Intolerância política em contextos cristãos: desafios éticos, bíblicos e pedagógicos em tempos eleitorais. Artigo de Reginaldo Moreira Felipe

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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14 Março 2026

"A intolerância política constitui um dos grandes desafios éticos da sociedade contemporânea. Em um contexto de crescente polarização, torna-se cada vez mais difícil construir espaços de diálogo e convivência respeitosa", escreve Reginaldo Moreira Felipe, aluno de Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em artigo enviada ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

1. Introdução

A polarização política tornou-se uma característica marcante das democracias contemporâneas. Em múltiplas realidades sociais, o debate público passou a ser marcado por fortes divisões ideológicas, discursos de confronto e dificuldades de diálogo entre grupos com visões diferentes sobre a organização da sociedade.

No Brasil, esse fenômeno tornou-se especialmente evidente nas últimas décadas, intensificado pelo crescimento das redes sociais e pela ampliação do debate político nos meios digitais.

Em períodos eleitorais, como o cenário previsto neste ano de 2026, as tensões políticas tendem a se intensificar. O debate democrático, que deveria ser um espaço de construção coletiva, muitas vezes transforma-se em ambiente de hostilidade, intolerância e desqualificação do outro. Essa realidade afeta não apenas a esfera política institucional, mas também a convivência cotidiana em famílias, comunidades e instituições sociais.

Ambientes religiosos não permanecem imunes a essas tensões. Comunidades cristãs, igrejas e instituições educacionais confessionais frequentemente se tornam espaços onde divergências políticas geram conflitos, rupturas e julgamentos morais. Em alguns casos, a identidade política passa a ocupar lugar central na definição das relações comunitárias, superando até mesmo os vínculos espirituais.

Diante desse contexto, torna-se necessário refletir teologicamente sobre o fenômeno da intolerância política dentro de ambientes cristãos. O objetivo deste artigo é analisar como a polarização política pode afetar comunidades de fé e quais princípios bíblicos podem contribuir para a construção de uma cultura de diálogo, respeito e convivência democrática.

2. Polarização política na sociedade contemporânea

A polarização política pode ser compreendida como o processo pelo qual diferentes grupos sociais passam a se posicionar em polos ideológicos opostos, desenvolvendo sentimentos de identificação com o próprio grupo e rejeição ao grupo adversário. Esse fenômeno não envolve apenas divergências de ideias, mas também dimensões emocionais e identitárias.

Com o avanço das tecnologias digitais, o debate político passou a ocorrer intensamente nas redes sociais. Embora esses espaços ampliem a possibilidade de participação democrática, também favorecem a circulação de informações falsas, discursos de ódio e narrativas polarizadas.

Nesse contexto, os indivíduos tendem a interagir principalmente com pessoas que compartilham opiniões semelhantes, criando ambientes conhecidos como “bolhas informacionais”. Essas bolhas reforçam percepções ideológicas e dificultam o diálogo com perspectivas diferentes.

A polarização política também pode gerar consequências sociais significativas, como rupturas familiares, conflitos comunitários e desconfiança nas instituições democráticas. Quando essa lógica de antagonismo se intensifica, o adversário político deixa de ser visto como interlocutor legítimo e passa a ser percebido como inimigo.

3. A fé cristã diante das diferenças políticas

A tradição cristã apresenta fundamentos éticos que orientam o relacionamento humano, inclusive em contextos de divergência. Um dos princípios centrais do ensinamento de Jesus é o amor ao próximo. No Evangelho de Mateus, Cristo afirma: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39).

Esse mandamento estabelece que a relação com o outro deve ser marcada pelo respeito e pela dignidade, independentemente de diferenças ideológicas ou posicionamentos políticos. A ética cristã não permite que o outro seja desumanizado ou tratado com desprezo.

O apóstolo Paulo também orienta os cristãos a buscarem a convivência pacífica: “Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos” (Rm 12,18).

Esse ensinamento aponta para a responsabilidade individual na construção de relações baseadas na paz e no respeito.

Outro elemento importante da mensagem cristã é a prática da humildade. Em Filipenses 2,3, Paulo exorta: “Nada façais por ambição egoísta ou vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos.”

Esse princípio convida os cristãos a reconhecerem os limites de suas próprias convicções e a manterem uma postura de abertura ao diálogo.

4. O risco da idolatria política

Um dos desafios contemporâneos da fé cristã é evitar que a política se transforme em objeto de idolatria. Quando líderes políticos ou ideologias passam a ser defendidos de maneira absoluta e inquestionável, corre-se o risco de substituir a centralidade de Deus por projetos humanos.

Na tradição bíblica, a idolatria é compreendida como a atribuição de autoridade suprema a algo que não é Deus. Nesse sentido, qualquer sistema político ou líder que ocupe esse lugar pode se tornar objeto de idolatria.

A mensagem de Jesus apresenta uma distinção importante entre o Reino de Deus e os poderes deste mundo. No Evangelho de João, Cristo afirma: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36).

Essa declaração não significa que os cristãos devam se afastar da política, mas indica que a fé não pode ser reduzida a um projeto partidário.

Participar da vida política faz parte da responsabilidade cidadã. No entanto, essa participação deve ser orientada por princípios éticos e espirituais que reconheçam a limitação de qualquer sistema político humano.

5. O papel das instituições cristãs em tempos eleitorais

Instituições cristãs desempenham papel importante na formação ética e cidadã das pessoas. Igrejas, escolas confessionais e comunidades de fé possuem capacidade significativa de influenciar valores, atitudes e percepções sociais.

Em contextos eleitorais, essas instituições enfrentam o desafio de promover a liberdade de consciência política sem permitir que divergências ideológicas destruam a convivência comunitária.

No contexto educacional, a formação de estudantes deve incluir o desenvolvimento do pensamento crítico, a valorização do diálogo e o respeito à diversidade de opiniões. A educação cristã pode contribuir para a construção de cidadãos comprometidos com o bem comum e com os princípios da justiça e da dignidade humana.

Além disso, comunidades cristãs podem atuar como espaços de reconciliação social, incentivando práticas de escuta, respeito e cooperação entre pessoas com diferentes visões políticas.

6. Caminhos teológicos para superar a intolerância

A superação da intolerância política em ambientes cristãos exige a redescoberta de elementos centrais da espiritualidade cristã. Um desses elementos é a prática da escuta. A carta de Tiago afirma: “Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar” (Tg 1,19). Esse ensinamento destaca a importância da escuta atenta como base para o diálogo.

Outro elemento fundamental é a reconciliação. No Novo Testamento, a missão de Cristo é apresentada como ministério de reconciliação (2Co 5,18). Comunidades cristãs são chamadas a promover reconciliação em contextos marcados por conflito e divisão.

A prática da justiça também constitui dimensão central da fé cristã. A busca pelo bem comum e pela dignidade humana deve orientar a participação dos cristãos na vida social e política.

7. Considerações finais

A intolerância política constitui um dos grandes desafios éticos da sociedade contemporânea. Em um contexto de crescente polarização, torna-se cada vez mais difícil construir espaços de diálogo e convivência respeitosa.

Comunidades cristãs possuem papel fundamental na promoção de uma cultura de paz e respeito. Ao recuperar os ensinamentos centrais do evangelho, essas comunidades podem oferecer contribuição significativa para a superação das divisões sociais.

Em tempos eleitorais, como o cenário de 2026, torna-se ainda mais importante reafirmar que a identidade cristã não se define por alinhamentos partidários, mas pela prática do amor, da justiça e da reconciliação.

Somente quando a fé cristã estiver profundamente enraizada nos ensinamentos de Jesus será possível enfrentar a intolerância política e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e fraterna.

Referências

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Leopoldo: Sinodal, 2016.

MOLTMANN, Jürgen. Teologia da esperança. São Paulo: Loyola, 2005.

BARTH, Karl. Introdução à teologia evangélica. São Leopoldo: Sinodal, 2003.

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