12 Fevereiro 2026
O catolicismo continua sendo uma força unificadora (ethos) em nosso continente. Não podemos fechar os olhos aos movimentos populistas que defendem o fim da era "woke" e, ao fazê-lo, tentam varrer todos os movimentos progressistas existentes. A paz desarmada proposta pelo Papa Leão XIV exige uma ação de desarmamento.
O artigo é de Julio Pernús, doutor em filosofia pela Universidad de La Habana e comunicador da Companhia de Jesus em Cuba, publicado por Religión Digital, 23-01-2026.
Eis o artigo.
Sem Gustavo Gutiérrez OP, Enrique Dussel, Franz Hinkelammert, Ignacio Ellacuría, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino, Pedro Casaldáliga, o Arcebispo Romero e outros que serviram de guia, a Teologia e a Filosofia da Libertação devem retornar à América Latina. Os tempos iliberais que a humanidade atravessa exigem isso. Tendo superado o "fim da história" de Fukuyama, chegou a hora de garantir que o legado do Papa Francisco não se perca. Ele trouxe para o cenário global as ideias que germinaram no Sul Global durante a segunda metade do século XX, ideias que nos transformaram de meros reflexos no panorama epistemológico global em uma fonte de pensamento profundo, graças à qualidade de nossa produção intelectual.
Emilce Cuda, Consuelo Vélez, Rodrigo Guerra, Nicolás Panotto, Rafael Luciani e alguns da velha guarda, como Leonardo Boff, para citar alguns, são hoje figuras de destaque no pensamento católico latino-americano e capazes de dialogar com os problemas de um mundo globalizado. Precisamos unificar essas ideias — feministas, ambientalistas, indígenas, raciais e voltadas para a juventude — em um corpo doutrinário que nos identifique como continente. Se a Conferência Episcopal Aparecida delineou um caminho guiado pelo então Cardeal Bergoglio e pela Teologia do Povo, hoje as possibilidades se ampliam para resgatarmos nossa tradição e para que a produção intelectual latino-americana construa uma Filosofia e Teologia da Libertação 3.0.
O catolicismo continua sendo uma força unificadora (ethos) em nosso continente. Não podemos fechar os olhos aos movimentos populistas que proclamam o fim da era woke e, ao fazê-lo, tentam varrer todos os movimentos progressistas existentes. A paz desarmada proposta pelo Papa Leão XIV exige uma ação de desarmamento. É crucial evitar repetir as soluções definitivas do passado que transformaram os sonhos dos povos que abraçaram a revolução em ditaduras, apenas para ver seus futuros desperdiçados. Sem uma nova base crível para a luta, guiada pela coerência, nossas comunidades ficarão à mercê da nova Doutrina Donroe — um termo usado por Donald Trump para renomear a Doutrina Monroe — e sua bússola friedmaniana.
A fé continua a nos apontar para os pobres — quem são eles hoje? — e os marginalizados, para que a partir daí possamos construir nossa opção preferencial, como fizeram os profetas do Antigo Testamento. Os novos filósofos e teólogos da libertação devem ser capazes de captar a atenção dos jovens e servir de alicerce para proclamar aquela alegria do Evangelho que significa “dedicar” a vida a uma causa justa.
Como já afirmou o filósofo mexicano Rodrigo Guerra, secretário da Pontifícia Comissão para a América Latina: “O bem autêntico se constrói com bons meios e escuta atenta do povo”. Não podemos renunciar ao caminho sinodal cuja bandeira era o “tudo, tudo, tudo” de Francisco. A atual parusia em nosso continente exige uma profundidade semelhante à do pensamento católico das décadas de 1960, 70 e 80. Não se trata de copiar a metodologia daqueles que já partiram; é imprescindível que sejamos capazes de rever o legado que nos deixaram para atualizá-lo segundo os sinais dos tempos. Eles teriam gostado.
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