O Papa sobre o caso Rupnik: "É muito difícil pedir paciência às vítimas"

Foto: Luciano Beserra | Unsplash

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05 Novembro 2025

  • A questão da Cisjordânia e dos colonos é complexa: Israel diz uma coisa e faz outra.

  • Eu exortaria as autoridades a permitirem que agentes pastorais atendam às necessidades dessas pessoas. Muitas vezes, elas estão separadas de suas famílias há muito tempo; ninguém sabe o que está acontecendo com elas. Suas necessidades espirituais devem ser respeitadas.

A informação é publicada por Religión Digital, 05-11-2025. 

“Diálogo” entre Estados Unidos e Venezuela, “justiça para todos os povos” no Oriente Médio, convite ao respeito dos “direitos espirituais” dos migrantes detidos nos Estados Unidos, e preocupação com as mortes no trabalho. Assim se expressou o Papa Leão XIV às portas de sua residência em Castel Gandolfo, respondendo às perguntas dos jornalistas que o aguardavam nesta tarde diante da Villa Barberini.

Ao sair pouco antes das 20h30, após um rápido cumprimento às pessoas na rua, o Papa parou diante dos microfones e câmeras e, em primeiro lugar, recordou a festa das Forças Armadas celebrada hoje na Itália: “Parabéns! Um país tem o direito de ter militares para defender a paz, para construir a paz”.

Partindo dessa premissa, o Pontífice observa com preocupação as tensões destes dias no litoral da Venezuela, entre a luta contra o narcotráfico e o deslocamento de fuzileiros navais norte-americanos no Caribe, com a ameaça latente de uma “guerra fria”. “Creio que com a violência não se ganha nada”, afirma o Papa, explicando que, há poucos minutos, tinha lido uma notícia sobre a aproximação de navios de guerra à costa venezuelana. “O que é preciso fazer é buscar o diálogo, uma forma justa de encontrar soluções para os problemas que possam existir em algum país.”

Paz no Oriente Médio

O olhar se volta depois ao Oriente Médio, com a trégua ameaçada por novos ataques israelenses em Gaza, além da provocação de hoje de colonos na Esplanada das Mesquitas e o assalto a algumas aldeias na Cisjordânia.

A trégua “é muito frágil”, afirma Leão XIV, expressando, no entanto, uma opinião positiva no sentido de que “pelo menos a primeira fase do acordo de paz (o assinado em 10 de outubro passado) segue adiante”. Agora, porém, sublinha o Papa, “é preciso buscar uma forma de passar à segunda fase, examinar o tema do governo, como garantir os direitos de todos os povos”. “A questão da Cisjordânia e dos colonos é realmente complexa: Israel disse uma coisa e depois, às vezes, faz outra”, destaca. É necessário “tentar trabalhar juntos pela justiça para todos os povos".

O Papa, em Castel Gandolfo, Vaticano. | Foto: RD

Necessidades espirituais dos migrantes nos Estados Unidos

Ao Papa Leão também foi feita uma pergunta sobre Chicago, sua cidade natal, onde as autoridades proibiram sacerdotes católicos de dar comunhão a migrantes detidos. O Pontífice recorda, antes de tudo, que “o papel da Igreja é pregar o Evangelho”. Nesse sentido, cita o Evangelho de Mateus, capítulo 25, “onde Jesus diz muito claramente: no fim do mundo, seremos questionados: como acolhestes o estrangeiro? O acolhestes ou não?”.

“Creio que é preciso refletir profundamente sobre o que está acontecendo”, sublinha Leão XIV. “Muitas pessoas que viveram durante anos sem nunca causar problemas foram profundamente afetadas pelo que está acontecendo agora.” Portanto, ele convida a levar em conta também os direitos espirituais das pessoas detidas: “Sem dúvida, convidaria as autoridades a permitir que os agentes pastorais cuidem das necessidades dessas pessoas. Muitas vezes elas estão separadas de suas famílias há muito tempo, ninguém sabe o que está acontecendo... mas suas necessidades espirituais devem ser respeitadas.”

O trabalho, um direito humano

Na breve entrevista com os jornalistas, não faltou um comentário sobre o tema do trabalho, em vista do próximo Jubileu do Mundo do Trabalho e à luz dos numerosos casos de mortes no trabalho, na Itália e em outros lugares, como o do operário de 66 anos que perdeu a vida no desabamento da Torre dei Conti, em Roma. “A voz da Igreja está a favor dos direitos. Acreditamos que realmente devemos trabalhar todos juntos. É um direito humano ter um trabalho digno, no qual se possa também ganhar o sustento para o bem de sua família”, diz o Papa, reiterando sua preocupação com a segurança e afirmando que a celebração do Jubileu também pretende “dar um pouco de esperança e tentar unir forças para encontrar soluções e não apenas comentar os problemas.”

Lourdes: os mosaicos de Rupnik, cobertos

Por fim, antes de despedir-se e regressar ao Vaticano, uma última pergunta sobre o ex-jesuíta Marko Ivan Rupnik, acusado de abusos por algumas religiosas, cujo caso é objeto de processo no Dicastério para a Doutrina da Fé. Em particular, foi questionado sobre as obras de arte de Rupnik, conhecido artista e mosaicista, que ainda se encontram em vários locais sagrados — algumas delas cobertas após pedidos e protestos das vítimas.

“Certamente, em muitos lugares, precisamente pela necessidade de ser sensível com quem denunciou ter sido vítima, as obras de arte foram cobertas, retiradas de sites. Portanto, essa questão é algo de que temos plena consciência”, respondeu Leão XIV.

Ele lembrou, em seguida, que “recentemente foi iniciado um novo processo” contra o ex-jesuíta: “Os juízes já foram nomeados, e os processos judiciais requerem muito tempo. Sei que é muito difícil para as vítimas pedir-lhes paciência. Mas a Igreja deve respeitar os direitos de todas as pessoas. O princípio da presunção de inocência até que se prove o contrário também se aplica na Igreja. E esperamos que este processo, que acaba de começar, possa trazer clareza e justiça a todas as pessoas envolvidas.”

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