RS. ‘Sua praia vai mudar’: Audiência expõe riscos socioambientais de porto em Arroio do Sal

Foto: Celso Bender/ALRS | Sul21

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17 Abril 2026

Para especialistas, porto, fruto de investimento privado, demandará também grandes obras públicas.

A reportagem é de Lucas Azeredo, publicada por Sul21, 16-04-2026.

A importância que vem sendo atribuída ao futuro porto de Arroio do Sal, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, não se refletiu em presenças de autoridades na audiência pública realizada na Assembleia Legislativa nesta quinta-feira (16). Com investimento privado estimado em quase R$ 1,3 bilhão, o projeto vem sendo amplamente criticado por entidades de proteção ambiental, que apontam os perigos da instalação do empreendimento para a comunidade da região.

Na manhã desta quinta, a Comissão de Segurança, Serviços Públicos e Modernização do Estado (CSSP) da Assembleia Legislativa, presidida pelo deputado Leonel Radde (PT), discutiu o projeto. Convocada por Sofia Cavedon (PT), a reunião contou com a participação dos deputados estaduais Halley Lino (PT) e Matheus Gomes (PSOL).

A ideia era contar com a presença dos ministérios do Meio Ambiente e Portos e Aeroportos, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, além da empresa responsável pelo empreendimento, a Porto Meridional Participações, mas nenhum deles mandou representante ao encontro.

Professor de Geografia Polar da UFRGS e membro da Academia Brasileira de Ciências, Jefferson Cardia Simões diz que a construção “traz impactos para moradores e veranistas que não se limitam ao município de Arroio do Sal”. Segundo Simões, o porto trará “riscos ambientais à dinâmica costeira e destruição da dinâmica marinha”, alterando o transporte de sedimentos.

Na região de Arroio do Sal, a migração de sedimentos ocorre no sentido sul-norte, seguindo o fluxo da corrente marinha. Com a construção de uma estrutura que bloqueia esse fluxo, como moles e paredões em mar aberto, a tendência é que se veja erosão ao norte e um acúmulo de areia ao sul do porto, mudando as características das praias próximas. “Ou seja, sua praia vai mudar”, afirma Simões.

Além disso, o professor chama a atenção para outros impactos ambientais, como a poluição da água, do ar e sonora, tanto gerada pelos navios, quanto pelos caminhões de transporte. Ele critica ainda a “escassez de discussão com a sociedade” sobre o assunto.

Para Jefferson Simões, o ponto mais crítico é a necessidade de envolvimento do Governo do Estado “O projeto carece de um estudo detalhado sobre como o tráfego pesado de caminhões será explorado na região. Algumas estimativas indicam que dezenas de milhares de caminhões circularão mensalmente pela Rota do Sol, que precisaria ser necessariamente ampliada, pela BR-101 e pela Estrada do Mar

“É exatamente aqui que a versão de um investimento exclusivamente privado é desmontada”, comenta Simões.

“Seria mais relevante investir na modernização e ampliação de ferrovias e portos gaúchos, muito mais sustentável e já consolidados, em vez de criar uma nova estrutura de alto custo ambiental, político e econômico”, avalia Simões, que afirma que o Porto Meridional representa um “passível ambiental irreversível para o turismo e ecologia da região, em troca de desenvolvimento logístico questionável que poderia ser resolvido com melhorias na infraestrutura já existente”.

O economista e professor do Mestrado em Desenvolvimento Regional das Faculdades Integradas de Taquara, Carlos Paiva, concorda e entende, do ponto de vista econômico, que “existem alternativas de menor custo, que não estão sendo analisadas”. “Eu não consigo entender por que”, comenta. “E são inúmeras as alternativas”.

“O nosso litoral é reto. O impacto do porto vai ficar evidente tanto no plano visual como no plano de um derramamento de óleo ou um problema qualquer em toda a orla”, acrescenta o economista, destacando a “dinâmica peculiar” do litoral gaúcho.

Paiva salienta que uma instalação dessas depende de uma infraestrutura capaz de receber novos moradores, novos trabalhadores e caminhoneiros que ficarão estacionados no município ou nas estradas enquanto aguardam a carga.

Tudo isso depende de gastos com serviços, infraestrutura e novos investimentos para atender o aumento repentino de pessoas em Arroio do Sal, o que necessita de aporte do Piratini ou da Prefeitura.

“O pior de tudo é isso, que eles dizem que vai ser só privado. Como que vai ser só privado?”, diz o economista, acrescentando que o estado “não tem recursos fiscais”.

Paiva classifica essa necessidade de participação do erário como o “engodo do investimento privado”, afastando a ideia de que o prejuízo ambiental seria compensado pela parte financeira.

Na perspectiva da comunidade de Arroio do Sal, Wesley Diogo de Assis, do Movimento Unificado em Defesa do Litoral Norte, destaca o fato de boa parte dos moradores do município com quem ele e o Movimento conversou serem contra a instalação do porto. Algumas comunidades, como a de pescadores, afirma não ter sido sequer procurada para explicar o impacto do projeto na região.

O projeto

O contrato para a execução do Porto Meridional de Arroio do Sal foi assinado em 18 de outubro de 2024 pelo então ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, durante cerimônia na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). A medida autoriza a exploração de instalação portuária na modalidade de Terminal de Uso Privado (TUP), destinados à movimentação de granel sólido, granel líquido e gasoso, carga geral e conteinerizada.

O projeto do porto é uma demanda, principalmente, de empresários da região serrana do RS que precisam embarcar seus produtos nos portos de Rio Grande, no sul do estado, ou de Imbituba, em Santa Catarina. Apesar do contrato assinado, o futuro do projeto ainda está em disputa, especialmente na questão do Estudo de Impacto Ambiental (EIA). O estudo foi escrito e reescrito no último ano.

Recentemente, o Ibama recebeu e aceitou, para avaliação, o EIA-Rima do projeto. Com o aceite, o órgão passará a avaliar os impactos ambientais da proposta, e não apenas aspectos formais. O Ibama havia recusado duas versões anteriores do EIA-Rima por não se adequarem ao formato solicitado. Assim, serão feitas audiências públicas sobre o projeto em Arroio do Sal, porém a Assembleia Legislativa se adiantou no processo.

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