18 Outubro 2025
O pesquisador do Conicet e coordenador do CLACSO alerta para os riscos do capitalismo de plataforma e da falta de regulação estatal diante do avanço da inteligência artificial. Ele também propõe repensar o trabalho e os direitos em uma era marcada pela autonomia e precariedade.
A reportagem é de Mariano Zalazar, publicada por El medio, 11-10-2025.
Sociólogo, pesquisador do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Conicet) e coordenador do grupo de trabalho do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO), Diego Álvarez Newman analisa há anos as relações entre tecnologia, inteligência artificial e mercado de trabalho. Em entrevista ao El Medio, ele oferece uma perspectiva crítica sobre o que chama de "capitalismo de plataforma", um modelo que — alerta ele — está transformando profundamente as relações de trabalho e desafiando a capacidade dos Estados de regulá-lo.
Álvarez Newman explica que as plataformas digitais não surgiram do nada, mas sim em um contexto de "ondas de precarização" que remontam à década de 1970. Na sua perspectiva, o surgimento da inteligência artificial não cria precariedade, mas sim se baseia em estruturas trabalhistas já desregulamentadas. "A tecnologia surge com formas consolidadas de precariedade trabalhista", observa. Ele também alerta que a ausência de marcos regulatórios eficazes permite a consolidação de uma "discricionariedade corporativa" que transcende fronteiras, onde disputas trabalhistas ou tributárias são resolvidas em tribunais estrangeiros.
O pesquisador também reflete sobre o papel do Estado e dos sindicatos nesse novo cenário. Ele argumenta que os Estados perderam seu papel central como garantidores de direitos e que os sindicatos precisam repensar seu papel, abandonando sua postura defensiva e desenvolvendo propostas concretas de reforma trabalhista adaptadas às mudanças tecnológicas. Nesse sentido, ele considera fundamental incorporar a noção de autonomia – altamente valorizada pelos jovens trabalhadores e por aqueles que atuam na economia de plataforma – a um novo pacto social.
Em relação ao avanço da inteligência artificial, Álvarez Newman alerta para a concentração de poder tecnológico e a falta de transparência nos algoritmos que regem grande parte da vida digital. "Devemos exigir que os códigos de design dos algoritmos sejam tornados públicos; caso contrário, estaremos sempre atrasados", afirma. Ele argumenta que a regulamentação deve ocorrer em diferentes níveis – global, regional e nacional – e que a América Latina ainda está atrasada nessa discussão.
Por fim, o pesquisador propõe repensar a relação entre tecnologia e o significado humano do trabalho. "Estamos delegando capacidades às máquinas e submetendo nossas habilidades a uma lógica de mercado e eficiência que não representa quem somos", afirma. Seu apelo visa resgatar uma perspectiva social e ética sobre o futuro do emprego, em um contexto em que plataformas e inteligência artificial estão remodelando as regras do jogo.
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