Uma crítica da trajetória da USP. Artigo de Rosa Rosa Gomes e Lincoln Secco

Campus da Universidade de São Paulo | Foto: Divulgação/USP

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07 Abril 2026

A USP nasceu do liberalismo elitista dos derrotados em 1932, com a promessa de formar dirigentes pelo mérito; e morre hoje sob o neoliberalismo que a converteu em organização operacional, obcecada por metas, empreendedorismo e gratificações individuais que ignoram o público.

O artigo é de Rosa Rosa GomesLincoln Secco, publicado por A Terra é Redonda, 05-04-2026.

Rosa Rosa Gomes é historiadora e Mestra em História Econômica e em Museologia e servidora da USP. Autora de Rosa Luxemburgo: Crise e Revolução (Ateliê Editorial). 

Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de A revolução dos cravos: economias, espaços e tomadas de consciência (1961-1974) (Ateliê Editorial).

Eis o artigo.

A História da Universidade de São Paulo, para além de sua corrente laudatória e institucional; ou de sua vertente crítico-utópica dos anos de contestação (1960-1988) [1], terá que ser revisitada diante de uma época de ameaça civilizacional em que o colapso econômico, social e ambiental se expressa no neofascismo. Na universidade periférica que temos não cabem mais as ilusões do desenvolvimento e nem a mediocridade da formação para o mercado. Emergiu a ideologia da universidade empreendedora.

A Universidade, como sabemos, foi a resposta intelectual a uma hegemonia perdida pela elite paulista. Seus mentores eram em sua maioria entusiastas da Revolta de 1932. Depois de lutarem por uma constituição, sustentaram a escalada autoritária e a repressão aos trabalhadores até 1937. Quando o Estado Novo os dispensou, ficaram acuados no canto do palco e buscaram nos bastidores a esquerda para defender a democracia. Perdida a contenda com o Governo Provisório de Getúlio Vargas em 1932, as elites das classes dominantes de São Paulo ressignificam sua luta por hegemonia em liderança intelectual e moral da nação.

O seu liberalismo trazia a luta pela regeneração nacional, por uma constituição, pela justiça eleitoral e pela educação pública. O discurso era liberal no sentido da época: federalista, defensor da autonomia estadual, de mudanças dentro do regime constitucional e da participação só para os que se classificassem social e racialmente para tal.

A Universidade de São Paulo produziria as novas elites políticas do país, recrutadas pelo mérito e não por classe social. Uma vez perdidos a força militar que o Estado de São Paulo possuiu na Primeira República e o domínio eleitoral fraudulento, a disputa de hegemonia assumia sua dimensão cultural. O outro elemento da díade consenso – coerção, ou seja, o uso da força armada, dependia dessa direção intelectual e moral de São Paulo, pois só assim as novas elites poderiam conclamar os militares em sua defesa contra o suposto totalitarismo de esquerda.

O que os chefes paulistas de 1932 queriam dizer com uma vitória moral, apesar da derrota militar? A demonstração de força de 1932 satisfez as demandas corporativas das classes conservadoras. E o próprio controle político regional foi restabelecido quando Vargas nomeou Armando de Salles Oliveira interventor em São Paulo.

Se Getúlio Vargas não pode fazê-lo em outubro de 1930, foi porque os tenentes compartilhavam a liderança do processo. Mas em 1933 os tenentes estavam absorvidos segundo sua patente e ocupando postos intermediários na estrutura do Estado, graças a sua participação subordinada na tropa em 1932.

O projeto da Universidade de São Paulo correspondia perfeitamente à reafirmação do ideário liberal, mas é importante lembrar que ele foi implementado no período de colaboração dos paulistas com Getúlio Vargas. Armando de Salles foi exemplar na rotação do discurso político em que o anticomunismo se tornou central.

Aquele processo foi reconstituído por Irene Cardoso [2] e a partir do estudo dela, Franklin Leopoldo e Silva escreveu um ensaio seminal sobre outro momento crucial da USP. Nele, o autor coteja dois liberalismos, o que orientou a fundação da USP e o que assinalou sua desagregação no final do século XX.

No projeto original, diz o autor, não seria o profissional liberal, mas o liberal não profissional que seria formado para dirigir o país. Sendo pública e gratuita, a universidade poderia recrutar e formar elites segundo o mérito e não a classe social: “Já que a democracia é o governo do povo pelas elites ilustradas, e não o governo do povo pelo povo (…) é preciso que São Paulo, isto é, a ilustração paulista, marche mais uma vez para cumprir o seu destino pioneiro”. [3]

Não passou despercebido a Franklin Leopoldo e Silva a colaboração dos liberais paulistas com o “governo autoritário”, mas eles traduziam seu adesismo em aceitação de um autoritarismo funcional para evitar outro pior, o comunismo, e, assim, criar os pressupostos para a redemocratização em tempo oportuno. Na preparação do terreno da futura democracia restrita e racionada a colaboração com o governo central era imprescindível para viabilizar o núcleo irradiador dos valores universais da elite paulista: a universidade. O autor diz que “vistas a partir de hoje, isto é, da indigência e do amoralismo do liberalismo que sofremos na atualidade, certas pérolas daquela retórica possam até afigurar-se como dignas de nossa ambição”. [4]

Franklin Leopoldo e Silva vai mais longe ao mostrar que os liberais talvez não se deram conta das contradições do seu projeto e quando elas emergiram, o “radicalismo crítico tomou um rumo diferente do previsto pelos fundadores”. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) se tornou uma anomalia.

Essa leitura parte do pressuposto que houve desde o início um elemento crítico no primeiro liberalismo que negou sua origem e que a FFCL albergou essa crítica. Mas isso precisa ser verificado, pois quando levamos em conta a influência dos comunismos – o fantasma mor dos liberais – na USP, eles estavam mais nas áreas “especializadas “ da FFCL que depois se separaram, como a matemática e a física.

Compreende-se logo que o autor já sugere naquele momento a existência de um novo liberalismo, o que gerou uma universidade que introjetou mecanismos de controle, avaliação e mensuração de metas e emulou o funcionamento de uma empresa privada: “O poder, quando travestido de racionalidade e competência, assume um caráter absoluto que tende a ser visto como natural”. [5]

Sem de nenhuma maneira questionar a existência dos dois liberalismos, portanto a descontinuidade entre um e outro, cabe lembrar os traços de continuidade, aliás traços dos quais o autor é consciente. Para isso é necessário reconstituir a formação da universidade. É através da História que os mitos de uma universidade desinteressada e nucleada por uma faculdade de filosofia imbuída de preceitos democráticos e liberais (meritocráticos) esfumaçam-se nos primeiros anos da sua formação.

Assim como o primeiro, o segundo liberalismo tem um projeto. Decerto, ele não é nacional. Mas poderíamos partir de uma afirmação de Antonio Gramsci: “O liberismo é um programa político, destinado a modificar, quando triunfa, os dirigentes de um Estado e o programa econômico do próprio Estado, isto é, a modificar a distribuição da renda nacional”. [6]

Antonio Gramsci se referia ao sentido italiano da palavra, a qual dignifica o liberalismo econômico, diferente do político. O liberalismo econômico é o núcleo duro e ditatorial do liberalismo e não é por outra razão que as ditaduras não sacrificam a propriedade privada, mas invariavelmente destroem as organizações trabalhistas.

Ao lado da ampliação do sufrágio no Brasil durante o século XX, medida democrática, o liberalismo trazia sempre em si o seu contrário, a constitucionalização do direito privado [7], a qual consiste em dotar instituições não eleitas de imunidade para interpretar e até criar legislação; a extensão da cidadania eleitoral carregava seu oposto, a condição de “competência” para governar. Já em 1931 a Missão Niemeyer [8] indicou ao governo brasileiro todo o receituário bastante atual: equilíbrio orçamentário, estabilidade cambial, reforma monetária e transformação do Banco do Brasil num banco central independente.

A liderança paulista na Primeira República cristalizou-se num território até 1930, quando se viu ameaçada pela nova centralização política do país. Não era mais factível querer dirigir o Brasil a partir dos Campos Elísios e muito menos tratá-lo como se fosse uma grande fazenda. Os políticos de cabedais cederam o lugar ao Exército, a única instituição que passava a operar em escala nacional. Mas as forças armadas não dispensavam a elite paulista, dotada do poder econômico e meios de difusão ideológica.

Que São Paulo tenha perdido o controle do processo político é decorrência da impossibilidade de retroceder o país ao passado. Seu poder pode ser moderador, mas não dirigente. Não pode liderar pelo voto porque não faz sacrifícios corporativos em favor da maioria. Não pode liderar pela força porque não dispõe das armas. A sociedade civil não pode ser manietada por ideias sem foros de universalidade. E os que dispõem da força não necessitam dessas ideias. Mas poderia aquela hegemonia que jamais chegou a ser completa, ser reconstituída com base na produção intelectual e científica?

Alma Mater da USP?

A Universidade de São Paulo não foi pioneira no país, porém foi a primeira que teve continuidade sem interrupções em sua existência. No início da República o deputado Pedro Américo apresentou projeto de criação de três universidades em São Paulo, Distrito Federal e outra no Pará, Bahia ou Pernambuco. [9]

As diversas experiências universitárias foram sumariadas por Luiz Antônio Cunha, como a de Manaus (1909 a 1926), de São Paulo (1911 a 1915) e do Paraná (1911-1915) [10] e a Universidade do Brasil (1920). Nessa época havia vinte universidades latino-americanas, algumas do século XVI.

A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, criada a 25 de janeiro de 1934 (dia da fundação da cidade de São Paulo) já se apresentou com nítida característica seletiva de seus alunos. Ela tinha por escopo preparar “trabalhadores intelectuais”, “candidatos ao magistério” e “realizar pesquisas”.

As diferentes seções da FFCL ocuparam o prédio da Escola de Comércio Alvares Penteado, hoje pertencente à Faculdade de direito; depois ocupou prédios na Medicina, Poli, Alameda Glete, Escola Caetano de Campos, Brigadeiro Luiz Antônio, Tiradentes, Rua Alfredo Ellis e até na Casa de José Cássio Macedo Soares à Rua da Consolação.

A ideia de uma cidade universitária estava estreitamente enlaçada com o papel da Faculdade de Filosofia, pois além de servir em seu propósito a integração administrativa e pedagógica, estava destinada ao “entrosamento da Faculdade de Filosofia com as outras faculdades”, segundo a Resolução N. 222 de 28/09/1948 assinada pelo Governador Ademar de Barros para criação de uma Comissão da Cidade Universitária.

Desde 1935, havia o projeto de unificar as diversas unidades numa área comum que, a princípio seria no Sumaré, no entorno da Faculdade de Medicina abrangendo 2.600.000 m2; ou nas duas margens do Rio Pinheiros, envolvendo a atual universidade e também o Alto dos Pinheiros em área de 12.000.000 m2.Diante do elevado custo de desapropriação, o Decreto Lei 12401 de 16/12/1941 destinou a Fazenda Butantã. Com a autonomia administrativa concedida em março de 1944 aquela área se ampliou com novas desapropriações e o campus principal da USP totalizou 5.000.000 de m2. [11]

Mas o campus se desenvolveu por largos anos sem a mudança para lá de vários cursos da Faculdade de Filosofia. Segundo se declarava, “criaram-se as faculdades de Filosofia, em atenção aos imperativos da cultura nacional”. Como as escolas pré-existentes se voltavam à formação profissional, mister se fazia forjar uma vocação para as ciências puras; superar o autodidatismo e a indisciplina nos estudos científicos e literários. [12] A FFCL seria a materialização daquele ideal.

O espírito universitário liberal não previa só a liberdade, mas também a vigilância. É antiga a presença de órgãos repressivos na USP. Durante a Segunda Guerra Mundial o fundo universitário de pesquisa financiou atividades para a Marinha em matéria de rádio comunicação [13]. Entre as instituições para-universitárias “cuja existência é estreitamente ligada à universidade” estava o Centro Preparatório de Oficiais da Reserva e a Escola de Polícia foi uma instituição complementar. [14]

A “missão” atribuída à Faculdade de Filosofia não se refletiu nas estruturas de poder. Os Reitores foram em sua maioria das escolas tradicionais. Dos 16 primeiros reitores, seis eram da Faculdade de Direito e cinco da Faculdade de Medicina da capital. Nenhum da FFCL. Outras escolas também foram marginalizadas, mas nenhuma delas tinha sido erigida à condição de núcleo intelectual da universidade como a Filosofia.

Só que “a história é mais canalha”. A ligação com o capital privado também já estava em gérmen na origem de institutos que integrariam a universidade. A Faculdade de Saúde Pública (1945) remonta a 1918, quando surgiu como cátedra de higiene e saúde pública com apoio da Fundação Rockfeller. A mesma fundação construiu em 1931 seu prédio na esquina da Dr. Arnaldo com a rua Teodoro Sampaio.

A Reitoria funcionou na Faculdade de Direito, depois na Rua Helvetia e na Maria Antônia. Em 1961 mudou-se para a Cidade Universitária. A expansão pelo interior se iniciou em 1948 (Ribeirão Preto, São Carlos e Bauru); em 1957 criou-se um campus em Pirassununga.

Na década de 1960, acelerou-se a ocupação da Cidade Universitária com os prédios da Metalúrgica (1967) Engenharia de Minas; Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU, 1969). O Museu Paulista e o Museu Convenção de Itu (1923) foram encampados pela USP em 1963. A estrutura se tornou mais complexa com a elevação da Enfermagem a unidade em 1963, criação do Museu de Arqueologia e Etnologia (1964) e da Escola de Comunicações e Artes em 1966. Na década seguinte, o IAG se tornou unidade (1972), a Educação Física se mudou para a Cidade Universitária (1974, o acelerador de partículas da Física (Pelletron, 1972) foi inaugurado e cresceu sobremaneira o número de alunos.

Em 1965, havia 12.283 alunos; 27.265 em 1974; 30 mil em 1977. O número de docentes era de 4.222 (sendo 1.225 auxiliares) em 1976. A carreira envolvia as condições de professor assistente, assistente doutor, livre docente, adjunto e titular. [15]

A concentração espacial na Cidade Universitária correspondia à atomização intelectual, abrindo a possibilidade para o futuro advento do Espírito neoliberal e para a limitação do protesto estudantil, afastado do centro da cidade.

Virada neoliberal

A USP que adentrou o século XXI não tem mais como centro de seu debate interno a questão de se formar para o conhecimento ou para o mercado, nem se questiona mais as finalidades públicas da Universidade. A própria dinâmica do capitalismo periférico e sua desindustrialização resolveram o dilema. Pode-se dizer com Marilena Chaui que “Enquanto a universidade clássica estava voltada para o conhecimento e a universidade funcional estava voltada diretamente para o mercado de trabalho, a nova universalidade operacional, por ser uma organização, está voltada para si mesma enquanto estrutura de gestão e de arbitragem de contratos”. [16]

Em 2025, a universidade se caracteriza pelo gigantismo, pela estabilidade das dotações orçamentárias e pela ideologia neoliberal. São 58.752 alunos de graduação e 39.149 de pós graduação.

Tendo obtido autonomia universitária e dotação orçamentária em 1989, ainda assim não foram cumpridas as promessas da revolução democrática da década de 1980. A manutenção parcial da estrutura jurídica da ditadura (um exemplo, ainda que modificado, é o Estatuto dos Servidores da Universidade de São Paulo, de 3 de maio de 1966) combinou-se à modernização autoritária. E, por fim, a esta se superpõe a superestrutura neoliberal: combinação da irracionalidade macro sem fins sociais, com a racionalidade micro, perfeitamente adequada à carreira individual.

O tripé “ensino-pesquisa-extensão” foi aprofundado. O ensino deve ser apenas vocacionado ao mercado, seja o profissional propriamente dito, seja o da pesquisa dirigida também ao mercado de bens, serviços ou mesmo de ideias. A extensão deve se tornar estímulo ao empreendedorismo, bastante propícia a uma sociedade que renunciou a manter um parque produtivo capaz de gerar empregos qualificados, bens e serviços e mercado para todos. Há também o estímulo à arrecadação de verbas por meio da prestação de serviços pagos, disfarçados de extensão, e que geram um montante de recursos pouco transparente sobre sua aquisição e aplicação.

Certamente há brechas e resistência. Há docentes que continuam a gostar da sala de aula e a desenvolver uma pesquisa crítica; o movimento estudantil por vezes assume a vanguarda da defesa do caráter público da USP; e há servidores que pensam e se dedicam às atividades da universidade, incluindo a verdadeira extensão, que promove o caráter social do conhecimento acadêmico.

O pano de fundo dessa trajetória recente da USP foi uma crise econômica de grandes proporções, iniciada no final dos anos 1960 com a crise de hegemonia americana, segundo Maria da Conceição Tavares, e intensificada entre 1973 e 1975, culminando com a retomada dessa hegemonia em 1979. [17] Esse movimento teve também seu contraponto na série de revoltas eclodiram no mundo. As de 1968 com estudantes e trabalhadores, a Revolução dos Cravos em Portugal, mas também as libertações nacionais dos anos 1960 e 1970: Congo, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau etc.

O resultado desse embate entre as forças populares e o capitalismo em crise foi o retrocesso neoliberal. A resposta do capitalismo às pressões de trabalhadores pelo mundo para avançar além das políticas keynesianas foi o avanço sobre todos os direitos conquistados, arrocho salarial e destruição ambiental.

A universidade periférica não passou ilesa por isso. Nossas conquistas ocorreram justamente no momento de viragem neoliberal e em meio ao baque para os trabalhadores que foi o fim da União Soviética. Isso pode fazer parecer que estávamos indo na contramão da tendência mundial. Mas a impressão logo se desfaz ao olharmos o desenvolvimento dos anos 1990 até aqui e o aprofundamento das relações da Universidade com objetivos puramente privados. Em um primeiro momento, entre a instituição e as empresas privadas. Na atualidade, entre os pesquisadores enquanto indivíduos e as empresas privadas, buscando objetivos puramente particulares e com visões utilitaristas do conhecimento.

A aprovação de uma gratificação para docentes em março de 2026 exemplifica a lógica destrutiva neoliberal, ultra-individualista. Os docentes que a demandaram usaram como justificativa a reforma da previdência, que retirou a aposentadoria integral da sua categoria. No entanto, eles esquecem que todos sofrem com a reforma da previdência. Nenhum trabalhador brasileiro tem, hoje, perspectiva de se aposentar, com ou sem integralidade.

Além disso, essa política:

(i) Depaupera as reservas financeiras da Universidade que deveriam repor material, garantir permanência estudantil e investir em infraestrutura que, diga-se de passagem, está caindo em nossas cabeças;

(ii) coloca a luta por salário em segundo plano, aceitando a prática que destruiu a condição de trabalho de professoras do ensino básico;

(iii) exprime uma visão de curto prazo e de culto religioso ao deus da responsabilidade fiscal e do teto de gasto orçamentário com pessoal;

(iv) Ignora as atividades e o papel imprescindível dos funcionários.

Observa-se que essa política aprofunda a lógica imediatista e utilitarista que tem governado a Universidade. Podemos, e devemos, ser melhores do que isso. Ter uma perspectiva mais ampla, de fato universal do papel que a instituição pode cumprir em uma sociedade às margens do capitalismo industrializado.

Mesmo estando na periferia, não devemos renunciar à pesquisa, seja em astrofísica, seja em história econômica do Brasil. Apesar dos custos muito diversos, são importantes para a utopia da superação do sentido da colonização (Caio Prado Júnior [18]). Assim como é essencial que todas as áreas estabeleçam um contato genuíno com a sociedade, propondo trocas, diálogo por meio de uma extensão que atenda às necessidades da massa da população, e não de um grupo de amigos/conhecidos do mercado privado.

Aqueles que tramaram nas agências de fomento o encurtamento do período de pesquisa (porque estudar Platão de nada serve) abriram as portas para se questionar se cabe a um país como o Brasil gerar tecnologia própria, quando pode importar; ou se precisa manter tantos cursos de engenharia, já que o país se desindustrializou; ou se precisa de estudos de Física Teórica, já que nunca obteve um prêmio Nobel. Os critérios da universidade brasileira devem ser outros.

Referências

[1] A USP adotou novo estatuto em 1988.

[2] Cardoso, I. A Universidade da Comunhão Paulista. São Paulo: Cortez, 1982.

[3] Silva, Franklin L. “A Universidade entre dois liberalismos”, Tempo Social, USP, São Paulo, no. 11, maio de 1999, p. 5.

[4] Id. ibid., p. 10.

[5] Id. ibid., p.36.

[6] Gramsci, A. Quaderni del Carcere. Torino: Riunitti, 1977 p. 1590.

[7] Dardot, P. e Laval, P. Ce Cauchemar qui n’en finit pas. Paris: La Découverte, 2016, p. 69.

[8] Otto Ernst Niemeyer (1883-1971) foi um banqueiro e funcionário público britânico. A missão que chefiou, e leva seu nome, ocorreu em 1931 e tinha como tarefa indicar ao governo brasileiro reformas financeiras necessárias. Nesse momento, Niemeyer era diretor do Bank for International Settlements.

[9] Moacyr, Primitivo. O Ensino Público e o Congresso Nacional. Rio de Janeiro, scp, 1916, p. 17.

[10] Cunha, Luiz A. A Universidade Temporã. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 177.

[11] Guia da Universidade de São Paulo. São Paulo: Reitoria da USP, MCML, p. 64.

[12] Associação dos Antigos Alunos da FFCL da USP. Em Defesa da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. São Paulo, Seção de Publicações, 1952.

[13] Americano, Jorge. A Universidade de São Paulo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1947, p. 147

[14] Idem, p. 133.

[15] Mendes, José C. Universidade de São Paulo. Súmula da sua História. São Paulo: Aciesp, s/d, pp. 11 e ss.

[16] Chauí, M. A Universidade Operacional, Folha de S. Paulo, 09 de maio de 1999.

[17] Tavares, Maria da Conceição. “A retomada da hegemonia norte-americana”, em Revista de Economia Política, v. 5, n. 2, abr-jun 1985, p. 1515-167. Disponível aqui.

[18] Um dos idealizadores da FAPESP como agência de fomento da pesquisa em São Paulo. Vide: Secco, L. “A industrialização Colonial”. Motoyama, S.; Hamburger, A. I.; Nagamini, M. (Org.) Para uma história da FAPESP; marcos documentais. São Paulo: FAPESP, 1999. Disponível aqui.

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