A Filha Predileta. Artigo de Matias Soares

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04 Março 2026

"A Campanha da Fraternidade como Filha Predileta do Movimento de Natal poderia nos oferecer tantas possibilidades de retomada da nossa inserção e no nosso diálogo com tantas concepções de mundo e realidades de fronteiras. A sua metodologia continua atualíssima. O seu agir é radicado no Evangelho. O seu horizonte é sempre o da dignidade da pessoa humana. A sua protagonista é a Igreja de Jesus Cristo", escreve Matias Soares, pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório-Natal/RN, Capelão da UFRN.

Eis o artigo.

A partir da interpretação que podemos dar ao significado do Movimento de Natal, pensemos a Campanha da Fraternidade como a sua “Filha Predileta”. Como tal, enquanto Igreja Particular, deveríamos tratá-la com muito cuidado e atenção. Pois, ela é situada dentre o conjunto das ações pastorais daquela saga evangelizadora e de promoção humana que, até os nossos dias, continua a ter sua relevância como sinal profético e metodológico do que a Igreja é chamada a ser como “Mãe e Mestra”, à luz do Evangelho, que promove a salvação integral e integrante de cada pessoa humana. São mais de sessenta anos de comprometimento com as causas da realidade da Igreja, com as situações sociais e desafios emergentes da criação. Os caminhos percorridos, com a metodologia do ver-julgar-agir, continuam a dar frutos para o bem comum e a justiça social, princípios da nossa ética social católica sempre tão necessários na superação dos dramas sociais claramente existentes em nossas conjunturas brasileiras. Como Filha ela espera relação confiante e dialógica, com reconhecimento da sua maturidade capaz de gerar novos sinais de esperança para a Igreja e a sociedade.

Pelos idos dos anos sessenta (62-64), tivemos o embrião daquela louvável iniciativa, começada no contexto das grandes reviravoltas antropológicas, ideológicas e eclesiológicas da sociedade e da Igreja. Em Natal, sob, a liderança de Dom Eugênio, com a sagacidade de Dom Heitor, que adaptou a experiência dos católicos alemães no tempo quaresmal e a aplicou à nossa realidade, o preparo e o espírito eclesial dos sacerdotes de então, e, sem dúvida, o grande testemunho de inserção e amor aos mais pobres das irmãs vigárias da Congregação Missionária de Jesus Crucificado - Orani, Elza Brito Martins, Maria José, Odete e Rosa -, que assumindo o espírito evangélico e os crucificados da história, protagonizaram a ação e os primeiros passos da Campanha, juntamente com tantos fiéis leigos, na paróquia de Nossa Senhora do Ó, em Nisia Floresta-RN.

Em nossos dias, em todo o Brasil houve a abertura da Campanha de dois mil e vinte seis com a temática da Fraternidade e a Moradia. O contexto muda, mas o espírito e os fins são os mesmos, haja vista “que ao longo da sua história, ela consolidou três objetivos permanentes: 1) - Despertar o espírito comunitário e cristão na busca do bem comum; 2) - Educar para a vida em fraternidade; e 3) - Renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação evangelizadora em vista de uma sociedade justa e solidária” (cf. Texto Base, 10). A Arquidiocese de Natal, tendo em vista a sua história de protagonismo, tem a obrigação evangélica e eclesial de colocar esta sua “Filha Predileta” no centro dos seus projetos pastorais, ainda mais considerando o terceiro eixo do seu atual Plano de Pastoral, que contempla a dimensão sócio-transformadora da sua ação evangelizadora (cf. Plano Pastoral Arquidiocesano, eixo 3, pág. 39).

Na atual ordem sistêmica, deveríamos estar com todas as nossas estruturas eclesiais voltadas e firmando parcerias com todos os sujeitos sociais para mobilizarmos as iniciativas de desenvolvimento da Campanha. Por mais que seja tentador em nossos dias, não podemos cair nas armadilhas religiosas que juntam massas; mas que sonegam a dimensão da Diocesaneidade e a Sinodalidade, temas tão caros aos ensinamentos do Concílio Vaticano II (cf. Leia aqui.). A história da Igreja de Natal teve seu momento mais significativo naquele cenário, com uma eclesiologia que já, nos seus primeiros momentos, antecipou-se aos desdobramentos teológicos do Concílio. Com o Movimento de Natal a nossa Igreja Local testemunhou uma genuína diaconia social (cf. Leia aqui). Não deveríamos trair esse dinamismo e essa consciência histórica. O que precisamos fazer é, deveras, acolher com uma profunda revisão espiritual das nossas mentalidades o que somos chamados a ser em nossos tempos, com tantos sinais de sombras e mazelas sociais, que nos interpelam e que deveriam nos colocar em estado de prontidão e profetismo. Temos que acreditar numa eclesiologia que tenha como referência fundante a centralidade do Evangelho.

A sonegação por parte de alguns agrupamentos eclesiásticos à Campanha da Fraternidade é consequência do nosso catolicismo superficial e cooptado pelas ideologias polarizadas das nossas conjunturas políticas. Basta um olhar mais iluminado pelo Magistério da Igreja e constataremos essa configuração. Assim como está faltando racionalidade na política, também estamos nos entregando a esta lacuna em alguns movimentos eclesiásticos, que não têm nada a ver com o Espírito do Movimento de Natal (cf. Leia aqui.). A nossa ação evangelizadora não precisaria caminhar por essa areia movediça para testemunhar um cristianismo com um rosto samaritano, servidor e misericordioso. A nossa carência é a do Único Necessário (cf. Lc 10,39-42). Urge um mergulho nessa dimensão da “espiritualidade com olhos abertos” (cf. J. Batista Metz), com uma antropologia fiel aos fundamentos epistemológicos da tradição cristã. Uma das variantes do catolicismo dos polos católicos, muito presentes nos enxames mediáticos dos nossos tempos, é a sua traição à concepção antropológica que, principalmente depois do Concílio de Calcedonia (451), norteou o conceito do que seja a pessoa humana, tendo em vista o mistério unodual de Jesus Cristo. Uma separação nítida das dimensões da condição humana - corpo, alma, psique - que direcionam a salvação para um espírito desencarnado. Os apelos espiritualistas fazem com que exista a narrativa de que as preocupações imanentes e contextuais não devam ser dos cristãos que estão no mundo e situados historicamente.

A Campanha da Fraternidade como Filha Predileta do Movimento de Natal poderia nos oferecer tantas possibilidades de retomada da nossa inserção e no nosso diálogo com tantas concepções de mundo e realidades de fronteiras. A sua metodologia continua atualíssima. O seu agir é radicado no Evangelho. O seu horizonte é sempre o da dignidade da pessoa humana. A sua protagonista é a Igreja de Jesus Cristo. Os seus ensinamentos estão no Magistério eclesiástico. O seu tempo de vivência mais intenso, mas não o último, é o da Quaresma, que é de conversão a Deus e ao irmão. O que nos falta? Por que ‘alguns’ estão indiferentes? Será que tudo isso, não sinaliza uma crise mais profunda? A Campanha da Fraternidade estará sempre sustentada na Palavra de Deus que veio morar entre nós (cf. Jo 1,14). A sua beleza estará para sempre vinculada à importância histórica da nossa amada Igreja Particular de Natal e ao dinamismo evangelizador da Igreja no Brasil. Assim o seja!

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