O que será o Evangelho para eles (da AfD)? Artigo de Jesús Martínez Gordo

Foto: Julia Tulke/Flickr

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19 Fevereiro 2026

No último dia 4 de fevereiro li uma notícia na imprensa digital alemã que me deixou atônito: o Vaticano confirmava a expulsão de um parlamentar do partido Alternative für Deutschland (AfD) (os “irmãos políticos” do Vox) de um conselho administrativo da Igreja Católica na diocese de Trier, porque “os partidos de extrema-direita não podem ser um espaço de atividade política para nós, cristãos”.

O artigo é de Jesús Martínez Gordo, doutor em Teologia Fundamental e sacerdote da Diocese de Bilbao, professor da Faculdade de Teologia de Vitoria-Gasteiz e do Instituto Diocesano de Teologia e Pastoral de Bilbao, publicado por Settimana News, 18-02-2026. 

Eis o artigo. 

A decisão havia sido adotada, antes do verão de 2025, pelo vigário-geral da diocese contra a presença de Christoph Schaufert em um conselho paroquial para assuntos econômicos, em aplicação do acordo aprovado pela Conferência Episcopal Alemã contra o nacionalismo racista e xenófobo. O vice-presidente da AfD no parlamento regional apresentou recurso contra sua expulsão ao bispo da diocese, sustentando que, pessoalmente, nada poderia lhe ser imputado.

O bispo, Stephan Ackermann, confirmou, contudo, a exclusão, entendendo que ele deveria “tomar distância” de posições e de uma militância na ultradireita “incompatíveis com o exercício de funções” no interior da Igreja.

O parlamentar da AfD, porém, não se deu por vencido e, consciente de que na resolução do seu caso estava em jogo um significativo contingente de votos católicos, recorreu ao Dicastério vaticano competente para os recursos. Esse organismo, no final de janeiro, anunciou que a exclusão e a destituição do membro da AfD permaneciam confirmadas por serem legítimas.

É verdade que Christoph Schaufert dispõe de 60 dias para recorrer à Assinatura Apostólica, o mais alto tribunal administrativo da Igreja. Mas também é verdade que, considerando sua intenção de abandonar o catolicismo, parece improvável que recorra a essa última instância.

Para além dessas minúcias jurídicas, é claro que o critério e o procedimento seguidos pela diocese de Trier constituem um verdadeiro êxito para outras dioceses que estão afastando de suas instituições extremistas vinculados a grupos racistas, misantrópicos, xenófobos ou contrários à concepção cristã de humanidade.

Contudo, não creio que seja supérfluo recordar que o modo habitual de proceder dos dicastérios vaticanos, assim como da hierarquia eclesiástica, é aquele que aceita como válida uma concepção absolutista e monárquica de compreender e exercer o poder. Tampouco se pode ignorar que tal concepção e exercício do poder continuam a prestar-se — como ainda hoje acontece — a arbitrariedades incontroladas que já custaram a mais de um bispo — que eu saiba, ao menos a um do País Basco — algum monitum ou advertência por parte das competentes autoridades vaticanas, mas por um problema de ingerência de competências…

Deixando esse tema para outro momento, é indiscutível que nós, católicos, e as pessoas de boa vontade recebemos, no último 4 de fevereiro, uma excelente notícia: não tanto pelo procedimento que normalmente se segue, mas pelo critério aplicado e inequivocamente defendido pela diocese de Trier e por todas as dioceses alemãs: “Eu era estrangeiro e me acolhestes”.

Tal critério, proposto por Jesus de Nazaré no Sermão da Montanha e na parábola do Juízo Final, atravessa — do início ao fim — toda a história da Igreja; não assim, infelizmente, a da hierarquia eclesiástica, mais ocupada, salvo exceções, em salvaguardar o próprio “poder” do que em ocupar-se desse ponto fundamental no programa dos seguidores do Nazareno e sustentar sua realização.

Nesse contexto, alguns meses atrás propus aos bispos espanhóis que procedessem com o Vox de modo análogo ao que haviam feito — e estavam fazendo — seus colegas alemães: isto é, que acordassem o afastamento dos militantes do Vox, por pura coerência evangélica, das diversas instituições eclesiais em que pudessem estar. E que não tivessem medo de abrir os debates oportunos e fornecer os necessários esclarecimentos nos respectivos órgãos de governo e decisão.

Agora, alguns meses depois daquela proposta e diante dos comentários desagradáveis sobre a regularização dos migrantes, tanto por parte de Dom Jesús Sanz, arcebispo de Oviedo (é uma decisão “populista e demagógica”), quanto de Dom J. I. Munilla, bispo de Orihuela-Alicante (é “uma estratégia para alcançar outros fins”), acrescento uma nova pergunta: permanecerão em silêncio como coletivo? Espero que, como Conferência Episcopal, apoiem as posições defendidas, entre outros, pelos arcebispos de Pamplona, Toledo, Tarragona, Sevilha e Valladolid, e que coloquem em seu devido lugar as invectivas desses dois monsenhores.

Vejamos se desta vez a sorte nos assistirá e poderemos escutar — de modo coral e historicamente encarnado — o programa do Nazareno sobre os párias e os últimos do mundo. Gostaria que não demorassem muito, mas temo que terei de continuar esperando…

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