13 Setembro 2025
“O que eles não mencionam é que a maior parte do dinheiro do tráfico de drogas permanece e é lavado no sistema financeiro dos EUA; o que eles não mencionam é que o tráfico de drogas é um negócio capitalista criminoso cuja rede atravessa os Estados Unidos. O que eles não mencionam é que o tráfico de drogas é um dos negócios mais lucrativos da globalização neoliberal. O que eles não mencionam é que os grandes capitalistas financeiros não estão interessados em acabar com o negócio mais lucrativo, cujas redes estão espalhadas por todo o planeta”. A reflexão é de Natalia Sierra, socióloga equatoriana, em artigo publicado por Desinformémonos, 11-09-2025. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Em um processo gradual, iniciado na década de 1960 e com picos de intensificação nas décadas de 1970 e 1980, os Estados Unidos lançaram a “Guerra às drogas” na América Latina. Em 1961, foi assinada a Convenção Única sobre Entorpecentes, da ONU, um tratado internacional que lançou as bases para o controle global das drogas e que os Estados Unidos posteriormente usariam para pressionar outros países. Em 1971, Richard Nixon declarou formalmente a “Guerra às drogas”, chamando o abuso de drogas de “inimigo público número um” dos Estados Unidos. Essa declaração inicialmente se concentrou no consumo doméstico, mas lançou as bases para a política externa. Em 1973, Nixon criou a DEA, a agência federal encarregada de combater o tráfico de drogas dentro e fora dos Estados Unidos. A criação da DEA institucionalizou o alcance internacional dessa “guerra”.
Desde 1980, a guerra se internacionalizou e militarizou, avançando maciça e agressivamente para a América Latina. Alegaram querer atacar o problema na origem: a produção e o tráfico nos países produtores, em vez de se concentrarem apenas na redução da demanda interna. Em 1990, essa guerra foi consolidada com o Plano Colômbia, que, apresentado como um plano abrangente de ajuda que integrava paz e desenvolvimento, foi executado como um esforço massivo de militarização, com bilhões de dólares em auxílio a conselheiros militares dos EUA, fumigação aérea de plantações de coca com glifosato e treinamento de forças especiais colombianas. O Plano Colômbia é o exemplo mais claro e caro da exportação do modelo de “guerra” para a região. A pulverização danificou plantações lícitos, afetou a saúde da população e causou deslocamentos forçados. Isso foi agravado pela escalada da violência e pelo aprofundamento das violações sistemáticas dos direitos humanos.
Na primeira década deste século, a guerra às drogas se deslocou para o México e a América Central com a Iniciativa Mérida, lançada em 2008 e conhecida como “Plano México”. Assim como na Colômbia, esse plano consistiu em outro enorme pacote de ajuda econômica para a aquisição de equipamentos militares, tecnologia de vigilância e treinamento, que provocou extrema violência. A militarização da luta contra os cartéis desencadeou uma onda de violência brutal que deixou centenas de milhares de mortos e desaparecidos, sendo o caso mais triste e emblemático o dos 44 alunos da Escola de Formação de Professores de Ayotzinapa. A estratégia de “decapitar” os chefões do tráfico fragmentou os cartéis, multiplicando grupos criminosos e aumentando a violência. Além disso, levou a uma infiltração em massa nas instituições políticas, policiais e judiciais em todos os níveis e a uma violação sistemática dos direitos humanos da população.
Após quase meio século de guerra às drogas na América Latina, o resultado foi um fracasso total, pois o negócio do tráfico se fortaleceu e se espalhou por todo o continente. O custo humano para nossos países tem sido altíssimo: milhares de pessoas foram assassinadas, desaparecidas, torturadas, presas e deslocadas. Os direitos humanos têm sido cada vez mais violados pelo Estado e por grupos criminosos. A crescente militarização da segurança pública enfraqueceu ainda mais a precária democracia da América Latina. O tráfico de drogas se vinculou a outros negócios ilícitos, como o tráfico de pessoas, órgãos e armas, coiotes, mineração ilegal e assim por diante, consolidando e fortalecendo o capital criminoso na região. As fumigações causaram destruição ambiental e sérios danos à saúde dos moradores das áreas afetadas.
Todo esse desastre chegou a tal ponto que o próprio ex-presidente dos EUA, Barack Obama, reconheceu o fracasso da guerra às drogas, reconhecimento este afirmado pelo ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos, outros líderes regionais e pela própria Organização das Nações Unidas.
O que eles não reconhecem é que, no contexto da Guerra Fria, usaram a guerra às drogas para combater o avanço do comunismo na região e intensificar a intervenção militar. Tampouco reconheceram que Washington a transformou em uma importante ferramenta de pressão sobre os governos latino-americanos. Menos ainda, reconheceram que usaram a rede de tráfico de drogas dos “Muchachos de Blandón”, ligada ao cartel de Cali e ao dealer [traficante] estadunidense “Freeway” Ricky Ross, que vendia toneladas de cocaína no sul da Califórnia na década de 1980, para financiar os Contras da Nicarágua. A ligação geral entre a CIA e os Contras com o tráfico de drogas foi exposta pelo jornalista Gary Webb (1998). De acordo com suas investigações, a CIA permitiu e protegeu essas operações de tráfico de drogas para não prejudicar o fluxo de dinheiro para os Contras, uma das principais prioridades do governo Reagan.
O que eles não mencionam é como as intervenções militares dos EUA frequentemente estimularam a produção de drogas, como por exemplo no Afeganistão, que, durante os 20 anos em que esteve sob ocupação estadunidense, tornou-se o maior narcoestado do mundo (Harp, 2025). O que eles não mencionam é que a maior parte do dinheiro do tráfico de drogas permanece e é lavado no sistema financeiro dos EUA; o que eles não mencionam é que o tráfico de drogas é um negócio capitalista criminoso cuja rede atravessa os Estados Unidos. O que eles não mencionam é que o tráfico de drogas é um dos negócios mais lucrativos da globalização neoliberal. O que eles não mencionam é que os grandes capitalistas financeiros não estão interessados em acabar com o negócio mais lucrativo, cujas redes estão espalhadas por todo o planeta.
Apesar de toda essa verdade imposta aos nossos países, aos nossos territórios, às nossas vidas, e que causou tanto sofrimento aos nossos povos, agora temos que aceitar que, em nome da guerra às drogas, se tenta intervir diretamente com as armas mais pesadas na América do Sul. Querem que aceitemos a mentira de que a guerra às drogas, levada ao seu nível exponencial, é contra os “cartéis” de pescadores que traficam em lanchas, enquanto mega-navios exportadores partem, circulam e descarregam drogas à vontade, bem na cara das autoridades. Agora querem que acreditemos que seu interesse no Caribe é o combate às drogas, não como uma porta de entrada para o controle total da região, no contexto da guerra geopolítica dos EUA com a China. Agora querem que acreditemos que estão atrás de Maduro, quando estão atrás dos recursos do nosso continente (petróleo, gás, água, lítio).
Finalmente, verifica-se que a guerra às drogas não foi um fracasso, mas um sucesso completo, pois criou um cenário caótico e violento no continente, proporcionando o cenário perfeito para a imposição da política do Pentágono na região. Agora, com o êxito de sua guerra, buscam se entrincheirar na América Latina em sua disputa hegemônica com o eixo eurasiano e se aproveitam do caos, da desordem e do autoritarismo que causaram para, mais uma vez, fazer de nossos territórios “seu quintal”. A declaração do vice-presidente J. D. Vance de que não se importa nenhum pouco com o fato do assassinato de 11 cidadãos de outra nação ser um crime de guerra, nos alerta sobre o que o governo dos EUA planeja fazer na América Latina, pois eles não se importam conosco, assim como não se importam com o direito internacional.
Referências
Harp, S. (2025) The Fort Bragg Cartel: Drug Trafficking and Murder in the Special Forces. O livro expõe a participação das Forças Armadas Especiais dos Estados Unidos no narcotráfico e em assassinatos.
Webb, G. (1998) Dark Alliance: The CIA, the Contras, and the Crack Cocaine Explosion.
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