29 Agosto 2025
"Agora é evidente que, em Gaza, Benjamin Netanyahu quer conquistar todo o território e forçar os palestinos a abandonarem suas terras por meio da dominação pela força. Mas quando um povo não está mais em sua terra, deixa de ser um povo. A ocupação faz parte de uma estratégia desumana, míope e sem saída". A deportação de um povo não pode ser aceita, alerta o Cardeal Jean-Paul Vesco, 63 anos, Arcebispo Metropolitano de Argel, respeitado conselheiro sobre o Islã na Cúria e um dos protagonistas do último conclave. Em Rimini, nos salões do Encontro de Comunhão e Libertação, o cardeal, originário de Lyon e membro do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso do Vaticano, comemorou os monges trapistas martirizados em Tibhirine há trinta anos. Antes da diocese de Argel, ele liderou a diocese de Oran, cujo bispo havia sido Pierre Claverie, um dominicano como Vesco, assassinado em 1996 e beatificado em 2018. Uma ponte norte-sul.
Nove meses atrás, Francisco pediu uma investigação para apurar se um genocídio estava ocorrendo em Gaza, lançando um apelo para salvar a dignidade humana. E agora? "Infelizmente, agora tudo está tragicamente claro, sem sombra de dúvida. Um genocídio está inegavelmente em andamento na Faixa de Gaza. A fome está sendo usada como arma de extermínio e massacra inocentes tanto quanto as bombas. A Europa é inerte. O mundo inteiro ouviu a impressionante leitura do Cardeal Matteo Zuppi dos nomes das 12.000 crianças que perderam a vida em Gaza, ninguém pode fingir não saber; a indiferença é cumplicidade com a política de morte de Netanyahu. A paz, como testemunha Leão XIV, se constrói no coração e a partir do coração, erradicando o orgulho e as reivindicações, e medindo a linguagem, pois se pode ferir e matar também com as palavras, não só com as armas".
A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 28-08-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Qual é a sua experiência?
Vivi na Terra Santa por dois anos, tanto em Jerusalém quanto na Faixa de Gaza, e a opressão insuportável do mais forte sobre o mais fraco já era sufocante antes de 7 de outubro. Se os israelenses não pararem o massacre perpetrado por seu governo, o Estado judeu ficará marcado para sempre. A ONU constatou que a fome em Gaza é um fenômeno deliberado, induzido pelo bloqueio das ajudas alimentares. A emergência humanitária atingiu proporções catastróficas, além de qualquer motivação lógica. Portanto, é preciso chamar as coisas pelo seu nome. O genocídio é a vontade de aniquilar a própria existência de um povo, e é exatamente isso que está acontecendo em Gaza. Não estamos diante de uma trágica fatalidade, mas, como diz a Caritas, do resultado de escolhas deliberadas e calculadas. Um povo inteiro, privado de sustento, está sendo abandonado à própria sorte.
Zuppi legge i 12mila nomi delle piccole vittime israeliane e palestinesi a Bologna, chiesa di Casaglia a Monte Sole, luogo dell’eccidio del 1944.
— Gaetano La Rosa (@donga16) August 14, 2025
“Ogni bimbo è innocente” pic.twitter.com/Mmvp9DwoGl
A dor da impotência?
Desde o início, a Santa Sé e a Igreja universal têm se solidarizado com o sofrimento de todos, condenando o terrível ataque do Hamas. No tempo transcorrido, a matança sistemática de civis, os bombardeios de comboios de alimentos, a destruição de infraestruturas e a fome intencional pisotearam a dignidade humana e o direito internacional. Hoje, o mundo inteiro é refém do horror que se desenrola na Faixa e dos crimes de guerra cometidos pelo governo israelense. Exceto rezar e denunciar, não conseguimos fazer nada. Portanto, todos nos sentimos impotentes.
Quem realmente se importa com Gaza?
Em todo esse tempo, um cessar-fogo nunca foi alcançado. No entanto, o que está acontecendo em Gaza está precisamente na linha de um genocídio, e não podemos hesitar em dizê-lo; é um dever moral. Não se pode vencer contra um povo à custa da perda da própria alma. O que pode salvar a alma do Estado de Israel são os judeus que se posicionam contra a política de devastação de Netanyahu e que denunciam o agravamento da barbárie na Faixa de Gaza.
E nas comunidades cristãs nas terras muçulmanas como a sua? O que tudo isso comporta?
Desde o início da destruição da Faixa, organizamos momentos de oração e encontros em Argel, nos quais participaram os embaixadores palestino, estadunidense e muitos outros. São oportunidades preciosas, muito intensas e profundas para nos reunirmos e denunciarmos a tragédia de Gaza. Logo ressaltamos a injustiça em curso na Faixa. A paz é impossível sem justiça. E é evidente que os problemas não começaram em 7 de outubro. Já há vinte anos, quando eu morava lá, a injustiça era impressionante: o poder do mais forte sobre o mais fraco. Netanyahu não quis a solução de dois povos e dois Estados. Ele impediu que a Palestina se tornasse um Estado. Não se vê saída. Estamos encurralados em uma estrada fechada.
Teme que o ódio se espalhe muito além da Terra Santa?
Na Argélia, a Igreja não foi diretamente afetada. As pessoas sabem que, como cristãos, estamos alinhados com elas por Gaza. É uma causa que nos une. Uma causa comum, uma causa da civilização, jamais poderá nos dividir. A religião não tem nada a ver; trata-se de uma questão de domínio geopolítico, e o diálogo entre as religiões não está em discussão. Pierre Claverie dizia que ‘ninguém possui a verdade, todos a buscam, e eu preciso da verdade dos outros’. Como cristãos, não estamos divididos dos irmãos muçulmanos e argelinos, que são todos a favor de Gaza. No plano geral, a única solução continua sendo o diálogo. A escuridão deve ser respondida com a luz, como Francisco e o Imã de Al-Azhar fizeram com o Documento de Abu Dhabi. As diferenças religiosas não podem ser um pretexto para a violência ou um obstáculo à reconciliação. Aqueles que creem sinceramente, e não instrumentalmente, agem apenas pelo bem comum”.
Enquanto isso, o que a Europa está fazendo?
Muitas vezes nos perguntamos isso. Nasci na França, mas sou argelino, moro na Argélia. Penso, vivo e vejo as coisas da Argélia, e é muito diferente. Sobre imigração, políticas de paz, Ucrânia, o que a Europa está fazendo? Que voz tem? Que posição unitária tem? Na próxima semana, em Argel, nos reuniremos para rezar e invocar a paz na Ucrânia.
Leão XIV disse não a punições coletivas e a remoções forçadas de um povo de sua terra. Que impacto poderia ter?
O Papa é respeitado por todos e sua mensagem não conhece fronteiras. O chamado à consciência não permite ambiguidades. Repito: o Estado de Israel está cometendo um ato genocida. A indiferença é cumplicidade enquanto, diante dos olhos do mundo inteiro e da história, o assassinato de um povo pelas armas e pela fome está sendo perpetrado. Os grandes da terra assistem imóveis, e parecem não ter nenhum poder para parar o massacre que toda a humanidade vê se realizar. Civis, mulheres e crianças vítimas da barbárie e do silêncio.
Quem pode parar a guerra?
A teoria e prática parecem opostas. No papel, os poderosos do mundo e a comunidade internacional dispõem de meios e maneiras para agir, para intervir na tragédia de Gaza. Os Estados Unidos, em particular, teriam as ferramentas e a possibilidade de deter o governo israelense, mas sua incapacidade de silenciar as armas é apresentada a todos como um álibi, como se fosse um destino incontornável de morte e destruição ao qual não podemos nos opor.
Qual é o significado das bombas sobre a igreja?
A paróquia de Gaza é o emblema de uma vontade extrema de resistir ao mal: aquela igreja martirizada oferece abrigo e proteção a todos, não apenas aos cristãos, e ordenar sua evacuação significa apagar uma raríssima tocha na escuridão. Uma tentativa cruel de romper o vínculo de convivência entre cristãos e muçulmanos, que sofrem juntos e se apoiam mutuamente em uma situação que os vê igualmente vítimas. Uma condição de injustiça que há tempo os une em uma irmandade fortalecida pela desumana injustiça que compartilham. E, de fato, Leão XIV destacou a contribuição fundamental que o diálogo inter-religioso pode desempenhar para favorecer contextos de paz.
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