20 Mai 2025
A diretora Sepideh Farsi apresenta um documentário no festival sobre suas videochamadas de um ano com a fotógrafa de Gaza Fatima Hassouna, que morreu em um bombardeio israelense.
A reportagem é de Gregório Belinchón, publicada por El País, 18-05-2025.
"Sabe o que acontece? Eles nunca vão nos vencer, porque não temos nada a perder." Na tela, a fotojornalista palestina Fatima Hassouna sorri e confessa ao seu interlocutor, o veterano diretor iraniano Sepideh Farsi (Teerã, 60). Na realidade, como ela bem sabia, ela tinha algo a perder, sua vida, e isso foi tirado dela por um bombardeio do exército israelense no norte de Gaza em 16 de abril — dela e do que restou de sua família, 10 outros palestinos — apenas um dia depois de Farsi ligar para ela e dizer que o documentário que ele estava fazendo sobre ela, Put Your Soul on Your Hand and Walk, havia sido selecionado em Cannes.
Na competição francesa, Farsi fala com tristeza e raiva sobre uma mulher que ele nunca conheceu fisicamente. Em abril de 2024, a cineasta, que vive exilada em Paris, procurou uma mulher palestina para lhe contar como era a vida em Gaza, o cotidiano sob constantes ataques israelenses, após tentar, sem sucesso, entrar na faixa. Por meio de uma amiga em comum, ela conseguiu falar com uma jovem fotojornalista, Fátima Hassouna, que tinha 24 anos na época. Essa primeira videochamada já está no documentário, composta apenas por aquelas conversas que Farsi grava com um segundo celular, enquanto na primeira vemos as duas em tela dividida ou a mulher palestina sozinha, e de fotos tiradas por Hassouna, que se torna tão boa retratista da crueldade e da destruição cotidianas quanto narradora do que acontece com ela. Algo que ele faz com um sorriso permanente, evitando um tom lamentoso. Na verdade, você ouve mais reclamações sobre o farsi, porque eles sofrem quando a cobertura é ruim ou não conseguem se conectar.
Em pessoa, Farsi fala com veemência: "É um genocídio, um desastre humanitário em massa. E em breve teremos que prestar contas pela inação do Ocidente, sua falta de coragem em confrontar o massacre, porque os palestinos nos responsabilizarão." O cineasta, que mora na França desde 1984, queria mostrar o que estava acontecendo. Especialista em cinema comprometido, até 2009 ela entrava e saía de seu país natal, filmando documentários secretamente. Como ela destaca no filme, ela agora é caçada e nunca mais colocará os pés em Teerã.
Em cada conversa, Farsi aborda um tópico com Hassouna, além de perguntar como ela está se sentindo e quão feliz ele está em vê-la. Hassouna conta a ele sobre suas profundas crenças religiosas, seus pensamentos sobre o que está vivenciando, que ela nunca saiu de Gaza e não sairá durante a invasão e o cerco israelense. "Não posso. Quero estar aqui e poder contar aos meus filhos e netos sobre isso." Pouco a pouco, com confiança e semanas, Hassouna move a câmera: seu pai, um taxista, e seus irmãos (todos mortos em 16 de abril) aparecerão e se cumprimentarão, o público verá o bunker no qual se refugiam ou, em uma reviravolta devastadora da câmera, o que pode ser visto da janela de seu quarto: ruínas, escombros e mais ruínas. Como fotojornalista, ela era muito sistemática. Queria coletar imagens para que, quando chegasse a hora, seus filhos entendessem o horror ao qual ela havia sobrevivido.
Na abertura do Festival de Cannes, Juliette Binoche, atriz e presidente do júri, homenageia jornalista palestina Fatima Hassouna, assassinada por "israel" em 16 de abril, um dia após filme protagonizado por ela sobre o Holocausto Palestino ser selecionado em Cannes. pic.twitter.com/mhO5X2EFoN
— FEPAL - Federação Árabe Palestina do Brasil (@FepalB) May 13, 2025
Enquanto isso, Farsi está viajando pelo mundo acompanhando seu filme anterior, A Sereia, um filme de animação que estreou na Berlinale de 2023. Elas falam do Canadá, Roma, Paris, Atenas... Hassouna nunca aparece sem um lenço na cabeça, e ela é muito meticulosa com isso. Ela também não se entrega à desolação, embora chore quando fala e mostre fotos de seus parentes mortos pela invasão israelense, incluindo um primo de um ano. Em uma das ligações ele aparece timidamente feliz: ele se apaixonou. Em outra, o noivo aparecerá. Mais tarde, ele observa: adoraria ir a Roma ou visitar um parque de diversões. Contudo, a situação continua a mesma.
Com uma edição preliminar, Put Your Soul on Your Hand and Walk foi selecionado pela ACID (Associação do Cinema Independente para sua Difusão), uma das três competições — junto com a Quinzena dos Realizadores e a Semana da Crítica — realizadas em Cannes paralelamente ao evento principal. Daí a última chamada. Farsi lhe dá as boas novas, e Hassouna comemora exultantemente. A primeira convida a segunda para Cannes, e embora a palestina explique que adoraria, mas nunca poderá por causa dos controles israelenses, no fundo ambos entendem que ela nunca irá embora antes do fim da invasão. “Eu sinceramente pensei que sobreviveria.” No dia seguinte, 16 de abril, uma publicação no Facebook anunciou sua morte e a de outras nove pessoas, incluindo sua irmã pintora grávida e seu irmão de 10 anos. “Quando li, pensei que fosse um erro, liguei para ela e deixei uma mensagem”, conta o diretor.
O cineasta luta para aceitar o assassinato de Hassouna. Além disso, ela mostra um relatório do grupo de pesquisa Forensic Architecture, sediado em Londres, que confirma que foi um ataque planejado especificamente contra o fotojornalista. Eles os chamam de mísseis de precisão. São projetados para explodir em um local específico. Este, por exemplo, atravessou três andares até chegar ao segundo, onde Fátima morava, e explodiu, destruindo tudo. Eles sabiam exatamente quem eram os alvos. As fotos deles os incomodavam. Já assassinaram mais jornalistas assim. Além disso, fizeram isso no meio de um de seus supostos cessar-fogo. É um crime de guerra. E ela lamenta: "Ela deveria estar aqui comigo. Meus sentimentos estão com a mãe de Fátima, que ficou sozinha, sem família e sem pertences." A Repórteres Sem Fronteiras estima que Israel já matou mais de 200 jornalistas durante a invasão.
E o que você acha das homenagens a Hassouna, que inclusive foi mencionada na abertura de Cannes? "Eles não teriam mencionado a Palestina se ela não tivesse sido assassinada. E estão fazendo parecer que ela morreu na cama ou em um acidente de carro", ele insiste. A conversa acontece na sede do ACID na sexta-feira, após dias de bombardeios intensificados que mataram 300 moradores de Gaza, e após uma carta de 380 cineastas denunciando o "genocídio" em Gaza e o "silêncio" da cultura. "É que o Ocidente se escondeu. De minha parte, pelo menos conheci a Fátima, e a última ligação foi um momento de alegria. Fico feliz que ela pelo menos tenha tido isso."
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