Os três grandes motores da insegurança alimentar. Artigo de Ricardo Abramovay

Foto: billycm | Pixabay

Mais Lidos

  • A ascensão e queda de Fernando Cerimedo, o principal conselheiro da extrema-direita latino-americana

    LER MAIS
  • China e Canadá enfrentam Trump: "Se eles atacarem vocês, é como se estivessem em guerra"

    LER MAIS
  • “Na atualidade, 147 Terras Indígenas, 37% do total na Amazônia, estão em bacias hidrográficas impactadas pelo garimpo, e 19 possuem atividade garimpeira em seu interior”, alerta a pesquisadora

    Mudanças climáticas e garimpo ampliam riscos à saúde indígena. Entrevista especial com Sandra Hacon

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

13 Setembro 2025

"Não é a escassez o maior problema, mas uma tríplice monotonia. O Agronegócio impõe alimentação pouco diversa, a pecuária predatória espalha doenças e a oferta de ultraprocessados só cresce. Mas na América Latina despontam os bioinsumos".

O artigo é de Ricardo Abramovay, professor titular da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP, publicado por Outras Palavras, 11-09-2025.

Eis o artigo.

A COP30 é uma excelente oportunidade para que se redefina a segurança alimentar, até aqui sistematicamente associada a produzir cada vez mais. No entanto, as conquistas científicas e os dispositivos tecnológicos, que foram fundamentais para o aumento das safras e a drástica redução da fome na segunda metade do século XX, se converteram hoje na mais importante ameaça à segurança alimentar global. O que nos ameaça não é mais a escassez. É o excesso.

O sistema agroalimentar global é marcado por uma tríplice separação: a agricultura separou-se da biodiversidade; as factory farmings separaram os animais de criação das fontes de sua alimentação e a alimentação se separou da saúde. Esta tríplice separação se exprime, por sua vez, numa tríplice monotonia.

A primeira monotonia é a da agricultura. A humanidade conhece mais de sete mil produtos comestíveis, dos quais quatrocentos são cultiváveis. No entanto, 75% de nossa alimentação vem de apenas seis produtos: soja, milho, trigo, cana-de-açúcar, arroz e batata. E estes produtos são obtidos com base em técnicas que transformaram microorganismos, insetos, fungos e, de forma geral, a biodiversidade em inimigos a serem eliminados por meio de técnicas que fazem do combate à vida a base do aumento da produtividade. Esta é a dupla face da monotonia agrícola e do excesso que a caracteriza: ela se revela nos produtos e nas técnicas para obtê-los.

A segunda monotonia vem da homogeneidade das raças e das técnicas produtivas na produção animal, num regime que tortura sistematicamente seres dotados de inteligência e sensibilidade com consequências desastrosas sobre a saúde humana, expressas no avanço da resistência antimicrobiana, uma das mais sérias preocupações atuais da Organização Mundial da Saúde, em função das chamadas “superbactérias”.

E a terceira monotonia é a da alimentação, com a oferta crescente de ultraprocessados, produtos que nem deveriam ser chamados de comida. O escritor norte-americano Wendell Berry o exprime de forma emblemática, quando diz que a indústria alimentar não se preocupa com a saúde e a indústria da saúde não se preocupa com os alimentos.

Esta tríplice monotonia está sendo cada vez mais contestada, não apenas por cientistas e ativistas, mas pelo Banco Mundial, pelo Grupo Consultivo em Pesquisa Agrícola Internacional e mesmo por organizações como o Fórum Econômico Mundial e o grupo financeiro Mitsubishi, sétimo maior grupo financeiro global que acaba de publicar um relatório alertando para os perigos dos ultraprocessados e do uso de antibióticos na produção animal.

A boa notícia vem da América Latina: é aqui que estão emergindo as bases científicas que vão permitir ultrapassar os dispositivos da Revolução Verde, por meio de um conjunto de bioinsumos dos quais Brasil, Argentina e Colômbia ocupam hoje a vanguarda global. Além disso, os próprios fazendeiros nas regiões produtoras de soja, no Brasil, começam a contestar sua dependência de insumos químicos que erodem seus solos e corroem seus rendimentos.

O sistema agroalimentar é apenas um exemplo daquilo que, de forma geral, podemos chamar de economia do excesso. Não se trata de se opor ao crescimento econômico, mas sim ao crescimento daquilo que compromete o bem-estar das sociedades contemporâneas, promovendo o que melhora a vida social e rejeitando o que agride a saúde humana, o bem estar-animal e compromete serviços ecossistêmicos dos quais todos dependemos. A segurança alimentar do século XXI está na abundância da vida e não no excesso daquilo que a destrói.

Leia mais