19 Mai 2026
O ensino superior nos Estados Unidos está em crise de maneiras que não se verificam no resto do mundo. Contudo, vale a pena contrastar a visão expressa pelo Papa Leão XIV durante sua visita à Universidade La Sapienza de Roma na semana passada com o relatório recentemente divulgado pela Universidade Yale sobre a crise de confiança no ensino superior.
O artigo é de Michael Sean Winters, autor católico, publicado por National Catholic Reporter, 18-05-2026.
Eis o artigo.
A visão do Papa centra-se nos estudantes e nos desafios que as nossas sociedades e culturas enfrentam. Depois de abordar os aspetos positivos e negativos da inquietação e da sensação de desconforto que os jovens sentem, o Papa afirmou: "Para vocês, jovens, esta inquietação questiona: 'Quem são vocês?' Ser nós mesmos, aliás, é o compromisso fundamental da vida de cada homem e de cada mulher. 'Quem são vocês?' é a pergunta que fazemos uns aos outros; a pergunta que silenciosamente dirigimos a Deus; a pergunta que só nós podemos responder, por nós mesmos, mas que nunca podemos responder sozinhos. Somos os nossos laços, a nossa língua, a nossa cultura: por isso mesmo, é vital que os anos universitários sejam um tempo de grandes encontros."
O Papa observou que o mundo ainda está assolado por tanta violência e desafiou os jovens a construírem um futuro melhor. "O grito 'Nunca mais a guerra!' dos meus predecessores, tão consonante como o repúdio da guerra consagrada na Constituição italiana, impulsiona-nos a uma aliança espiritual com o sentido de justiça que vive nos corações dos jovens, com a sua vocação de não se confinar a ideologias e fronteiras nacionais", disse o Papa à comunidade universitária em 14 de maio.
E o papa pediu especificamente a todas as pessoas que "monitorem o desenvolvimento e a aplicação da inteligência artificial tanto na esfera militar quanto na civil, para que ela não prive os humanos da responsabilidade pelas decisões e agrave a tragédia dos conflitos".
"Hoje, a própria implosão de um paradigma possessivo e consumista abre caminho para a novidade que já está brotando: estudar, cultivar e salvaguardar a justiça!", disse Leão. "Juntos comigo e com tantos irmãos e irmãs, sejamos artífices da verdadeira paz: uma paz desarmante e libertadora, humilde e perseverante, trabalhando pela harmonia entre os povos e pela proteção da Terra."
O discurso do Santo Padre é profundamente humanista e aponta para as maneiras pelas quais o ensino superior pode e deve formar os alunos de maneira integral, para que possam sair pelo mundo com o objetivo de torná-lo mais justo e pacífico. A ideia de uma educação "neutra em relação a valores" é uma contradição em termos.
A perspectiva diferente do relatório de Yale fica clara nas frases iniciais: "As universidades existem para preservar, criar e compartilhar conhecimento. De uma forma ou de outra, Yale tem afirmado essa missão há séculos." Deixando de lado o fato de que a "forma" original dessa missão era formar ministros para servir ao povo de Deus, é interessante notar que não há menção aos estudantes.
Somente três páginas depois é que os estudantes são apresentados à visão do relatório sobre a missão de uma universidade: "As universidades desempenham um papel distinto em uma sociedade democrática moderna. Elas existem não apenas para educar os estudantes e preservar o patrimônio cultural, mas também para expandir as fronteiras do conhecimento." Novamente, o foco é exclusivamente no conhecimento, com uma sugestão de que a democracia e suas demandas têm um caráter normativo.
Uma parte do relatório demonstra as limitações de sua autoanálise. Ao constatar a existência de "pressões à conformidade, intimidação e vergonha social" no ensino superior e na sociedade em geral, o relatório apresenta um relato lamentável de um incidente infame ocorrido em um campus em 2015:
Para aqueles que estavam em Yale ou acompanhavam suas atividades no outono de 2015, "Halloween" funciona como uma abreviação para uma série de eventos que começaram com um e-mail do Comitê de Assuntos Interculturais de Yale, instando os alunos a repensarem fantasias potencialmente ofensivas. Incidentes subsequentes ganharam atenção internacional, notadamente com um vídeo viral que mostrava um grupo de alunos cercando e gritando com um reitor de faculdade. A própria palavra "Halloween" permanece carregada de conotações negativas no campus. Poucos episódios contribuíram tanto para levantar questionamentos públicos sobre o compromisso de Yale com a liberdade de expressão e o debate aberto e racional. Em Yale, como em outros lugares, esses eventos passaram a ser associados à "cultura do cancelamento": a ideia de que uma palavra errada ou um desvio da ortodoxia do campus poderia resultar em punições desproporcionais e sanções sociais.
Os eventos de 2015 foram ainda piores. Um vídeo mostrou estudantes se comportando como sociopatas e saindo impunes. Aqui está o vídeo. Tire suas próprias conclusões. O relatório de Yale não aborda a enormidade desse incidente.
O foco restrito do relatório fica evidente mesmo quando ele faz uma recomendação que, de outra forma, seria excelente, como: "Recomendamos que Yale reafirme seu compromisso com as artes liberais na graduação e trabalhe ativamente para ajudar os alunos a traduzir uma educação em artes liberais em uma vida profissional e cívica bem-sucedida." Três vivas para a centralidade das artes liberais, mas elas também ajudam uma pessoa a alcançar uma vida moral e pessoal "bem-sucedida", não apenas uma vida profissional e cívica, e ensinam que "bem-sucedido" é um adjetivo vazio e que também há dignidade humana na derrota e no sofrimento.
O relatório de Yale não é de todo indesejável. As seções sobre o custo da universidade e os desafios de admissão são bem elaboradas. Reconhecer que "promover o debate aberto e crítico no campus" é um objetivo válido representa um afastamento das cenas lamentáveis de 2015. É positivo que planejem inaugurar programas de educação cívica. Em última análise, o foco excessivo do relatório no conhecimento é uma tentativa de se distanciar das sensibilidades ativistas que desacreditaram o ensino superior. Isso é importante, mesmo que não seja suficiente.
Em 2025, o padre John Jenkins, da Congregação da Santa Cruz e ex-reitor da Universidade de Notre Dame, analisou a falácia da neutralidade institucional no Chronicle of Higher Education, afirmando que "o estreitamento da missão educacional e a neutralidade que tão bem a acompanha destroem as principais aspirações educacionais da universidade". A falta de pedagogia moral nas universidades de pesquisa modernas é uma falha fatal, não um motivo de orgulho. Ele, com razão, fez um apelo aos líderes do ensino superior para que "abracem os valores da instituição a fim de preservar sua voz — mas que a usem com sabedoria".
Para aqueles de nós que frequentaram faculdades ou universidades católicas, articular os valores de uma instituição pode parecer algo corriqueiro, mas uma característica notável do liberalismo do final do século XX foi que seu compromisso com a autonomia humana o tornou alérgico a todos os outros valores. O diálogo entre a tradição intelectual católica e o pensamento conservador gerou algumas ideias e programas interessantes nos últimos 40 ou 50 anos, mas o conservadorismo foi cooptado e desacreditado por sua capitulação política ao trumpismo. O futuro do ensino superior, e talvez da democracia, pode depender da disposição de líderes e intelectuais liberais em dialogar com a tradição intelectual católica, e vice-versa. Tragam Leão a Yale e deixem que ele explique a vocação da educação.
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