30 Agosto 2025
"O escândalo não se limita ao gênero. O problema é ainda mais profundo: a Igreja não marginaliza apenas as mulheres, mas também os leigos em geral. Segundo a doutrina oficial, os leigos 'participam da vida da Igreja', mas, na prática, são relegados a recolher as migalhas que caem da mesa clerical", escreve José Carlos Enríquez Díaz, em artigo publicado por Ataque al Poder, 28-08-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O recente episódio no Santuário de Guadalupe, na diocese de Saltillo, onde o Bispo Emérito Raúl Vera López permitiu que a presbítera anglicana Emilie Smith participasse ativamente da Eucaristia, gerou uma onda de críticas. Segundo a InfoCatólica, foi cometido um sacrilégio gravíssimo, pois a mulher não apenas subiu no altar, mas também recitou parte da Oração Eucarística e até ergueu o cálice já consagrado.
As mídias mais conservadoras apressaram-se em apontar o óbvio: que o Direito Canônico proíbe esse tipo de intervenção. O Cânon 907 estabelece que leigos não podem recitar orações próprias do sacerdote nem realizar atos reservados ao celebrante. O Cânon 1367 fala até mesmo de sacrilégio. E a "Institutio Generalis Missalis Romani" confirma que a oração eucarística e a elevação das oferendas são de responsabilidade exclusiva do padre.
Até aqui, nada de novo sob o sol.
O aparato jurídico da Igreja é claro: somente o padre pode tocar, pronunciar e consagrar. Mas o que é verdadeiramente preocupante não é a letra fria do Direito Canônico, mas a hipocrisia estrutural subjacente a essa indignação.
A Igreja que esquece o Evangelho de Jesus de Nazaré jamais proibiu as mulheres de desempenhar um papel significativo em sua missão. Pelo contrário: foram as mulheres as primeiras testemunhas da Ressurreição, foram as mulheres que sustentaram economicamente sua pregação e foram as mulheres que permaneceram fiéis aos pés da cruz quando os apóstolos fugiram. O Evangelho apresenta Marta, Maria, Madalena, a Samaritana, todas interlocutoras diretas de Cristo.
No entanto, a Igreja institucional ergueu um muro de exclusão. Sob o pretexto da "tradição apostólica", a mulher é sistematicamente impedida de ter acesso ao ministério, condenando-a a papéis secundários ou decorativos. E quando alguma, como Emilie Smith, ousa cruzar essa fronteira simbólica, não hesitam em rotulá-la de sacrílega e profana.
A pergunta é inevitável: é um sacrilégio para uma mulher erguer o cálice ou é um sacrilégio negar-lhe o direito de fazê-lo?
Os leigos: mendigos de migalhas
O escândalo não se limita ao gênero. O problema é ainda mais profundo: a Igreja não marginaliza apenas as mulheres, mas também os leigos em geral. Segundo a doutrina oficial, os leigos "participam da vida da Igreja", mas, na prática, são relegados a recolher as migalhas que caem da mesa clerical.
Nas paróquias e "unidades pastorais", os leigos realizam o trabalho mais pesado: organizam, mantêm, pagam, animam e sustentam a vida comunitária. No entanto, quando chega o momento crucial — a liturgia, a pregação e a tomada de decisões — a porta lhes é fechada na cara. Eles não podem presidir, não podem consagrar, não podem proferir homilias.
Mal conseguem ler as leituras ou passar a cesta de coleta.
Não seria essa uma forma de desprezo institucionalizado?
Enquanto isso, as igrejas estão se esvaziando, as vocações sacerdotais estão desaparecendo e mais e mais igrejas estão fechando. A solução pastoral do clero tem sido inventar macrounidades pastorais nas quais um único padre serve aquelas que antes eram dez paróquias. O resultado: fiéis órfãos, comunidades desagregadas e um sistema pastoral que não serve para nada.
E, no entanto, se recusam a reconhecer o óbvio: sem os leigos, não há Igreja. Mas aos leigos é negada toda autoridade sacramental e qualquer capacidade real de tomada de decisão.
Direito Canônico vs. Evangelho
O incidente de Saltillo mais uma vez evidencia a tensão entre a letra morta do Direito Canônico e a vida do Evangelho. Jesus não estabeleceu um código legal; Jesus pregou um Reino aberto a todos, sem distinção de sexo, classe ou ritos.
O legalismo clerical transforma a fé em uma gaiola. Aquela que deveria ser uma mesa compartilhada torna-se prerrogativa exclusiva de homens celibatários. Aquela que deveria ser uma celebração do Povo de Deus é reduzida a um ritual controlado por poucos, que monitoram com a máxima atenção quem toca, quem fala, quem se aproxima.
A obsessão em proteger a "pureza litúrgica" transforma-se, na prática, num insulto ao espírito do Evangelho. Porque o que importa não é quem levanta o cálice, mas que o cálice seja compartilhado.
O verdadeiro escândalo
O verdadeiro escândalo não foi a participação de uma mulher na oração eucarística. O verdadeiro escândalo é que, em pleno século XXI, a Igreja continua a considerar uma ameaça, o que, na realidade, é um sinal de esperança.
O verdadeiro escândalo é que preferem fechar as igrejas a abrir os ministérios a mulheres e leigos.
Preferem um clero exausto e com falta de pessoal a reconhecer que o Espírito sopra onde quer, mesmo sobre batizados que não usam o colarinho romano.
O verdadeiro escândalo é que, enquanto se discute se uma mulher anglicana levantou um cálice, milhões de católicos abandonam a Igreja por se sentirem excluídos, invisíveis e desprezados.
Conclusão: se a Igreja continuar fechada em seus cânones, continuará a morrer lentamente, sem necessidade de perseguições externas. O mundo não precisa de uma Igreja que repita fórmulas jurídicas, mas de uma Igreja que encarne o Evangelho de Jesus. E esse Evangelho nunca negou às mulheres ou aos leigos o acesso ao coração da comunidade.
O que aconteceu em Saltillo não deveria ser motivo de condenação, mas sim de reflexão.
Talvez o sacrilégio não tenha sido a elevação do cálice por Emilie Smith, mas sim o fato de ainda haver pessoas convencidas de que a graça de Deus pode ser um monopólio masculino.
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