Crítica ao Estado profundo de Dugin. Artigo de Glauber Lopes Xavier

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01 Novembro 2025

"A crise do capitalismo é, também, a crise das democracias ocidentais. As razões ocultas do Estado profundo se tornam frágeis na exata medida em que o modo de produção capitalista se vê incapaz de acomodar suas crises", escreve Glauber Lopes Xavier, professor adjunto da Universidade Estadual de Goiás.

Eis o artigo.

Em artigo publicado pelo geopolítico russo Alexander Dugin em outubro de 2024, este afirma que há um Estado profundo nas democracias liberais do Ocidente e que este Estado tem sido exposto por alguns governos, a exemplo do governo de Donald Trump nos Estados Unidos e no governo de Erdogan na Turquia. Neste último caso, o Estado profundo ancorado no kemalismo, modelo político empregado após a ascensão de Kemal Ataturk ao poder, repousaria no secularismo, nacionalismo, progressismo, modernismo, europeísmo etc. Nos EUA o Estado profundo teria como núcleo o Conselho de Relações Exteriores, criado durante o governo de Woodrow Wilson.

A tese de Dugin seria defensável desde que não tivesse ignorado um aspecto fundamental: o capitalismo. Em seu artigo, ele afirma que apenas os regimes comunistas e fascistas podem dispensar um Estado profundo, sendo este uma espécie de apanhado de razões ocultas por meio das quais as democracias liberais burguesas do Ocidente se sustentam. Dugin recai em simplificações ao afirmar que apenas com o governo de Trump este Estado profundo estaria sendo confrontado. Ora, todo e qualquer país capitalista requer que as verdadeiras causas de sua existência sejam escamoteadas. Por vezes para salvar o capitalismo impõe-se a necessidade do fascismo, escancarando a natureza do Estado.

Afinal de contas, com o fascismo o capitalismo pôde ser assegurado e, mais do que isto, ele recebeu amplo apoio do Estado. Nenhum Estado pode sobreviver sem ideologia e o fascismo é a ideologia do capitalismo em seu estado crítico em que as massas ficam desesperadas e curvam-se aos que se apresentam enquanto líderes fortes e capazes de trazer alguma espécie de salvação. O mesmo Trump que Dugin parece defender por estar revelando a natureza falsa e ideológica do globalismo e da democracia liberal ocidental é aquele que tem promovido toda sorte de arbitrariedades elegendo como alvo a população imigrante e LGBTQIAPN+.

Reconhecer isto não implica em ignorar que esse mesmo capitalismo tem se ancorado em pautas supostamente universais, de direitos humanos e de defesa de grupos minoritários, para disseminar ideais e induzir comportamentos que sejam vantajosos à economia capitalista, ocultando, assim, o conflito de classes que é subjacente à sociedade burguesa. Dugin transfere para o campo das ideologias políticas (liberalismo, fascismo, comunismo) a problemática que é intrínseca ao modo de produção capitalista, cujo convívio entre as forças produtivas e as relações de produção requer inexoravelmente um recurso ideológico.

O modo pelo qual o capitalismo contemporâneo se organiza tem dificultado demasiadamente a compreensão dos processos políticos. Enquanto Trump se coloca como um político outsider e que não compartilharia da ideologia globalitarista, ele empreende mudanças que são cruciais para a sobrevivência dos Estados Unidos enquanto grande potência. É provável que muitas delas seriam empreendidas mesmo por governantes democratas sob o verniz da democracia e dos direitos humanos. Putin, por sua vez, tenta reposicionar a Rússia na espectro da ordem global, reivindicando uma posição de destaque. Com a China não tem sido diferente, de tal modo que cada um tem lançado mão de recursos ideológicos conforme suas sociedades, valores e tradições.

Não discordamos de Dugin quando afirma que os EUA buscaram durante muito tempo a conversão de um Estado nacional em um império mundial. Todavia, isto não significa que em determinados momentos, e de acordo com os movimentos da economia global, o país tenha se voltado para si mesmo, ainda que em detrimento de seu projeto global de poder. Tal foi o caso quando, em 1971, Nixon decidiu romper com o padrão monetário que havia sido criado em Bretton Woods. Diante da impossibilidade de se manter o dólar vinculado ao ouro, tal ruptura tornou-se inegociável. É claro que se trata de um aspecto apenas, o da moeda, mas ele comporta grande importância. Dugin elaborou seus argumentos dando pouca importância aos processos econômicos e como eles alteraram a conduta dos EUA em relação ao mundo.

O que Trump busca, parece que desesperadamente, é evitar ao máximo que seja constituída uma nova ordem cuja relevância do dólar não seja a mesma, em que Rússia e China, principalmente, possam influenciar outros países por meio de acordos e blocos (a exemplo do Brics, OCX, Asean etc.) utilizando o comércio como arma. A tese do deep state, a princípio atraente, é bastante perigosa. Se não interpretada de modo cuidadoso ela pode induzir o leitor à conclusão de que os governos autoritários seriam melhores e que as bandeiras ocidentais das liberdades individuais e dos direitos humanos não teriam outro objetivo a não ser ancorar ideologicamente as democracias liberais. Em última instância ela questiona tudo aquilo que foi duramente conquistado pela classe trabalhadora, ainda que o movimento inaugural tenha sido a Revolução Francesa e a instauração de uma ordem burguesa.

Entendemos que não se trata apenas de uma crise do Ocidente, o que erroneamente conduz o intérprete a equivocada conclusão de que a razão histórica estaria no mundo oriental. Trata-se fundamentalmente de uma crise do modo de produção pela forma como tem se dado sua regulação. Uma crise, enfim, do modelo neoliberal. A suposta vitória do Oriente repousa na relação estabelecida entre o Estado e o mercado, em que o primeiro possui um papel central na vida econômica, ainda que para isto tais Estados conclamem as tradições conservadoras, valores familiares, religiosos dentre outros que se opõem ao modo de vida ocidental. Isto não implica em que o suposto sucesso seja resultado dessas mesmas tradições, costumes e valores, mas do rechaço a um modelo econômico que tem provocado ampliação das desigualdades e concentração de renda. A crise do capitalismo é, também, a crise das democracias ocidentais. As razões ocultas do Estado profundo se tornam frágeis na exata medida em que o modo de produção capitalista se vê incapaz de acomodar suas crises.

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