19 de abril: Dia dos Povos Indígenas reforça diversidade, resistência e a urgência da defesa dos povos originários

Terra Indígena Enawenê Nawê | Foto: Pe. Renan Dantas

18 Abril 2026

"A presença indígena não pertence ao passado — ela está viva. Alimentos como a mandioca, conhecimentos medicinais, práticas agrícolas e expressões culturais seguem presentes no cotidiano brasileiro", afirma Renan Dantas, padre da Diocese de Juína, Mato Grosso. 

Eis o artigo. 

O dia 19 de abril, celebrado em todo o Brasil, marca o Dia dos Povos Indígenas uma data que, mais do que simbólica, carrega um profundo chamado à consciência histórica, social e ambiental. Em um país marcado pela diversidade cultural, reconhecer os povos originários significa respeitar suas identidades, territórios e modos de vida.

A mudança da antiga expressão “Dia do Índio” para “Dia dos Povos Indígenas” foi oficializada pela Lei 14.402/2022, representando um avanço significativo na forma como o Estado brasileiro compreende essas populações. A nova nomenclatura rompe com visões genéricas e estereotipadas, afirmando a pluralidade de povos, culturas e histórias.

O Brasil é um dos países com maior diversidade indígena do mundo. Segundo o IBGE, o país abriga 391 etnias indígenas e cerca de 295 línguas distintas, revelando uma riqueza cultural que atravessa séculos.

Povos como Tikuna, Guarani, Yanomami, Kaingang e Terena expressam universos próprios de organização social, espiritualidade e relação com a natureza. Essa diversidade reafirma que não existe um único “povo indígena”, mas muitos povos.

Crescimento populacional e reafirmação da identidade

A Aldeia Doloikwa / Kotakowinakwa – Terra Indígena Enawenê Nawê (Foto: Renan Dantas)

Os dados do Censo Demográfico 2022 registram 1.694.836 pessoas indígenas no Brasil, quase o dobro em relação a 2010. Esse crescimento reflete não apenas aspectos demográficos, mas também um movimento de reafirmação identitária.

Cada vez mais pessoas têm se reconhecido como indígenas, fortalecendo vínculos culturais e históricos. Além disso, melhorias metodológicas — com apoio da FUNAI e da SESAI — contribuíram para maior precisão na coleta de dados.

Entre aldeias e cidades

Atualmente, 53,97% da população indígena vive em áreas urbanas, enquanto 46,03% residem em áreas rurais. Essa presença crescente nas cidades revela novas dinâmicas sociais e novos desafios.

O acesso a políticas públicas, a preservação cultural fora dos territórios tradicionais e o enfrentamento do preconceito tornam-se questões centrais nesse contexto.

Ao mesmo tempo, as Terras Indígenas permanecem fundamentais, ocupando mais de 13% do território nacional e desempenhando papel essencial na preservação ambiental.

A presença indígena não pertence ao passado — ela está viva. Alimentos como a mandioca, conhecimentos medicinais, práticas agrícolas e expressões culturais seguem presentes no cotidiano brasileiro.

Rituais, cantos, pinturas corporais e formas comunitárias de organização continuam sendo transmitidos entre gerações, reafirmando a vitalidade dessas culturas.

Desafios que persistem

 (Foto: Renan Dantas)

Apesar dos avanços legais e do crescente reconhecimento institucional, os povos indígenas no Brasil ainda enfrentam desafios estruturais profundos e persistentes, que colocam em risco não apenas seus direitos, mas sua própria sobrevivência física e cultural.

A luta pela demarcação de terras segue como uma das principais pautas. A morosidade nos processos, somada à pressão de interesses econômicos como o garimpo ilegal, a exploração madeireira e a expansão do agronegócio intensificam conflitos e expõe comunidades a situações de violência, insegurança e deslocamento forçado. 

Além da questão territorial, os dados revelam desigualdades alarmantes. Mais de 30% da população indígena vive em condições precárias de saneamento básico, um índice muito superior à média nacional. A ausência de infraestrutura adequada impacta diretamente na saúde, contribuindo para a incidência de doenças evitáveis e agravando a vulnerabilidade social.

No campo da educação, embora haja avanços, ainda persistem desafios na garantia de uma educação escolar indígena que respeite as línguas, culturas e modos próprios de aprendizagem. Da mesma forma, o acesso à saúde diferenciada, previsto em lei, enfrenta dificuldades operacionais, especialmente em regiões remotas.

Outro ponto crítico é o racismo estrutural, que se manifesta tanto de forma explícita quanto silenciosa, dificultando o acesso a direitos e reforçando processos históricos de exclusão.

Diante desse cenário, a defesa dos povos indígenas exige não apenas políticas públicas eficazes, mas também um compromisso contínuo da sociedade com a justiça, a dignidade e o reconhecimento desses povos como sujeitos de direitos.

Povos isolados: uma urgência silenciosa

Entre as realidades mais delicadas e urgentes está a dos povos indígenas isolados — grupos que optaram por não manter contato com a sociedade envolvente e que vivem, em sua maioria, em regiões remotas da Amazônia.

O Brasil concentra uma das maiores populações de povos isolados do mundo, o que representa uma responsabilidade ainda maior em termos de proteção e garantia de direitos. Esses grupos dependem integralmente da integridade de seus territórios para sobreviver, mantendo modos de vida profundamente ligados à floresta.

No entanto, a crescente pressão sobre essas áreas tem colocado em risco sua existência. Atividades ilegais como o garimpo, a extração de madeira e a grilagem de terras avançam sobre territórios protegidos, muitas vezes sem fiscalização suficiente.

Além disso, grandes projetos de infraestrutura abrem caminhos que facilitam o contato forçado, rompendo o isolamento desses povos.

Esse contato pode ser devastador. Sem imunidade a doenças comuns, comunidades inteiras podem ser dizimadas rapidamente.

Especialistas alertam que, sem medidas eficazes, parte desses povos pode desaparecer nas próximas décadas. Trata-se de uma perda irreparável para toda a humanidade. 

A voz da Igreja e o legado do †Papa Francisco

Papa Francisco encontra um indígena no Peru (Foto: Vatican Media)

O †Papa Francisco consolidou-se como uma das vozes mais firmes na defesa dos povos indígenas.

Falecido em 21 de abril de 2025, aos 88 anos, na Casa Santa Marta, no Vaticano, deixa um legado que ultrapassa a Igreja, alcançando o debate global sobre justiça e sustentabilidade.

Na encíclica Laudato Si’, destacou o papel dos povos indígenas na proteção da natureza. Já no Sínodo para a Amazônia, reforçou a necessidade de escuta e diálogo.

Francisco denunciou a exploração predatória e a concentração de terras, afirmando que essas práticas ameaçam a dignidade e a sobrevivência das comunidades.

Seu legado permanece como um chamado urgente: proteger os povos indígenas é proteger o futuro do planeta.

A atuação da Igreja Católica na defesa dos povos indígenas se consolidou como uma presença constante, especialmente na Amazônia.

Aldeias Rikbaktsa, na Terra Indígena Cerejeira (Foto: Renan Dantas)

Essa missão se expressa por meio da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), em sintonia com a Preferência Apostólica Amazônica (PAAM), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Comissão Especial para a Amazônia (CEA).

Essas instituições promovem a escuta, acompanham comunidades e denunciam violações, atuando na defesa dos direitos e da dignidade dos povos indígenas.

Mais do que estruturas, trata-se de uma presença pastoral comprometida com a vida, a justiça e o cuidado da Casa Comum

Lideranças históricas e a força da resistência indígena

A resistência indígena atravessa séculos. Sepé Tiaraju e Cunhambebe marcaram a história.

Hoje, lideranças como Raoni Metuktire, Davi Kopenawa e Ailton Krenak seguem defendendo seus povos.

Mulheres indígenas como Sônia Guajajara, Alessandra Korap, Eliane Potiguara e Alice Pataxó têm papel central na resistência. 

São guardiãs da cultura, do território e da vida.

A presença missionária e o testemunho profético

A história da resistência indígena no Brasil não pode ser compreendida sem considerar a presença de missionários, religiosas e agentes pastorais que, ao longo das décadas, escolheram caminhar ao lado dos povos originários — muitas vezes enfrentando ameaças, perseguições e até o martírio.

Entre os nomes mais emblemáticos está Irmão Vicente Cañas, jesuíta conhecido como (Kiwxi) pelo povo Enawenê Nawê. Sua vida foi marcada por uma profunda inserção na cultura indígena, vivendo de forma simples e solidária. Sua morte, em circunstâncias violentas, tornou-se símbolo do compromisso radical com a defesa dos povos e de seus territórios.

Outro nome de grande relevância é Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, reconhecido internacionalmente por sua postura profética diante das injustiças sociais. Sua voz firme denunciou a violência contra indígenas, posseiros e trabalhadores rurais, tornando-se uma das maiores referências na luta por justiça na Amazônia.

Também merece destaque a figura do Thomaz de Aquino Lisboa, padre jesuíta e um dos pioneiros da missão indigenista no Brasil. Atuou na Operação Amazônia Nativa e foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário, contribuindo decisivamente para a consolidação de uma presença eclesial comprometida com os povos originários.

Conhecido como “Jaúka” pelo povo Mÿky, dedicou mais de 50 anos à causa indígena, tornando-se referência na defesa da resistência cultural, da autonomia e da autodeterminação desses povos. Sua atuação marcou uma virada significativa na compreensão da missão da Igreja na Amazônia, baseada no respeito profundo às culturas indígenas e na promoção de seus direitos.

Thomaz de Aquino Lisboa faleceu em 22 de março de 2019, deixando um legado profético e duradouro, que segue inspirando a ação missionária e indigenista da Igreja no Brasil.

A presença feminina também marca profundamente essa história. Irmã Elizabeth Amarante dedicou sua vida ao acompanhamento do povo Myky, sendo sinal de proximidade, cuidado e resistência silenciosa.

Outro nome importante é Padre Balduíno Rambo, cuja atuação esteve diretamente ligada à defesa do território e da dignidade do povo Rikbaktsa, em um contexto de intensas pressões externas.

Essas presenças não foram neutras. Ao contrário, assumiram um posicionamento claro ao lado dos povos indígenas, muitas vezes em confronto com interesses econômicos e estruturas de poder.

Mais do que agentes religiosos, tornaram-se testemunhas vivas de uma Igreja que se faz presença, que escuta, que aprende e que defende.

Seu legado permanece atual e inspira novas gerações de missionários e agentes pastorais a continuarem essa caminhada de compromisso com os mais vulneráveis.

Memória viva de resistência

Falar dos povos indígenas é falar de uma história que não se encerra no passado é reconhecer uma resistência que permanece viva, dinâmica e profundamente atual.

Ao longo dos séculos, os povos originários enfrentaram processos de colonização, expulsão de seus territórios, violência física e cultural, além de tentativas sistemáticas de apagamento de suas identidades. Ainda assim, resistiram.

Hoje, essa resistência se manifesta de múltiplas formas: na preservação das línguas, nos rituais transmitidos entre gerações, na luta política por direitos, na ocupação de espaços institucionais e na presença cada vez mais forte nas cidades.

Lideranças como Raoni Metuktire, Davi Kopenawa, Ailton Krenak e Sônia Guajajara continuam a ecoar essa luta em âmbito nacional e internacional, denunciando violações e propondo novos caminhos de convivência com a natureza.

Ao mesmo tempo, novas vozes emergem, especialmente entre jovens e mulheres indígenas, que utilizam a comunicação, a arte, a política e as redes sociais como ferramentas de resistência e afirmação cultural.

Essa memória viva não é apenas lembrança é ação. É um movimento contínuo de afirmação da vida, da identidade e do direito de existir.

Reconhecer essa resistência é compreender que os povos indígenas não são parte de um passado distante, mas protagonistas do presente e fundamentais para o futuro.

Sua luta é também um chamado à sociedade: repensar modelos de desenvolvimento, rever relações com a natureza e construir caminhos mais justos e sustentáveis.

Porque onde há resistência, há esperança — e onde há povos indígenas, há futuro.

“A defesa do direito a preservar a própria cultura e a identidade passa necessariamente pelo reconhecimento do valor de sua contribuição para a sociedade e para salvaguardar sua existência e a dos recursos naturais de que necessitam para viver.” 

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