“Devastado por um punhado de tiranos”. Papa Leão XIV em Camarões

Foto: Vatican Media

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17 Abril 2026

Leão falou de Bamenda, epicentro de uma guerra que já matou 6 mil camaroneses. Os ataques do governo Trump contra a Igreja continuam sem cessar.

O artigo é de Christopher Hale, publicado por Letters from Leo, 16-04-2026.

Eis o artigo.

O Papa Leão XIV discursou na Catedral de São José, em Bamenda, Camarões, na quinta-feira, e declarou que “o mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas se mantém unido por uma multidão de irmãos e irmãs que se apoiam mutuamente”.

A catedral está localizada em um terreno doado pelo povo Mankon, no coração de um conflito separatista que matou mais de 6 mil camaroneses e deslocou mais de 600 mil pessoas desde 2017.

A crise começou quando os camaroneses de língua inglesa – marginalizados durante décadas após a fusão com a maioria francófona, apoiada pela ONU em 1961 – lançaram uma rebelião que as organizações humanitárias agora consideram uma das mais negligenciadas do planeta.

Os combatentes separatistas anunciaram um cessar-fogo para a visita do papa, e multidões jubilantes congestionaram as estradas que davam acesso à cidade, tocando buzinas e dançando, transbordando de alegria por um papa ter vindo de tão longe para testemunhar seu sofrimento.

As palavras de Leão naquela catedral repercutiram muito além da África Central.

“Os mestres da guerra fingem não saber que basta um instante para destruir”, disse ele, “mas muitas vezes uma vida inteira não é suficiente para reconstruir”.

Ele condenou os líderes que “roubam os recursos da sua terra” e “geralmente investem grande parte do lucro em armas, perpetuando assim um ciclo interminável de desestabilização e morte” – “um mundo de cabeça para baixo, uma exploração da criação de Deus que deve ser denunciada e rejeitada por toda consciência honesta”.

O Papa apelou a uma “mudança decisiva de rumo”, afastando-se do conflito e da exploração. “Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obterem ganhos militares, económicos e políticos”, disse ele, “arrastando aquilo que é sagrado para as trevas e a imundície”.

Leão dirigiu essas observações aos participantes de uma reunião de paz em Camarões, que incluía um chefe tradicional Mankon, um moderador presbiteriano, um imã e uma freira católica. Ele não mencionou nenhum oficial americano, e seu discurso não fez referência a nenhum governo estrangeiro.

A escolha do momento, porém, fala por si só. Leão chegou à África dias depois de o presidente Trump o ter atacado, chamando-o de "fraco no combate ao crime" e "péssimo para a política externa", afirmando que "se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano".

O confronto ocorreu após a declaração pública de Leão de que a ameaça de Trump de aniquilar a civilização iraniana era "verdadeiramente inaceitável". Leão respondeu que não tinha "nenhum medo da administração Trump" e que continuaria pregando o Evangelho.

Leia o alerta de Leão sobre aqueles que arrastam “aquilo que é sagrado para as trevas e a imundície” e considere o que aconteceu no Pentágono um dia antes de seu discurso em Bamenda. O Secretário de Defesa, Pete Hegseth, participou de um culto de oração e recitou o que apresentou como uma reflexão sobre Ezequiel 25:17.

As palavras foram retiradas quase que literalmente de Pulp Fiction, de Quentin Tarantino – o monólogo de vingança que o assassino de aluguel interpretado por Samuel L. Jackson profere antes de executar um homem. Hegseth leu a escritura ficcionalizada para abençoar as equipes de busca e resgate em missões de combate sobre o Irã.

Semanas antes, ele havia instado os americanos a orarem por uma “violência avassaladora” contra os inimigos, enquanto Leão aproveitou o mesmo dia santo para pedir àqueles que portavam armas que as depusessem.

A Igreja Católica tem uma longa memória de confrontos entre o poder temporal e a autoridade moral. Em 390 d.C., Ambrósio de Milão recusou a comunhão ao imperador Teodósio depois que este ordenou o massacre de 7 mil civis em Tessalônica.

Ambrósio escreveu que nenhum título imperial poderia santificar o assassinato de inocentes e exigiu penitência pública. Teodósio – governante do Império Romano em seu auge territorial – ajoelhou-se.

Esse episódio estabeleceu um princípio que o ensinamento católico tem propagado por dezesseis séculos: o poder político responde a uma lei moral que não escreveu e não pode reescrever.

Leão tem se baseado nessa tradição ao longo desta crise, insistindo que os cristãos não podem ficar do lado daqueles que lançam bombas e chamando o apetite global pela guerra de "ocupação imperialista do mundo".

De uma catedral em uma zona de conflito que o mundo praticamente esqueceu, o primeiro papa americano chamou esta época pelo que ela é: uma era de tiranos.

Ele depositou sua confiança nos irmãos e irmãs que mantêm o mundo unido contra a violência que cai do céu, e advertiu que aqueles que usam o nome de Deus para santificar essa violência responderão por isso.

O resto pertence aos tiranos e ao que resta de suas consciências.

 

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