21 Mai 2026
A morte de Robert Skidelsky, em 15 de abril passado, representa uma grande perda intelectual. Ele foi, provavelmente, o mais importante biógrafo de John Maynard Keynes e um dos pensadores que melhor compreendeu não só a sua teoria econômica, mas também a dimensão filosófica, moral e cultural da sua obra.
A entrevista é de Rudy Gnutti, músico, diretor de cinema e escritor, publicada por Sin Permiso, 12-05-2026. A tradução é do Cepat.
Enquanto preparava o meu documentário In the Same Boat, li, entre outros autores, a sua monumental biografia de Keynes. Anos mais tarde, quando comecei a trabalhar no meu livro ¿Sueñan los nietos de Keynes con ovejas mecánicas? (Ss netos de Keynes sonham com ovelhas mecânicas?), pensei em entrevistar Skidelsky. Parecia-me uma possibilidade muito remota.
Por sorte, a economista Mariana Mazzucato colocou-me em contato com ele e, além disso, recomendou-lhe que visse o meu filme. Organizamos uma videochamada entre Roma e Londres. Eu estava nervoso: para qualquer pessoa interessada em Keynes, falar com Skidelsky impunha respeito. No entanto, encontrei uma pessoa extraordinariamente amável, generosa e sensível.
A nossa conversa girou em torno de um dos textos mais fascinantes e proféticos de Keynes: a conferência proferida em Madri em 1930, As possibilidades econômicas de nossos netos. Nela, o economista inglês imaginava um futuro no qual o progresso tecnológico libertaria o ser humano de grande parte do trabalho necessário e abriria uma nova era de abundância, lazer e transformação moral.
Quase um século depois, muitas daquelas perguntas continuam em aberto.
Robert Skidelsky (1939-2025) foi historiador da economia, ensaísta e membro da Câmara dos Lordes britânica. Professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick, alcançou reconhecimento internacional graças à sua monumental biografia em três volumes sobre Keynes, considerada uma obra imprescindível para compreender não só o economista inglês, mas também as transformações intelectuais e políticas do século XX.
Nos seus últimos anos, Skidelsky dedicou grande parte da sua reflexão ao futuro do trabalho, ao impacto da tecnologia, à crise do capitalismo contemporâneo e ao problema da desigualdade. As suas análises recuperavam uma dimensão muitas vezes esquecida do pensamento keynesiano: a pergunta sobre como viver quando o problema econômico deixar de ocupar o centro da existência humana. Esta entrevista, que agora Sin Permiso publica, era inédita até o momento.
Eis a entrevista.
Em As possibilidades econômicas de nossos netos, Keynes levanta uma questão profundamente inquietante: o que acontecerá com o ser humano quando o problema econômico deixar de dominar as nossas vidas?
John Maynard Keynes proferiu esta conferência em Madri em 1930, acompanhado pela sua esposa, Lydia Lopokova, embora o texto tivesse sido escrito dois anos antes para alguns estudantes do Winchester College. Em plena crise posterior ao crash de 1929, Keynes lançou uma pergunta provocadora: como viveriam os nossos netos daqui a cem anos se o progresso tecnológico continuasse a acelerar?
O economista inglês intuía que uma sociedade tecnologicamente avançada poderia libertar-nos progressivamente do trabalho obrigatório e reduzir radicalmente a jornada de trabalho. O desemprego tecnológico não devia ser interpretado apenas como uma tragédia, mas também como o sintoma de uma transição histórica em direção a uma sociedade onde o trabalho deixaria de ocupar o centro da vida humana.
No entanto, Keynes compreendia perfeitamente que essa transformação não seria simples. Durante séculos fomos educados para lutar, produzir, competir e sobreviver; não para conviver com a abundância nem para saber utilizar o tempo livre. Por isso, alertava para um possível “colapso psicológico”: o verdadeiro problema do futuro não seria econômico, mas existencial.
Keynes pertencia ao ambiente intelectual de Bloomsbury, onde filósofos, artistas e escritores imaginavam uma civilização capaz de dedicar mais tempo à arte, ao conhecimento e ao prazer de viver. Mas mesmo eles estavam cientes de que o lazer não garante automaticamente uma vida melhor. Um emprego não fornece apenas rendimentos; também oferece disciplina, ordem e uma sensação de propósito.
Por isso, Keynes via a tecnologia como uma ferramenta potencial de emancipação, quase como uma promessa de libertação humana. Utilizava inclusive uma linguagem próxima da religiosa: reinterpretava a antiga ideia cristã do paraíso como uma possibilidade terrena alcançável graças ao progresso técnico. A humanidade poderia libertar-se, dizia ele, do “suor do seu rosto”.
Mas a questão decisiva continuava em aberto: o que faríamos com esse tempo liberado? Seríamos capazes de viver melhor ou cairíamos no vazio, no tédio e na ansiedade?
Hoje, quando a revolução tecnológica está transformando o próprio significado do trabalho e apagando a fronteira entre produtor e consumidor, torna-se evidente que a mudança será cultural antes de ser material. E talvez essa transformação explique parte da crise de valores e de sentido que as nossas sociedades atravessam.
Em outra passagem extraordinária da sua conferência madrilenha, Keynes afirmava que a humanidade só poderia alcançar o “fim do problema econômico” se conseguisse cumprir quatro condições fundamentais: controlar a demografia, evitar as guerras, confiar no progresso científico e ter a capacidade de acumular riqueza para reinvesti-la. Vista a partir de hoje, a sua reflexão revela-se surpreendentemente atual. A revolução tecnológica continuou, de fato, a avançar a um ritmo exponencial, mas as outras condições parecem ter sido parcialmente não cumpridas ou até mesmo agravadas. As guerras continuam, as tensões geopolíticas aumentam e a desigualdade econômica disparou para níveis inéditos. Por que razão a tecnologia, que deveria aproximar-nos de uma era de abundância partilhada, coincide com um aumento tão acentuado da desigualdade?
Keynes acertou em algo essencial: o mundo seria muito mais rico e tecnologicamente mais avançado. O que ele subestimou foi a distribuição desigual dessa prosperidade e o enorme crescimento demográfico global.
Na década de 1930, ainda parecia possível de imaginar que a abundância pudesse estender-se progressivamente a toda a humanidade. Hoje vivemos num planeta com mais de oito bilhões de pessoas, com enormes desequilíbrios entre regiões desenvolvidas e regiões ainda em desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, a produtividade aumentou exatamente como Keynes antecipava. Ele pensava que esse aumento se deveria traduzir numa redução do tempo de trabalho: trabalhar menos horas, mas manter níveis de vida semelhantes graças à eficiência tecnológica.
No entanto, isso só aconteceu em parte. A riqueza gerada pela tecnologia não foi distribuída de forma equitativa. Uma pequena elite concentrou grande parte dos benefícios econômicos, enquanto amplas camadas sociais viram os seus rendimentos estagnar.
A economia neoclássica defendeu durante décadas a ideia de que o mercado acabaria por corrigir automaticamente essas desigualdades. Mas a realidade demonstra que o poder econômico influencia profundamente a política e as instituições.
Como Mariana Mazzucato explicou muito bem, grande parte das inovações que geraram fortunas privadas gigantescas foi financiada inicialmente com investimento público. A riqueza foi criada coletivamente, mas os seus benefícios foram privatizados.
A grande pergunta continua a ser a mesma: pode o capitalismo gerar prosperidade sem produzir níveis extremos de desigualdade?
Acreditava Keynes que a tecnologia acabaria por provocar uma transformação ética e espiritual da civilização
John Maynard Keynes intuía que o fim da escassez transformaria profundamente a nossa moral e a nossa maneira de entender a vida. Em uma sociedade onde a acumulação de riqueza deixasse de ser a prioridade absoluta, valores como a avareza, a concorrência permanente ou a obsessão pelo lucro perderiam legitimidade social.
Para Keynes, a economia devia ser unicamente um meio e não o objetivo final da existência humana. Talvez por isso insistia em que um economista não podia se limitar à matemática: devia compreender também a filosofia, a psicologia, a política e, sobretudo, a natureza humana.
Ao final de sua conferência em Madri, utilizou uma imagem muito significativa: imaginou uma humanidade capaz de viver “como os lírios do campo”, sem a obsessão constante pelo cálculo econômico e pela sobrevivência material. Pensava que tínhamos sido educados para viver em um mundo de escassez, onde cada decisão devia se orientar rumo ao futuro e à segurança econômica. Mas supunha que, com o tempo, a abundância tecnológica permitiria superar essa lógica.
A questão fundamental era então: que sentido teria a vida quando o trabalho deixasse de ocupar a maior parte do nosso tempo?
Keynes intuía que a economia perderia centralidade e que os seres humanos poderiam dedicar mais energia à arte, ao amor, ao conhecimento e à beleza. Chegou inclusive a afirmar, provocadoramente, que algum dia os economistas seriam tão úteis quanto os dentistas: profissionais necessários apenas em ocasiões concretas.
No entanto, também tinha a consciência de que nem todo mundo se adaptaria facilmente a uma sociedade organizada em torno do lazer e não do trabalho. Nem todos são artistas, filósofos ou cientistas capazes de encontrar espontaneamente sentido no tempo livre.
Mesmo assim, considerava que uma civilização sem pobreza extrema e com mais tempo disponível representaria um enorme progresso histórico. A pergunta segue aberta hoje mais do que nunca: saberemos utilizar a nossa liberdade melhor do que soubemos utilizar a nossa obsessão pela produção?
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