Os desafios do pós-trabalhismo e do tecnotrabalhismo: redistribuindo renda e inovando com qualidade. Artigo de Tommaso Nannicini

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04 Mai 2026

"A tradição trabalhista, em seus melhores dias, não se limitava a pedir indenização. Exigia estar presente na sala onde as decisões eram tomadas. Desta vez também, antes de receber o cheque, vale a pena pedir para estar à mesa onde as decisões são tomadas", escreve Tommaso Nannicini, professor titular do Instituto Universitário Europeu (IUE), em artigo publicado por La Stampa, 01-05-2026.

Eis o artigo.

Se a esquerda europeia (e além) se medisse por suas posições sobre inteligência artificial, hoje ela pareceria uma tribo composta por xamãs e engenheiros. De um lado, há aqueles que proclamam o fim do trabalho como libertação. Do outro, há aqueles que o combatem na teoria, enquanto o sofrem na prática. Visões apocalípticas à parte, na verdade o debate se desenvolve em torno de duas posições opostas.

Ambas progressistas, mas diferentes. Para simplificar, poderíamos chamá-las por dois nomes que remetem ao século passado, ao mesmo tempo que o transcendem: pós-trabalhismo versus tecnotrabalhismo.

O pós-trabalhismo parte de uma observação: uma parcela cada vez maior do trabalho humano será substituída por algoritmos e robôs. Mas isso não é necessariamente uma tragédia. Pelo contrário, pode ser uma libertação. Menos trabalho, mais tempo. Menos esforço, mais vida. Com uma condição, porém: que a riqueza produzida pelas máquinas seja redistribuída entre todos. Para isso, precisamos de uma renda universal, incondicional, capaz de garantir autonomia sem exigir trabalho. É uma posição que aceita a substituição do trabalho e o converte em lazer, autonomia ou alguma forma de cidadania social. O tecnolaborismo rejeita essa rendição preventiva. Para as pessoas, o trabalho continua sendo um momento de reconhecimento e construção de significado. O desafio não é se livrar do trabalho, mas transformá-lo, e transformá-lo não é fácil. A inovação deve ser direcionada para que as máquinas aumentem as capacidades humanas, em vez de substituí-las. O que é necessário, neste caso, não é renda, mas participação: mais voz para quem trabalha e mais controle sobre os processos organizacionais.

Quando o debate se liberta das polarizações tribais e se torna sério, alguns dos mais importantes autores contemporâneos confrontam essa divisão. No lado pós-trabalhista, temos desde as reflexões pioneiras de Philippe Van Parijs, a partir da década de 1980, até livros recentes como A sociedade pós-trabalho, de Helen Hester e Will Stronge, ou o trabalho do Centro de Autonomia em Londres. No lado tecnotrabalhista, a pesquisa de economistas como David Autor, Daron Acemoglu e Erik Brynjolfsson mostra como as tecnologias devem ser projetadas e governadas, e não passivamente suportadas.

E aqui, se tentarmos ler essas duas posições pelas lentes do século XX, direita versus esquerda, o curto-circuito é evidente. O pós-trabalhismo é "de esquerda" em suas ferramentas: redistribuição, bem-estar social, renda. Mas rompe com a centralidade do trabalho que tem sido, por um século, o cerne da promessa do movimento trabalhista. O tecnotrabalhismo, surpreendentemente, permanece fiel a essa tradição: o trabalho como uma alavanca de autonomia e cidadania. Mas desloca o conflito para dentro da tecnologia e dos negócios, em vez de para fora. No primeiro caso, a liberdade vem da redução do trabalho. No segundo, da sua transformação.

No primeiro, o objetivo é proteger as pessoas do mercado de trabalho. No segundo, dar-lhes mais poder dentro do mercado de trabalho. Duas ideias diferentes de emancipação, baseadas em análises diferentes dos processos econômicos.

A diferença, vista de perto, não é meramente teórica. O principal interlocutor do conflito político mudou. O pós-trabalhismo se engaja principalmente com o Estado fiscal: exige um imposto e cria uma transferência. É uma política legível, facilmente comunicada em debates públicos. O tecnotrabalhismo se engaja com as empresas e o design da tecnologia: exige comitês de avaliação algorítmica, acordos coletivos sobre o uso de dados, cláusulas sobre treinamento de modelos, participação dos trabalhadores nas decisões de automação. É uma política mais trabalhosa, menos encantadora, e mais difícil de impor. Xamãs redistribuem a jusante. Engenheiros negociam a montante.

Há ainda outro elemento, que talvez pese mais do que se costuma sugerir. Pagar aos humanos para ficarem fora do trabalho é, em última análise, o pedido mais leve que se pode fazer àqueles que lucram com a inteligência artificial. Um pedido que pode ser difícil de obter, porque é necessária uma tributação eficaz das multinacionais, mas claro em seu resultado. Diz respeito a quanto distribuir, não a como produzir. O tecnolaborismo, por outro lado, exige abrir a caixa preta: sentar à mesa onde se decide quais tarefas automatizar, de acordo com quais critérios e como dividir os ganhos de produtividade. Ele desloca o conflito para onde a renda é gerada, não para onde o excedente é distribuído. Uma síntese é possível e provavelmente até necessária. Uma renda mínima para os que têm dificuldades, uma renda de formação para os que estão em movimento, investimentos na qualidade do trabalho e na participação dos que trabalham, demanda pública para orientar uma inteligência artificial que aprimore, em vez de substituir, o trabalho humano. Renda e trabalho, não renda ou trabalho. Mas há um detalhe que vale a pena reconhecer. A tradição trabalhista, em seus melhores dias, não se limitava a pedir indenização. Exigia estar presente na sala onde as decisões eram tomadas. Desta vez também, antes de receber o cheque, vale a pena pedir para estar à mesa onde as decisões são tomadas.

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