24 Novembro 2025
"A imagem da tarde não sugere justamente a aproximação do entardecer, da aniquilação e da morte? Na concepção bíblica do tempo, o entardecer é o início de um novo dia. Não deixemos escapar o instante em que, no céu vespertino, brilha a primeira estrela", escreve Guy Aurenche, escritor, em artigo publicado por Garrigues Et Sentiers, 12-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
"Aqui estão as chaves para pensar o Cristianismo do terceiro milênio, oferecidas por um importante teólogo", é como a editora apresenta esse texto, do qual Guy Aurenche nos oferece algumas ressonâncias. Tomáš Halik, teólogo e filósofo checo, acolhe esse apelo e conduz-nos a uma reflexão apaixonada. Ele questiona a nossa forma de receber, e sobretudo de partilhar, a Boa Nova de Jesus. E tem boas razões para o fazer.
Eis o artigo.
"Não vivemos numa época de mudança, mas numa mudança de época": para além das palavras, realmente percebemos o desafio expresso nessa declaração do Papa Francisco? É como uma retomada das palavras do Galileu, 2000 anos atrás: "Muito bem, vou fazer uma coisa nova".
A provocação evangélica não nos é nova, mas merece ser meditada e, sobretudo, vivida num mundo onde palavras como ateísmo, descristianização, secularização, religião, fé e crença devem ser profundamente recontextualizadas. O autor acredita que certas formas de vivenciar a religião estão ultrapassadas e que a Igreja, em particular a Igreja Católica, abalada pela "crise dos abusos", é mais uma vez chamada a fazer a sua "revolução". Não para agradar, nem para propor uma "contracultura" a um mundo sozinho e abandonado, mas para ser fiel à força da mensagem original.
Tarde
Halik usa essa palavra, inspirando-se no psicanalista Jung, que dividiu a vida em diferentes momentos: a manhã, quando o indivíduo recebe e acolhe múltiplas ideias, propostas, desejos... Depois, o meio-dia, tempo do questionamento, da crise com suas alegrias e tristezas, de desânimo e da raiva. A tarde oferece um período de aprofundamento, sabedoria, reorganização e renovação, para avançar rumo ao crepúsculo que oferecerá a alegria de perceber a primeira estrela no céu.
Mais do que nunca, a fé não é uma série de propostas, dogmas, instituições, princípios morais; a fé é um caminho, no seguimento de Abraão, Moisés, Jesus... Um caminho com... Um caminho que deve levar em conta o contexto e as novas mentalidades. Tomáš Halik discute o fim da cristandade, o desmoronamento das grandes ideologias, da derrota relativa da razão (após duas grandes guerras mundiais) e uma terceira era do Iluminismo, cautelosa com as instituições políticas e econômicas que constroem um indivíduo sem religião, mas não sem espiritualidade.
Busca espiritual
O autor descreve as características de uma sociedade pós-moderna e pós-secularizada na qual "a cristandade desmorona". No âmago do capitalismo, o autor percebe o "moeda-teísmo" dominador e inspirador das novas regras de vida, mas também de novos apetites espirituais. O Concílio Vaticano II tentou promover uma transformação, mas Halik se questiona sobre sua plena aceitação pelo povo católico. O autor vê o retorno ao tradicionalismo como uma "doença infantil da Igreja" sem um futuro evangélico frutífero.
O identitarismo leva a comportamentos intolerantes e violentos. A religião, como proposta espiritual organizada, institucionalizada e regulamentada, já teve seu tempo, sob todos os pontos de vista. Mas hoje, "o futuro do cristianismo dependerá da medida em que os cristãos entrarão em relação com aquelas pessoas em busca espiritual". "Estou à porta e bato", dizia Jesus, ele também ao lado de muitos "marginalizados" ignorados pelas grandes instituições.
O entardecer do cristianismo: a coragem de mudar, de Tomas Halik (Foto: Divulgação)
A fé dos não crentes, uma janela para a esperança
Fé e ceticismo, confiança e dúvida, questionamentos críticos e incertezas se misturam de forma desconfortável. Uma estadia mais ou menos longa em certos mosteiros, as propostas espirituais orientais, sem mencionar a comercialização, a banalização ou a manipulação da espiritualidade, nos convidam a superar a distinção entre crentes e ateus. Estes últimos "já não sabem mais em qual deus não creem mais". Tudo é mais complicado. Nossos contemporâneos rejeitam tanto "o infantilismo de certas abordagens da religião" quanto "a barbárie sem deus". Eles não são desprovidos de interesse espiritual nem de uma certa busca por sua origem. "Por que a sede lançaria dúvidas sobre a existência da fonte?" A dúvida não impede de crer. Para além da ambiguidade da palavra deus, duvidar não impede de ter a audácia de acreditar que "talvez a morte não tenha a última palavra". Os cristãos descobrirão a fé dos "não crentes" e se interessarão por ela a ponto de transformá-la numa riqueza para o acolhimento a Boa Nova cristã, sem apostar no proselitismo, mas com confiança e esperança.
A meditação da "tarde" exige que o "cristianismo transcenda a si mesmo". Rumo a uma verdadeira "catolicidade-universalidade" que pressupõe a plena integração da diversidade e da criatividade. Se a fé é "culturalmente situada", deve levar em conta as "alegrias e tristezas" dos homens e mulheres de hoje e fazer do encontro sua prioridade absoluta.
"A identidade do cristianismo"
O cristianismo se baseia na confiança no testemunho de Jesus sobre o Pai, sem esquecer as noites da cruz, as noites da nossa sociedade. "A identidade cristã da fé se dá pela sua repetida entrada no drama pascal da morte e da ressurreição." Tomáš Halik convida até a uma "abertura solidária diante da revelação de Deus no sofrimento dos homens daquele tempo".
Ele espera que “nossa relação com o humanismo não religioso não seja superficial” e que aceite penetrar realmente “na escuridão da cruz”.
Deus acredita em nós, nos vários sentidos dessa expressão. Ele caminha conosco. Ele dá confiança ao homem.
Deus expressa sua presença vivendo seu amor em nós; em todos e todas, inclusive naqueles que definimos como não religiosos. Ele nos convida a conformar nossas ações a esse amor exigente. Ele se manifesta no amor dos homens, até mesmo dos cristãos “anônimos”. Essa é a mensagem da encíclica Fratelli tutti, do Papa Francisco. Deus acredita em nós no sentido de que cresce dentro de nós. É bom assumir o risco de lhe dar um pouco de espaço. De deixar que ele nos coloque em movimento. E responder conscientemente ao seu chamado: “Vinde, segui-me”.
Uma comunidade em caminho
O Papa Francisco falava de hospital de campanha, não para minimizar a importância da comunidade eclesial, mas para descrever suas novas características. A Igreja perdeu o monopólio da fé e deve tentar responder aos "novos" apetites espirituais e interpretar os "sinais dos tempos", sem triunfalismos e sem complexos. Deve criar "oásis de espiritualidade" acessíveis a todos que enfrentam os "ventos do medo". O autor enfatiza, em particular, as propostas de "acompanhamento" que a Igreja poderia oferecer a todos e a todas, mesmo fora do círculo dos frequentadores assíduos. Deve, então, equipar-se com os novos meios necessários para comunicar com aqueles e aquelas que estão fora do seu percurso. Sem cair na tentação de um "catolicismo sem cristianismo", que se limita a repetir práticas sem se preocupar com os homens e mulheres ao seu redor, nem com a mensagem de Jesus que nos convida a segui-lo. Deve acompanhar os sinais de esperança. Deve descobrir e testemunhar Cristo na "Galileia pagã de hoje". Passar da catolicidade como sistema para a "catolicidade de abertura permanente". E ter a coragem de avançar com confiança nas nuvens do mistério. E nos imergir, por que não, em muitos, talvez juntos, na leitura desse livro, que nos cativará... por muito mais tempo do que uma tarde.
A imagem da tarde não sugere justamente a aproximação do entardecer, da aniquilação e da morte? Na concepção bíblica do tempo, o entardecer é o início de um novo dia. Não deixemos escapar o instante em que, no céu vespertino, brilha a primeira estrela.
Leia mais
- “O entardecer do cristianismo” prepara o palco para uma mudança corajosa. Artigo de Todd C. Resma
- Entardecer do cristianismo. Um comentário ao novo livro de Tomáš Halík
- O entardecer como kairós. Comentário do novo livro de Tomáš Halík
- Tomáš Halík: “A Igreja precisa de aliados, se souber abordá-los sem arrogância”
- "A Igreja deve passar por uma reforma profunda". Entrevista com Tomáš Halík
- Tomas Halík: “O Sínodo é uma oportunidade para escutar juntos o que o Espírito diz às Igrejas hoje”
- Ideias e paixões para a Igreja na Europa. Artigo de Tomáš Halík
- Reconstruir a ‘humanitas’ e (re)pensar Deus em um paradigma pós-teísta
- O novo humanismo do Papa Francisco: ser pessoas normais, concretas, simples, com o pé no chão
- “Um capítulo na história do cristianismo está chegando ao fim”. Entrevista com Tomáš Halík
- Abraçar as feridas do mundo, de si mesmo e de Cristo, segundo Tomáš Halík
- Igrejas fechadas: um sinal de Deus? Artigo de Tomáš Halík
- “Este é o momento de avançar para águas mais profundas.” Artigo de Tomáš Halík
- Teólogo Tomáš Halík entrega ao papa carta pedindo reformas