27 Março 2026
Hoje era o prazo estabelecido pelo presidente dos EUA para chegar a um acordo com Teerã, mas ele o estendeu ontem à noite até 6 de abril. Apesar da abertura de um canal diplomático, os Estados Unidos continuam sua campanha de bombardeios.
A reportagem é de Queralt Castillo Cerezuela, publicada por El Salto, 27-03-2026.
Perdido no labirinto em que se encontra, Donald Trump convocou seu gabinete ontem para tentar encontrar uma saída para a guerra contra o Irã, na qual foi arrastado por Israel. Sobre a mesa, segundo ele e sua equipe, está um documento de paz de quinze pontos que foi enviado a Teerã há alguns dias por meio do Paquistão, país que está mediando o conflito e agora atuando como interlocutor entre os dois lados. Hoje, sexta-feira, era o prazo estabelecido pelo magnata americano para que o Irã aceitasse suas condições, mas, na última hora de ontem, ele o estendeu até segunda-feira, 6 de abril.
Na noite de quarta-feira, o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, negou a possibilidade de um acordo, afirmando que o país resistiria e que, por ora, não tinha intenção de negociar qualquer acordo. Vale ressaltar que esse suposto acordo vem sob ameaça direta dos Estados Unidos: "É melhor [os iranianos] levarem isso a sério, antes que seja tarde demais", escreveu Donald Trump poucas horas antes em sua plataforma de mídia social, Truth Social. Antes dele, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, também havia ameaçado Teerã com um ataque "mais forte do que nunca" caso os iranianos não aceitassem o acordo. Leavitt também afirmou que a Operação Fúria Épica, como a agressão foi apelidada, continuaria enquanto se buscavam esforços diplomáticos. O governo americano continuou enviando militares para a região.
Refletindo sobre a guerra enquanto se tenta negociar a paz
Ainda ontem, apesar das supostas negociações de paz, o portal de notícias Axios noticiou a possibilidade de os Estados Unidos desferirem um golpe final na agressão e procederem, nas próximas horas, com uma invasão terrestre ou um bloqueio da Ilha de Kharg, onde a vasta maioria do petróleo iraniano — 90%, para ser preciso — é processada. Isso poderia forçar Teerã a reabrir o Estreito de Ormuz, que tem sido parcialmente fechado como tática de pressão. Outra opção em consideração é uma intervenção terrestre, uma medida que seria extremamente impopular entre o público americano, que geralmente se opõe a uma guerra que não compreende totalmente. Além disso, o Axios também mencionou, com base em informações de suas fontes no Pentágono, que um ataque aéreo em larga escala era uma possibilidade.
Tudo isso acontece num momento em que parece que os Estados Unidos e o Irã, com o Paquistão como facilitador, retomaram as negociações para chegar a um acordo; algo que Trump confirmou, mas que os iranianos vêm negando desde o início da semana. Também ontem, na primeira reunião de gabinete do governo Trump desde o início da agressão contra o Irã, Peter Hegseth, Secretário de Defesa dos EUA, descreveu a guerra no Irã como “um sucesso puramente americano”, e não como “caos”, como, segundo ele, a mídia vem retratando a situação que se desenrolou na região após os ataques de 28 de fevereiro, o início da agressão. Durante a referida reunião, que abordou o documento de paz de 15 pontos que estaria sendo negociado com Teerã, também houve comentários sobre o governo Obama, que foi acusado de ter financiado a infraestrutura iraniana por meio do acordo nuclear com o Irã. “Tivemos que agir”, declarou o oficial da Defesa.
Por sua vez, Israel continua com seu plano de ação e já advertiu que não cessará os bombardeios ao Irã. Nesse sentido, o assassinato de Alireza Tangsiri, um membro de alta patente da Guarda Revolucionária responsável pelo fechamento do Estreito de Ormuz, foi confirmado há algumas horas. Acredita-se que se trate de uma ação coordenada com os Estados Unidos. Nos últimos dias, o Irã também continuou bombardeando alvos americanos na região e lançando mísseis contra Israel.
As ruas dos Estados Unidos se preparam para um protesto que promete ser gigantesco
Nos últimos dias, a situação da política externa de Trump tornou-se cada vez mais complexa. No âmbito interno, cresce a apreensão em setores do Partido Republicano que, quase um mês após o início da agressão, não vislumbram um caminho claro a seguir. Com o regime agora decapitado — embora ainda não derrubado —, muitos no partido de Trump questionam os objetivos e os custos desse conflito. Além disso, pairam no horizonte a inflação, a instabilidade do mercado, a flutuação dos preços do petróleo e a incerteza quanto ao possível envio de tropas para uma intervenção terrestre.
Nas ruas, o descontentamento de uma parcela da sociedade contra o presidente persiste. Embora planejado há tempos, o terceiro protesto "No Kings" nos Estados Unidos, organizado por grupos de direitos humanos, sindicatos e organizações políticas, acontecerá neste sábado, 28 de março, e espera-se que leve milhares de pessoas às ruas das principais cidades do país.
Esta é a terceira manifestação contra o crescente autoritarismo do ocupante da Casa Branca. A primeira ocorreu em 14 de junho de 2025, a segunda em 18 de outubro e esta terceira está marcada para amanhã. Mais de 3.000 eventos estão planejados em todo o país, e espera-se a presença de figuras como Bruce Springsteen, Joan Baez, Bernie Sanders e Jane Fonda. Nesta terceira manifestação sob o lema Chega de Reis, as reivindicações usuais provavelmente serão acompanhadas por queixas sobre o aumento de preços causado pela agressão dos EUA contra o Irã, um impasse do qual o magnata parece incapaz de se livrar.
Desde o início de seu mandato, Trump tem enfrentado o descontentamento popular. Além dessas três manifestações, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas em todo o país no final de janeiro para protestar contra as mortes de Alex Pretti e Rene Good por agentes federais durante operações anti-imigração realizadas pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos).
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