14 Agosto 2024
Porretes com as inscrições “direitos humanos”, “diálogo” e “respeito” eram comercializados em posto de gasolina em Itaituba, no sudoeste do Pará.
A reportagem é de Daniel Camargos, publicada por Repórter Brasil, 13-08-2024.
As Polícias Civil e Militar do Pará apreenderam, nesta segunda-feira (12), porretes com mensagens de ódio à venda em um posto de combustível, em Miritituba, distrito de Itaituba, no sudoeste do Pará.
Os policiais foram a campo horas depois de uma reportagem da Repórter Brasil mostrar que tacos com as inscrições “direitos humanos”, “diálogo” e “respeito” eram comercializados em estabelecimentos locais.
“Claramente esses dizeres gravados nesses bastões fazem referência a atos de violência, de agressão, comumente difundidos”, disse o delegado de Itaituba, Pedro Victor de Azevedo, responsável pela apreensão. Segundo ele, a comercialização desses porretes é enquadrada no artigo 286 do Código Penal, que diz respeito a incitar publicamente a prática de um crime.
“É bom esclarecer que a conduta de incitação ao crime não precisa necessariamente ser através de falas, mas também de gestos e, como neste caso, de escritos”, detalhou o delegado.
Miritituba é um distrito de Itaituba, localizado no entroncamento das BR-163, a rodovia da soja, e da BR-230, a Transamazônica. Com vários postos de combustível, a região é rota obrigatória dos caminhões carregados de soja que vêm do Mato Grosso e descarregam os grãos nos portos na margem do Rio Tapajós.
O local fez parte da rota da equipe da Repórter Brasil, que percorreu 6 mil quilômetros entre o norte do Mato Grosso e o Sul do Pará, para a série de reportagens Ogronegócio: milícia e golpismo na Amazônia. O especial revela a aliança entre o bolsonarismo e a banda truculenta do agronegócio na Amazônia.
A investigação lista produtores rurais ligados a uma série de violações: de crimes ambientais, passando pelo envolvimento na tentativa de golpe de estado em 8 de janeiro de 2023, à criação de milícias rurais contra povos tradicionais e trabalhadores sem terra.
Os porretes foram fotografados pela Repórter Brasil, em setembro do ano passado, em um posto com a bandeira da rede Ipiranga. Procurada antes da publicação, a companhia enviou nota dizendo “que não compactua e repudia a venda de qualquer material ou item que faça apologia a qualquer tipo de violência”. O texto informa ainda que o revendedor, depois de notificado, teria retirado os produtos da área de venda.
A Polícia Civil, contudo, não informou em qual posto de combustível de Miritituba foram apreendidos os porretes nesta segunda-feira (12). Os artefatos recolhidos pela polícia paraense tinham grafadas as palavras “motivação”, “respeito” e “rivotril”, este último o nome comercial de um medicamento tranquilizante à base de clonazepam.
Durante a ação, os policiais ouviram o gerente do estabelecimento. Em depoimento, ele afirmou que não comercializaria mais este tipo de material. Segundo a Polícia Civil, o proprietário do estabelecimento será intimado para dar continuidade às investigações.
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