Mulheres que sustentam territórios, sustentam o clima. Artigo de Luciana Xavier

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28 Novembro 2025

Unidas, mulheres da terra e das águas transformam suas lutas em força política para exigir um plano climático com perspectiva de gênero.

O artigo é de Luciana Xavier, pesquisadora, mulher e cidadã engajada com a sustentabilidade do Oceano. Formada em oceanografia, tem especialização em gestão e conservação costeira em marinha, com foco em abordagens participativas, inclusivas e dialógicas para compreender e transformar a relação das pessoas com o Oceano e promover sua sustentabilidade, publicado por ((o))eco, 27-11-2025.

Eis o artigo.

Injustiça, dependência emocional, doenças psicológicas, assédio moral, baixa autoestima, sofrimento, desrespeito. Essas foram as palavras que abriram o Encontro Nacional das Mulheres Extrativistas, perguntado quanto tempo mais será necessário para que alguma atitude seja tomada. A resposta, veio de outras mulheres, oferecendo justiça, segurança e respeito ao papel da mulher como guardiã climática!

Enquanto na Zona Azul a abertura oficial da COP30 contou com o presidente Lula e representantes de 194 países, a aproximadamente 4 quilômetros dali, na Casa Chico Mendes no Campus de pesquisa do Museu Emílio Goeldi, com grande força e público começava também o Encontro Nacional das Mulheres Extrativistas.

O encontro reuniu um grupo de mulheres fortes, mulheres da floresta, das marés e das águas, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, quebradeiras de coco e tantas outras. Elas somaram suas vozes e seus conhecimentos ancestrais para discutir questões de gênero relacionadas à justiça climática em uma união de conhecimentos e povos que, nas palavras de Carlene Printes, quilombola e coordenadora de Diversidade de Gênero da Malungu, “é um ato revolucionário”.

Na mesa de abertura, as mulheres compartilharam suas lutas e suas conquistas e celebraram a realização do encontro junto à COP30, um momento de dar visibilidade internacional para a pauta das extrativistas. Como colocado por Sandra Regina Gonçalves, da Comissão Nacional para o Fortalecimento das Reservas Extrativistas e dos Povos Extrativistas Costeiros Marinhos (Confrem), “quem não é vista, não consegue chegar onde precisa estar”. E não há dúvidas de que o local das mulheres é à frente do combate à crise climáticas, pauta que ressoou em muitas discussões da primeira semana da COP30.

Mulheres guardiãs

As mulheres são pilares da resiliência climática no Brasil. Elas são as guardiãs das matas, das águas, das sementes, do conhecimento e das práticas ancestrais, transmitidas para crianças e jovens que acompanham suas mães ao trabalho, moldando as futuras gerações. Essa potência das mulheres está muito presente quando olhamos para as comunidades extrativistas costeiras. Ali, são elas que vivenciam os ecossistemas e suas mudanças, em toda a sua complexidade: marisqueiras que caminham diariamente pelos manguezais, pescadoras que manejam redes e armadilhas, trabalhadoras que processam, cuidam, comercializam e mantém a engrenagem da pesca viva – mesmo que grande parte desse trabalho siga invisibilizado e subvalorizado.

Seu dia-a-dia revela não apenas trabalho, mas cuidado ambiental. Elas conhecem os territórios no detalhe e percebem, antes de qualquer instrumento, os sinais da crise climática. Valorizar seu trabalho, garantir direitos e incluir suas vozes nas decisões é uma das formas mais efetivas de enfrentar a crise climática. Entre as reivindicações das mulheres extrativistas estão o respeito e a garantia do direito à titularidade da terra, do acesso à água, à moradia, à educação diferenciada e dos direitos trabalhistas. Fortalecer essas mulheres, garantir sua entrada e permanência em instâncias de tomadas de decisão é um investimento para um futuro mais justo.

E enquanto vemos cada vez mais forte a participação das mulheres nas discussões políticas, o esforço que uma mulher faz para se manter em espaços de representação é muito maior que o esforço de um homem. Segundo Renata Maranhão, da Agência Nacional das Águas (ANA), em painel que discutiu o papel das mulheres na gestão das águas, garantir a permanência de representantes mulheres nos comitês gestores é um problema e uma oportunidade para o combate às mudanças climáticas e busca por justiça hídrica climática. “Precisamos identificar coletivamente que a questão de gênero é essencial para a questão climática”, afirmou Renata.

Redes de empoderamento

Uma forma que as mulheres vêm buscando para se fortalecer é a atuação em rede. No painel internacional “Construindo Ação Coletiva pela Justiça Climática: Vozes dos Movimentos Territoriais, Costeiros e Energéticos” realizado em 12 de novembro no Arayara Amazon Climate Hub, lideranças da Aliança Global das Comunidades Territoriais (GATC) destacaram que as redes nascem da urgência de unir-se para sobreviver, amplificar e fortalecer vozes, trocar estratégias, enfrentar ameaças aos modos de vida e transformar experiência compartilhada em poder político. É nesse espaço de confiança, partilha e cuidado que, como lembrou Lupita, as histórias de mulheres se tornam ferramentas de enfrentamento à crise climática, “saber das histórias de outras mulheres, é saber que as dificuldades são compartilhadas, mas soluções também podem ser”.

Nesse painel, Betty Mondo, da African Women in Fish Processing and Trade Network, reforçou a importância de se investir nas mulheres para transformar não trajetórias individuais, mas fortalecer comunidades inteiras: “se você treina um homem, você forma um bom profissional; mas se você treina uma mulher, você fortalece uma comunidade”. Betty levou sua mensagem também para o encontro “Mulheres e seus maretórios nas lutas pela justiça climática”, realizado no dia 14 de novembro na Casa Voz dos Oceanos. No painel, pescadoras, quilombolas e extrativistas de todo o Brasil e representantes de redes de mulheres de outros países demonstraram como a ação em rede se enraíza nos territórios e ganha escala a partir da base.

As representantes de diversas redes de mulheres trouxeram exemplos de como a organização em rede amplia vozes, abre portas e confronta fronteiras políticas. “A rede deu voz para as mulheres não só dentro das comunidades, mas também dentro das salas dos governantes”, relatou Mônica Correia (Rede de Mulheres Extrativistas Pesqueiras da Bahia). Mas “é na base que as coisas acontecem”, como relatado por Mary Jane Fonseca (Rede de Mulheres Praianas da Resex Cururupu / Maranhão) que pontua que “quando a base está fortalecida, a gente fortalece as outras redes”. Moradora de uma Resex formada por 16 ilhas onde a migração forçada para a sede do município desestrutura modos de vida, culturas e pertencimentos, o relato de Mary Jane chama atenção para o que está em jogo. “Vocês estão aqui na COP discutindo mudanças climáticas, mas a gente está falando das nossas vidas aqui. […] Antes a gente dormia com o barulho do mar; hoje esse barulho assusta a ponto de não conseguirmos dormir. […] Tudo o que vocês fizerem de ruim, nós seremos os primeiros impactados, não tenham dúvida disso.”

Momentos como o encontro dão visibilidade à luta e conquista dessas mulheres, compartilhando soluções, caminhos e esperanças. Dentre elas, a criação e manutenção das próprias redes, que são um ato de resistência, e suas ações de formação, capacitação e acolhimento das mulheres de todos os territórios e maretórios. Muitos exemplos, de mulheres extrativistas e outros grupos podem ser encontrados no “Mapeamento Nacional de Iniciativas na Interface entre Gênero, Oceano e Clima”, do Grupo de Trabalho COP30 da Liga das Mulheres pelo Oceano. Lançado em 15 de novembro no Arayara Amazon Climate Hub, o mapeamento reúne 52 iniciativas e experiências brasileiras lideradas por e para mulheres em todo o litoral e aponta caminhos para o fortalecimento dessas iniciativas, incluindo capacitação e fortalecimento da ação em redes.

Como nos lembrou Carlene, no encontro da Confrem, com um sorriso contagiante, a luta também é feita de alegria e resistência: “ainda que a gente chore, ainda que seja difícil, a gente também se alegra”. Juntas, todas essas lideranças mostram que as redes – locais, nacionais e internacionais – não são apenas estratégias de articulação política, mas verdadeiros espaços de cuidado, fortalecimento e construção coletiva de futuro, onde as histórias das mulheres se tornam força para enfrentar a crise climática.

Reivindicações para COP30

Enquanto ocorria o encontro organizado pela Confrem, a menos de 3 quilômetros dali ocorria também a COP das Mulheres, no Teatro Margarida Schivasappa, outro exemplo da permeabilidade do tema em vários espaços da COP30. A “Carta das Mulheres para a COP30” produzida pelas organizações de mulheres presentes no evento, ressoa com a demanda das extrativistas, reforçando o papel das mulheres como guardiãs dos biomas, ressaltando o papel das redes como “instrumentos de incidência política, solidariedade e construção coletiva” e propondo mecanismos de financiamento que priorizem projetos liderados por mulheres em territórios vulnerabilizados. Fechando a semana, o grito por um olhar de gênero para a justiça climática também ganhou a rua na Marcha pelo Clima.

Em todas essas experiências, a mensagem central é a mesma: quando mulheres se unem, constroem caminhos para proteger territórios, enfrentar desigualdades e impulsionar ações climáticas enraizadas nos modos de vida que sustentam o país. Sem igualdade de gênero, não há caminhos para a justiça climática.

Ainda assim, apesar de todas as mobilizações e da força das mulheres nos territórios, até a reta final da COP30 ainda havia incertezas sobre a aprovação do novo Plano de Ação de Gênero. As negociações carregavam tensões sensíveis – desde definições de gênero até referências explícitas a mulheres e meninas afrodescendentes, direitos reprodutivos, cuidados, linguagem de direitos humanos e formas de monitoramento e responsabilização. Foi apenas com o fim da COP que as expectativas confluíram para um avanço: a aprovação o Plano de Ação de Gênero de Belém (2026–2034) e o reconhecimento da pauta de gênero no documento final da conferência, o Mutirão Global: unindo a humanidade em uma mobilização global contra a mudança climática. Os documentos finais da COP reconhecem explicitamente a contribuição de mulheres e meninas de povos indígenas, comunidades locais, migrantes, mulheres com deficiência, agricultoras familiares e, pela primeira vez na história das COPs, mulheres e meninas afrodescendentes.

Com o GAP aprovado, o desafio agora é transformar compromissos em políticas, programas e recursos concretos nos níveis nacional e local. Para isso, o financiamento é um pilar estruturante. O plano avança na agenda de financiamento sensível ao gênero ao promover instrumentos como orçamento responsivo ao gênero, ampliar a capacidade de acesso a recursos por governos e organizações de base e facilitar o acesso direto de redes de mulheres, povos indígenas e comunidades locais a fundos climáticos. Também cria espaços de diálogo com fundos multilaterais e incentiva que entidades públicas e privadas apoiem sua implementação, estabelecendo um caminho concreto para que mulheres acessem de forma mais equitativa os recursos necessários para enfrentar a crise climática. Mas sua efetividade dependerá da capacidade de transformar diretrizes em prática, garantindo orçamento, fortalecendo redes e colocando mulheres – sobretudo as dos territórios – no centro da implementação climática.O GAP de Belém, a princípio, atende o chamado da ONU Mulheres por um “GAP transformador, ambicioso em escopo, operacional em desenho e ancorado nos princípios de direitos humanos e de não deixar ninguém para trás”. A implementação nos próximos meses irá nos mostrar o potencial real de transformação e, nas próximas COPs, as consequências ambientais e sociais da promoção da equidade nas políticas climáticas.

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