31 Março 2026
“O conflito não é apenas um fracasso geopolítico, mas também uma crise espiritual: uma ruptura de relações sagradas e da responsabilidade mútua. Nesta crise, corremos o risco de assumir o papel de Caim nas Sagradas Escrituras, caracterizado pela ingratidão, inveja e assassinato”, diz a mensagem pastoral da Comissão de Saúde e Cura do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).
A informação é de Edelberto Behs.
Em 2024, estima-se que 160 mil pessoas foram mortas em atos de violência organizada, enquanto mais de 123 milhões foram deslocadas à força, o maior número já registrado. Acrescente-se a isso milhões de outras pessoas que convivem com ferimentos, luto e traumas. Os números por si só, diz a mensagem, não conseguem transmitir a verdadeira dimensão do que está acontecendo.
A pastoral aponta para outra crise “mais silenciosa”, que se alastra paralelamente à violência: a erosão da empatia e da verdade. “Vidas humanas tornam-se abstratas através de filtros políticos. A compaixão torna-se condicional. Nesse clima, o sofrimento alheio não só é distante, como também distorcido, negado ou ignorado. Essa perda de empatia fragmenta nossa humanidade compartilhada, permitindo que a injustiça persista e que o inaceitável se torne normal”.
Os clamores vindos do Afeganistão, da República Democrática do Congo, de Gaza, do Irã, do Líbano, do Sudão, da Ucrânia e de outros lugares não são ecos distantes; “são apelos urgentes à nossa humanidade compartilhada”, sustenta a pastoral. Conflitos devastam os sistemas de saúde, destruindo ou ocupando instalações e tornando grande parte da infraestrutura inoperável.
Outro dado citado na mensagem pastoral indica que, globalmente, estima-se que 22% das pessoas que vivem em contextos afetados por conflitos sofram de problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático, “um sofrimento que vai muito além do indivíduo e enfraquece o próprio tecido social. Nesses contextos, a saúde é tanto uma vítima da guerra quanto um caminho para a reconstrução”.
Por isso, a dimensão do sofrimento no mundo não deixa espaço para a indiferença; são inaceitáveis as narrativas que distorcem a verdade ou desvalorizam a vida humana; não dá para normalizar um mundo em que crianças morrem, doentes são abandonados e deslocados são esquecidos. “O sofrimento é real. Permitamo-nos ser tocados por ele. Juntos, escolhamos o árduo e necessário trabalho de curar nosso mundo fragmentado”, incita a mensagem.
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