30 Abril 2026
É um dos principais obstáculos para o fim dos combustíveis fósseis. O chamado geral ao rearmamento ameaça diretamente a transição ecológica, privando-a de financiamento, recursos científicos, infraestruturas e, acima de tudo, matérias-primas cruciais. Essa é a opinião de Julie Klinger, geógrafa e geopolítica da Universidade de Delaware, uma das principais especialistas em terras raras.
A entrevista é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 28-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Juntamente com os colegas Coryn Wolk, Romain Richaud, Ian Morse e Gwen Murphy, a especialista acaba de apresentar um estudo sobre a "concorrência" entre armamentos e conversão de energia, em preparação para o primeiro Fórum sobre Minerais Críticos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que começa hoje em Istambul. “Até recentemente, dizia-se que não havia recursos suficientes para realizar a transição para as energias renováveis. Agora que são necessários para abastecer os arsenais, ninguém mais levanta o problema”, afirma Julie Klinger, recém-chegada de Santa Marta, Colômbia, onde termina amanhã a primeira Conferência Internacional para o Fim da Era dos Combustíveis Fósseis.
Eis a entrevista.
Mas é realmente possível “sair” do cercado de petróleo, gás e carvão, responsáveis por 75% das emissões globais?
É possível, sim. Do ponto de vista tecnológico e científico, a transição energética é possível. Essa é a boa notícia. A má notícia é que os recursos para sua implementação estão sendo “sugados” pela indústria dos armamentos, o “concorrente” mais agressivo. Isso se demonstra pelo seu sucesso, enquanto a produção de energias renováveis avança a passos de tartaruga. Não se trata de custo. A saída dos hidrocarbonetos requer um investimento de menos de 2,4 trilhões de dólares. Os gastos para encher os arsenais ultrapassaram 2,8 trilhões no ano passado. Além disso, a concorrência não é apenas no nível financeiro...
Elementos como cobalto e tântalo, cobre e lítio, bem como as terras raras, são necessários tanto para a produção de sistemas de armas — drones e tanques — quanto para a transição ecológica. Tecnologias movidas por energias renováveis — por exemplo, as baterias de lítio — são utilizadas em fuzis de assalto, mísseis e um número crescente de veículos militares. Os Estados Unidos, um dos principais exportadores de materiais de segurança, consomem a maior parte desses elementos para sua produção. Além disso, o governo lançou uma nova iniciativa para estocar minerais críticos exclusivamente para fins militares. Nada mais, portanto: nem energia, saúde ou transporte. Por fim, além de matérias-primas e fundos, o rearmamento e as energias renováveis também competem pela capacidade industrial e a pesquisa: os estados desviam os fundos públicos para estudos relacionados com a defesa, em vez da criação de alternativas aos combustíveis fósseis.
O dilema não tem saída?
Na realidade, não. A competição se concentra nas reservas geológicas de minerais críticos, ou seja, o que ainda está no subsolo. Na superfície, porém, esses materiais são abundantes. Infelizmente, no momento estão sendo confundidos erroneamente com material de descarte. Com meu grupo estamos concluindo um mapeamento dos recursos estratégicos que não requerem extração. Descobrimos que os dados globais existentes refletem apenas de 1 a 3% do potencial presente na superfície, pois não incluem as centenas de milhares de aterros sanitários e locais de descarte onde são classificados como resíduos. Tampouco incluem as antigas fábricas, o setor de demolição de navios ou até mesmo solos altamente contaminados onde se encontram em grandes quantidades. Com base em nossa hipótese, já poderíamos ter material suficiente para as energias renováveis. Tudo isso sem a necessidade de explorar novas minas, cuja abertura vai na direção contraria à proteção ambiental.
Por que o caminho para o abandono dos combustíveis fósseis é tão difícil?
Devido à oposição de uma minoria global desproporcionalmente poderosa, e bem inserida nos aparatos governamentais, financeiros, industriais e científicos. Mas a conscientização das pessoas está crescendo.
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