra a tabela abaixo.
Distribuição do eleitorado por tipo de religião (Fonte: DataFolha | Ecodebate | Reprodução)
No segundo turno das eleições presidenciais de 2022, também considerando os votos válidos, a intenção de voto dos católicos se distribuiu aproximadamente 60% para Lula e 40% para Bolsonaro. A intenção de voto entre os evangélicos se manteve aproximadamente com 70% para Bolsonaro e 30% para Lula. Nas outras religiões houve uma ligeira vantagem de Lula e entre os eleitores que se declaram sem religião a proporção se manteve com cerca de 70% de votos para Lula e 30% para Bolsonaro, conforme mostra a tabela abaixo.
Estimativa de intenção de votos por religião (Fonte: DataFolha | Ecodebate | Reprodução)
Logo após o pleito, publiquei o artigo “O eleitorado sem religião foi o fiel da balança da vitória de Lula”, no qual mostrei que Lula obteve, em 2022, mais votos entre os católicos do que Fernando Haddad em 2018, manteve praticamente a mesma proporção entre os evangélicos e perdeu entre os cristãos por uma diferença de cerca de 4 milhões de votos. Ainda assim, venceu o segundo turno graças à ampla vantagem obtida entre o eleitorado que se declara sem religião, segmento no qual abriu uma diferença de quase 6 milhões de votos. Portanto, o avanço no eleitorado católico e a expressiva vantagem entre os sem religião foram fatores decisivos para a vitória de Lula em 2022.
Para 2026, o quadro eleitoral ainda permanece indefinido, mas as pesquisas mais recentes apontam para um cenário semelhante ao de 2022. A pesquisa Datafolha de abril de 2026 não apresentou dados específicos sobre os eleitores sem religião e de outras crenças, mas indicou que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro continua aproximadamente em torno de 60% versus 40% entre os católicos e de 30% versus 70% entre os evangélicos, considerando os votos válidos. Ou seja, a polarização no interior do eleitorado cristão continua sendo uma realidade. Dessa forma, sob o recorte religioso, o cenário eleitoral de 2026 guarda fortes semelhanças com o de 2022.
Contudo, as notícias mais recentes parecem favorecer Lula. A primeira pesquisa Datafolha realizada integralmente após a divulgação das conversas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro mostrou o impacto negativo do episódio sobre a pré-candidatura do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O levantamento Datafolha de 23 de maio de 2026 indicou melhora na avaliação de Lula tanto entre os católicos quanto entre os evangélicos. Assim, embora o candidato do Partido Liberal (PL) continue liderando as intenções de voto entre os evangélicos, a diferença diminuiu em relação ao candidato do Partido dos Trabalhadores (PT).
O cenário eleitoral nacional, entretanto, ainda não está consolidado e permanece sujeito a mudanças e migrações de voto. Embora o segundo turno ainda esteja relativamente distante, o retrato atual da conjuntura política sugere uma ligeira vantagem para Lula na disputa prevista para 25 de outubro de 2026.
A divisão do perfil religioso no comportamento eleitoral brasileiro, consolidada a partir de 2018 e ainda presente nas articulações para 2026, constitui um dos fenômenos mais complexos e debatidos pela sociologia, pela demografia e pela ciência política contemporânea. A persistência dessa clivagem — com Luiz Inácio Lula da Silva e a esquerda mantendo maior força entre os católicos, enquanto lideranças associadas ao bolsonarismo, como o pré-candidato Flávio Bolsonaro, preservam ampla influência entre os evangélicos — decorre de múltiplos fatores históricos, culturais, sociais e estruturais.
A base do eleitorado evangélico, em sua maioria, possui uma forte identificação com o conservadorismo moral. Temas como a defesa da configuração tradicional de família, o posicionamento rígido contra o aborto, contra a legalização de drogas e contra o que chamam de “ideologia de gênero” encontram ressonância direta nos discursos de candidatos da direita e do bolsonarismo. Para muitos fiéis, o voto é interpretado como uma extensão do dever religioso de proteger esses valores de ameaças externas. Partidos de esquerda historicamente abrigam debates sobre direitos reprodutivos e diversidade, o que gera barreiras e forte resistência por parte desse eleitorado.
Há uma diferença marcante na forma como as duas religiões se organizam politicamente no cotidiano:
Igrejas Evangélicas: Costumam possuir uma estrutura interna altamente integrada, com lideranças muito próximas e ativas na vida comunitária dos fiéis. O púlpito e as mídias sociais das igrejas (e de seus pastores) funcionam como canais eficientes de mobilização de opinião. Quando lideranças de megaigrejas ou redes de pastores sinalizam um alinhamento político, o impacto sobre a base de fiéis tende a ser mais direto e coeso.
Igreja Católica: Apresenta uma governança mais descentralizada no que tange à influência do voto. Embora existam posicionamentos institucionais sobre moralidade, a Igreja Católica brasileira (historicamente influenciada por movimentos como as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs e a Teologia da Libertação nas décadas de 1970 e 1980) adota uma postura institucional mais distante do endosso explícito de candidaturas partidárias, dando maior autonomia para a pluralidade de escolhas políticas de seus fiéis.
A pluralidade neopentecostal e evangélica é amplamente influenciada por visões de mundo ligadas ao empreendedorismo, à autonomia individual e à valorização do esforço pessoal para alcançar a prosperidade (Teologia da Prosperidade). Esse modelo de ascensão socioeconômica sintoniza-se de forma natural com discursos econômicos de corte liberal, de meritocracia e de livre mercado, frequentemente defendidos pela direita. Por outro lado, o eleitorado católico, especialmente nas regiões Norte e Nordeste do país, mantém uma forte memória e apreço por políticas públicas de redistribuição de renda e assistência social promovidas pelo Estado (foco histórico dos governos do PT), aproximando-os do campo progressista.
O crescimento acelerado do número de evangélicos no Brasil ocorre de forma muito intensa nas periferias dos grandes centros urbanos e nas novas fronteiras agrícolas (como as regiões Centro-Oeste e Norte). Essas áreas vêm vivenciando transformações profundas na dinâmica de segurança pública e economia, onde o discurso bolsonarista focado no combate firme à criminalidade e no agronegócio possui forte penetração. Os católicos, embora distribuídos por todo o país, mantêm sua maior concentração relativa no Nordeste, região onde o petismo tem sua base eleitoral mais sólida devido ao impacto histórico das políticas sociais.
Em suma, o Brasil vive uma transição religiosa com aumento da pluralidade entre as diversas igrejas (ver artigo Alves; Cavenaghi, 2025). A segmentação do voto religioso no Brasil vai muito além da fé professada, já que ela reflete visões distintas sobre o papel do Estado na economia, a moralidade pública, a estrutura das famílias e a própria forma como a comunidade local se organiza.
Referências
ALVES, JED. O voto evangélico garantiu a eleição de Jair Bolsonaro, Ecodebate, 31/10/2018. Acesse aqui.
ALVES, JED. O eleitorado sem religião foi o fiel da balança da vitória de Lula, Ecodebate, 31/10/2022. Acesse aqui.
ALVES, JED, CAVENAGHI, S. Transição religiosa e pluralidade no Brasil. Revista Horizonte, Belo Horizonte, v.23, n.02, set./dez. 2025. Acesse aqui.
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