10 Abril 2026
"Gaudium et Spes não é o documento mais refinado, mas certamente o mais arriscado. E, portanto, em certo sentido, o mais evangélico. Porque aceita estar aberto", escreve Marco Vergottini, teólogo leigo, em artigo publicado por Avvenire, 07-04-2026.
Eis o artigo.
Não há registro de ninguém nas casas de apostas de Londres ter apostado na possibilidade de Gaudium et Spes (GS) ser aprovada. Não teria sido uma aposta prudente. A Constituição Pastoral teve uma história muito conturbada: até o último minuto poderia falhar sua promulgação.
Ato que, no entanto, ocorreu em 7 de dezembro de 1965.
Gaudium et Spes representa o imprevisto do Vaticano II. Ninguém nas comissões preparatórias havia elaborado um esquema sobre a relação entre a Igreja e o mundo moderno. Contudo, ao reler o discurso inaugural de João XXIII, surge a suspeita de que esse era precisamente o ponto secreto do Concílio: superar o abismo plurissecular entre catolicismo e modernidade; sair da postura de fortaleza sitiada; abrir caminhos de diálogo com a cultura e a sociedade contemporâneas. O conflito vinha de longe. Tornou-se dramático com a Revolução Francesa e com a queda de todo um arranjo de cristandade, quando a Igreja pretendia representar a suprema instância da fé pública, da moralidade comum, da legislação e até mesmo dos costumes.
A democracia, as liberdades modernas de pensamento, de imprensa e de religião por muito tempo pareceram uma desgraça. E eis então a surpresa conciliar. Primeiro Esquema XVII, depois Esquema XIII, a GS acabou se tornando o ponto de convergência, um tanto fortuita, de muitos temas "progressistas" durante a elaboração dos outros textos. Não por acaso o teólogo Otto Hermann Pesch a comparou a uma "Arca de Noé": lá dentro havia de tudo. Até mesmo a história por trás do título é singular. No início, havia sido colocada o sombrio par Luctus et angor; depois, prevaleceu a inversão: Gaudium et spes. Não um retoque cosmético, mas uma escolha de tom e estilo eclesial teológico.
Alguns Padres temeram uma rendição à modernidade; outros julgaram o texto ainda demasido tímido. Paulo VI acompanhou o processo de perto, ciente de que um dos testes mais delicados de todo o Concílio estava sendo jogado ali. O número final é revelador: dos 16 textos promulgados no Concílio, Gaudium et spes foi o que recebeu o maior número de votos contrários, um total de 251. No entanto, justamente essa origem conturbada é a sua força. Gaudium et spes não parte de definições abstratas, mas se coloca em escuta. O Concílio não coloca a Igreja diante do mundo, mas dentro da história. Não mais primazia e subordinação, mas proximidade, escuta, serviço.
A Igreja não renuncia a expressar o que acredita ser verdadeiro e correto, nem contestar os desvios do mundo moderno. No entanto, procura compreender antes de julgar, discernir antes de atacar. Um discernimento saudável exige o cultivo da análise crítica e da prudência, superando maximalismos e minimalismos. A GS aceita, com uma lucidez não ingênua, alguns traços decisivos da modernidade: a dignidade da consciência, a democracia política, a legítima autonomia das realidades terrenas, a laicidade do Estado, a dimensão personalista do amor conjugal, a opção pela paz. Não há nada de irênico ou açucarado. O texto adverte contra as degenerações da tecnologia, do poder, do laicismo e da corrida armamentista. Mas o faz de forma propositiva, não como um tribunal sitiado.
É por isso que a GS permanece um dos documentos mais ousados do Vaticano II. Nela, percebe-se a transição de um cristianismo de convenção para um cristianismo de convicção; de uma Igreja que pretende governar a ordem mundial de fora para uma Igreja que se entende como o povo de Deus na história, exposta às questões dos homens de hoje, chamada a ler os "sinais dos tempos".
Gaudium et Spes não é o documento mais refinado, mas certamente o mais arriscado. E, portanto, em certo sentido, o mais evangélico. Porque aceita estar aberto.
No fim, algumas ficam pérolas que continuam a brilhar.
"Não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração" (n. 1). Tonino Bello propôs brilhantemente inverter o binômio: nada de genuinamente cristão deveria permanecer sem eco no coração dos homens e das mulheres de nosso tempo.
"A consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem" (n. 16): uma afirmação capital, que faz par com a Dignitatis Humanae.
"Os crentes podem ter tido parte não pequena na gênese do ateísmo" (n. 19): eis uma das expressões mais corajosas da Gs, que, antes de condenar os erros alheios, solicita um exame de consciência da Igreja.
“Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente” (n. 22): o cerne cristológico da Gaudium et Spes, onde a antropologia não resvala para um humanismo vago, mas se reúne na figura de Cristo.
“Todos os cristãos tenham consciência da sua vocação especial e própria na comunidade política” (n. 75): uma advertência que parece extremamente atual em tempos de afasia civil dos fiéis.
“Todos os que se consagram ao ministério da palavra de Deus utilizem os caminhos e meios próprios do Evangelho” ou ainda: “A Igreja renunciará ao exercício de alguns direitos legitimamente adquiridos, quando verificar que o seu uso põe em causa a sinceridade do seu testemunho” (n. 76). Frases profundas que denunciam o risco de confiar mais nos meios da cidade terrena do que na força pura do Evangelho.
E, por fim, a mais severa, a mais clara, quase a única verdadeira excomunhão do Vaticano II contra a barbárie moderna: “Todo ato de guerra é um crime contra Deus e contra a própria humanidade e deve ser condenado com firmeza e sem hesitação”.
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