19 Fevereiro 2026
O jornal L' Osservatore Romano e o Vatican News publicaram com destaque um artigo do Cardeal Marc Ouellet que justifica teologicamente a mudança de direção de Francisco em relação às nomeações dos chefes dos dicastérios.
A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Repubblica, 18-02-2026.
A intervenção não passa despercebida, devido à sensibilidade do tema abordado e à influência de seu autor. E num mundo onde as hierarquias ainda são sólidas, como no Vaticano, dificilmente teria ocorrido sem a aprovação da autoridade suprema, a do Papa.
Na primeira página
Este é um artigo que apareceu na primeira página do Osservatore Romano na segunda-feira, 16 de fevereiro, e foi publicado simultaneamente em italiano e em vários outros idiomas no site oficial de notícias do Vaticano, Vatican News. O título não é intuitivo, especialmente por estar inserido em um ponto de interrogação, mas aborda uma das questões que têm alimentado paixões e controvérsias no Vaticano há meses, e que também permeou o último Conclave: "Leigos em posições de autoridade na Cúria Romana: concessão a ser revista ou progresso eclesiológico?" Traduzindo do dialeto vaticano: mulheres e leigos podem assumir posições de poder no Vaticano? Spoiler: sim.
Não é uma conclusão inevitável.
O autor do artigo, que recentemente desencadeou um debate discreto, porém intenso, no Vaticano e na Igreja Católica em geral, é o Cardeal Marc Ouellet. Aposentado, o cardeal canadense de 81 anos foi antecessor de Robert Francis Prevost em um dos cargos mais poderosos da Santa Sé, o Dicastério dos Bispos.
Ele ocupou essa posição de 2010 a 2022, primeiro sob o pontificado de Bento XVI e depois durante grande parte do pontificado de Francisco. Teólogo de renome, ele vem da escola da revista Communio, fundada por dois dos mais ilustres teólogos católicos do século XX, Joseph Ratzinger e Hans Urs von Balthasar. Ele não é um progressista. E precisamente por essa razão, sua posição não é uma conclusão óbvia.
A pausa de Bergoglio
A questão surgiu com uma virada promovida pelo Papa Francisco quando, com a reforma da constituição apostólica Praedicate Evangelium em 2022, Jorge Mario Bergoglio introduziu a possibilidade de nomear uma mulher ou um leigo para liderar departamentos do Vaticano, que até então eram presididos apenas por cardeais e arcebispos. Nos bastidores silenciosos das câmaras sagradas, protestos de setores conservadores, centrados na inescapável correlação entre ordens sacras e o poder jurisdicional, foram veementes. Mas Francisco prosseguiu, nomeando Paolo Ruffini, um leigo, para chefiar a Comunicação, e duas freiras, Simona Brambilla e Raffaella Petrini, para chefiar o poderoso Departamento para os Religiosos e o Governatorato Vaticano, respectivamente. O descontentamento persistiu na Cúria e transbordou para as discussões dos cardeais que antecederam o Conclave, a tal ponto que – como revelou o jornal argentino La Nación – o Cardeal Beniamino Stella citou a nomeação de mulheres para chefiar departamentos como uma das reformas de Bergoglio que o futuro Pontífice teria que revogar.
Os ministérios contestáveis
O Cardeal Ouellet pergunta agora: a medida de Francisco é "uma concessão provisória a ser revista ou um avanço eclesiológico?" A resposta, articulada com um argumento teológico complexo baseado na reavaliação da "pneumatologia" (o estudo do Espírito Santo), é que Bergoglio fez uma "escolha promissora para o futuro": "O fato de os dicastérios dedicados à comunicação, à governança geral do Estado do Vaticano, à promoção do desenvolvimento humano integral, à vida, à família e aos leigos, à promoção dos carismas religiosos ou das sociedades de vida apostólica, serem dirigidos por pessoas competentes, leigas ou religiosas, com carismas reconhecidos pela Suprema Autoridade, não diminui o valor de seu serviço por falta de poder de ordem", escreve Ouellet. Em diversas outras áreas, novamente — gestão de recursos humanos, administração da justiça, discernimento cultural e político, administração financeira, diálogo ecumênico — "pode-se imaginar uma colaboração entre clero, leigos e religiosos na qual a posição subordinada do ministro ordenado não seria inadequada ou questionável".
Progressistas e conservadores
Não seria a primeira vez que, de forma um tanto surpreendente, Ouellet defenderia Francisco. Isso aconteceu quando o próprio cardeal canadense rejeitou as acusações feitas pelo ex-núncio apostólico nos Estados Unidos, Carlo Maria Viganò, contra o pontífice argentino e toda a Cúria Romana, referentes a abusos sexuais cometidos ao longo dos anos pelo cardeal Theodore McCarrick. Agora, o foco é a teologia, a especialidade de Ouellet. E sua posição tem o potencial de abrir caminho para Leão XIV, caso ele deseje nomear outros leigos e mulheres para os cargos mais altos do Vaticano. "Se esse fosse o caso", escreveu o teólogo e jornalista holandês Hendro Munsterman no Substack, "ter um cardeal conservador endossando publicamente o que é amplamente considerado um movimento progressista do Papa Francisco é uma estratégia para minar o ímpeto teológico do campo conservador."
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