23 Mai 2026
Ele chegou ao primeiro andar do palácio de justiça escoltado por dois carabineiros, a cabeça erguida sob seus cachos castanhos e pingentes em forma de coração no peito, vstindo um paletó de veludo. O estudante da Bocconi, Davide Simone Cavallo, queria estar lá a todo custo, apesar dos ferimentos, apesar das duas bengalas que agora é obrigado a usar como muletas após a agressão por 50 euros sofrida em 12 de outubro em frente a uma discoteca de Milão. Ele queria encontrar seus agressores, a quem já havia "perdoado de todo o coração", como escreveu em uma longa carta na semana passada. "Eu não queria apenas perdoá-los", explicou a seus advogados. "Eu queria me sentir como uma pessoa mesmo na presença deles, e consegui."
A reportagem é de Monica Serra e Andrea Siravo, publicada por La Stampa, 21-05-2026. A traduçao é de Luisa Rabolini.
Seus olhares se cruzaram no tribunal, ele à direita com sua mãe Stefania e seu pai Salvatore ao lado, Alessandro Chiani e Ahmed Atia à esquerda, trancados na cela. Antes mesmo de conhecer o veredicto do juiz Alberto Carboni — que condenou o primeiro a vinte anos e o segundo a dez meses — o jovem de vinte e dois anos pediu para se aproximar deles. Houve longas palavras de desculpas e um abraço que deve ter lhe parecido infinito.
Davide Simone Cavallo. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Chiani depôs no tribunal para pedir perdão e inocentar o amigo: "Sinto muito. Quando li a carta de Davide, senti um vazio por dentro. Atia não teve nada a ver; o que aconteceu é apenas culpa minha." Foi ele quem sacou a faca no vídeo filmado pelas câmaras de vigilância e esfaqueou a vítima, causando uma lesão permanente na coluna, enquanto os outros três membros da gangue - todos com dezessete anos na época e que por isso serão julgados no Tribunal de Menores em julho por esse crime - continuaram a chutá-lo e socá-lo. No final, o juiz o condenou a vinte anos de prisão por tentativa de homicídio e roubo qualificado: oito anos a mais do que a pena solicitada pelo promotor Andrea Zanoncelli, que deixou a vítima sem palavras. Após a sentença, Cavallo chorou no tribunal: "Sinto muito por uma pena tão alta", disse aos seus advogados. "Espero que eles tenham uma sorte melhor."
Atia, por outro lado, recebeu uma sentença de dez meses e foi imediatamente libertado, as acusações foram reclassificadas como omissão de socorro. No vídeo daquela noite, de seis meses atrás, ele estava de vigia, a três metros de distância, e não fez nada para parar o amigo e os outros jovens que conheceu naquela noite. Em uma carta entregue ao rapaz de 22 anos, escreveu: "Você poderia ser meu irmão, meu pai, alguém caro para mim. Peço desculpas e as peço mil vezes, mas sei que isso não vai melhorar nada. Naquele dia eu deveria ter tentado intervir, não deveria ter ficado parado, porque nunca imaginei que veria algo assim de repente. Gostaria de poder lhe ressarcir de alguma forma. Infelizmente, não temos muitos recursos na minha família. Sei bem que a saúde não pode ser ressarcida com todo o dinheiro do mundo."
A acusação de tentativa de homicídio não convence o advogado de Chiani, o professor Guglielmo Gugliotta: "Ele esfaqueia duas vezes, mas se afasta enquanto a briga continua, não vê o sangue no chão, se pergunta: mas isso pode matar?' Ele não sabia que podia matar."
Os advogados da vítima, que carregará as cicatrizes da agressão pelo resto da vida, têm uma opinião diferente: "Ouvir dizer que uma facada foi desferida por brincadeira é algo que nos faz realmente dizer basta. Que existe um limite até mesmo para o direito de defesa. O que aconteceu revirou a vida de Davide e de sua família. Seu irmão mais novo abandonou os estudos na Politécnica para voltar à Sicília e trabalhar com o pai, que é empresário agrícola", explica o advogado Luca Degani, que, juntamente com o colega Giovanni Azzena, representa a família Cavallo. "Sua mãe largou o emprego na Sicília para vir para Milão cuidar do filho. É uma família provada, que enfrenta sérias dificuldades, inclusive financeiras. Já foi definida uma indenização provisória de 650.000 euros, mas quem vai pagar esse dinheiro a eles?"
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