29 Abril 2026
A teóloga de Augsburg, Gabriela Wozniak, defende uma maior atenção ao nível dogmático ao abordar o abuso espiritual dentro da Igreja. Em um ensaio para a revista "Herder Korrespondenz" (edição de maio), ela escreve que surge a questão de "como é possível que os mesmos princípios da fé, fundamentais e formadores de identidade para muitos crentes, sejam simultaneamente usados para criar dependências espirituais quase impossíveis de romper". Somente compreendendo como o sagrado pode ser pervertido, argumenta ela, poderemos redescobrir sua verdadeira natureza.
A informação é publicada por Katholisch, 28-04-2026.
Para Wozniak, o ponto crucial é o exame dos conceitos de representação e autoridade por meio do ofício dentro da Igreja. "A autoridade sacramental permanece teologicamente verdadeira somente se estiver fundamentada na humildade e na pureza", argumenta a teóloga. "Somente sobre esse fundamento se pode falar de uma representação que não represente um empoderamento exagerado, mas que se entenda como uma participação transparentemente direcionada a Deus." Representação sempre implica abnegação, nunca apropriação. "Quem age em nome de Cristo exerce seu ministério autenticamente somente se relativizar a si mesmo nesse processo."
Atualização em vez de representação
A teóloga prossegue, escrevendo que o perigo surge quando agir em nome de Cristo é entendido como um meio de engrandecimento pessoal. "Uma teologia da representação torna-se uma prática de usurpação — com sérias consequências para aqueles que se entregam à liderança espiritual." O abuso espiritual pode então florescer como o lado sombrio da autoafirmação excessiva.
A Igreja reduz o risco de abuso espiritual de poder ao insistir que é um sinal e instrumento de Cristo, relativizando assim sua própria autoridade em princípio. "A tarefa, portanto, não é abolir a autoridade eclesiástica, mas sim libertar essa autoridade de uma aura de inviolabilidade", enfatiza Wozniak.
“Toda forma de liderança espiritual existe na tensão entre a liberdade para a qual o próprio Deus chama e a humilde autotranscendência daquele que lidera”, afirmou a teóloga. A tarefa permanente da Igreja, portanto, é examinar criticamente a sua própria autoridade não apenas legalmente, mas também teologicamente. “Onde a autoridade espiritual reconhece os seus limites, onde se compreende como um serviço à liberdade de consciência e não como um substituto para ela, pode tornar-se esse espaço em que as pessoas encontram Deus sem se perderem.”
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